sábado, 16 de janeiro de 2016

A Evolução do Pensamento Médico no tempo

Variações sobre um tema original, "Medicina" no Mundo: História da Medicina II, Op.10
A Evolução do Pensamento Médico no tempo



Baixo-relevo (c. séc. IV a.C.) que representa o deus da cura Esculápio
e a sua filha Higéia, deusa da saúde.
Museu Arqueológico Nacional de Atenas

       Esculápio ou, em grego Asclépios, é filho de Apolo e de uma ninfa. Interessa-se pelos doentes e cura-os. Depressa se torna capaz de ressuscitar os mortos, desafiando assim as regras que governam o destino humano. Plutão, deus dos infernos, perante a diminuição do contingente de chegadas, queixa-se a Júpiter (Zeus), que castiga Esculápio. Mas este teve duas filhas que prosseguiram a sua obra: Hígia, da qual nascerá a higiene, que evita doenças, e Panaceia, que as cura. Morto Esculápio, os homens reconhecem nele um deus e os seus Asclepíades, seita de sacerdotes-médicos cujos tempos e ritos têm equivalentes nas outras medicinas antigas, consagram-lhe um culto. No século V a.C., na Grécia, a medicina dos Asclepíades é contestada por médicos laicos que têm o raciocínio filosófico por fundamento. Pitágoras, o célebre filósofo-matemático, inspira a escola de Crotona que critica os Asclepíades e rejeita o recurso ao divino para a procura de uma harmonia, essencialmente matemática, entre o homem e a natureza. Hipócrates, no domínio médico, personifica esta tendência. 

       Assim, há vinte e cinco séculos, os primeiros conflitos punham já em evidência os sentimentos que irão opor-se ao longo da história da medicina: a racionalidade contra o apelo ao sobrenatural, a prevenção contra o tratamento, o medo da transgressão contra a esperança de um milagre. Também desde a Antiguidade se defrontam duas concepções: o doente é responsável pela sua doença (violação de um tabu e/ou desrespeito pelas regras da higiene) ou, pelo contrário, é vítima inocente de acaso infeliz.

       A partir do momento em que, na sua primeira infância, o homem compreende o sentimento do seu destino, a recusa do inevitável domina a sua vida psíquica, permanecendo porém inscrito no mais profundo do inconsciente. Basta então uma preocupação de saúde para fazer ressurgir esta angústia. No Górgias, Platão faz dizer a Sócrates: "Haverá para o homem um bem mais precioso do que a saúde?" A resposta é evidentemente não, o que explica o lugar da medicina em todas as civilizações.

Reconstrução do templo de Esculápio em Epidauro, um dos santuários curativos mais luxuosos. Entre o tholos à esquerda
e o templo à direita, encontrava-se o abaton, onde os pacientes dormiam e eram curados durante o sono

       Desde os primórdios da medicina egípcia, à medicina micénico-cretense, grega, romana, até ao nascimento da medicina moderna, há dois séculos apenas, os progressos ultrapassaram as mais inimagináveis esperanças. A duração da vida passou de 25 anos, no fim do século XVIII, para 45 no fim do século XIX e actualmente já muito próxima das 8 décadas. Esta transformação da condição humana é o resultado de uma epopeia triunfal, mas rapidamente se nos depara um paradoxo. Enquanto o ritmo de crescimento da natalidade não parou de se acelerar, a medicina, o corpo médico, vêm sendo acusados há uma dezena de anos por uma insatisfação. Analisar as aspirações dos doentes e do público, as raízes da crescente eficácia dos cuidados médicos, os obstáculos e as causas da insatisfação das expectativas cada vez maiores é uma reflexão diária na prática médica. Manter a juventude, recuperar a saúde de uma doença, viver muito tempo constituem, desde o dealbar da humanidade, preocupações lancinantes. Os sacerdotes-curandeiros das civilizações primitivas e os magos do século XX são produtos da angústia existencial que, desde os tempos arcaicos, liga mal-físico e mal-estar moral, medo do sofrimento provocado pela doença e terror do nada. Assim, desde as origens, a medicina tem uma dupla missão: cuidar do corpo e curar a alma. Conforme as épocas e as civilizações, o acento é posto numa ou noutra das intenções.

       Para curar a juventude e a saúde, o homem sempre contou com intervenções sobrenaturais: da fonte da Juventude e do Estige onde Tétis mergulhou Aquiles para o tornar invulnerável, aos amuletos e outros talismãs; dos elixires que, desde a Idade Média, alimentaram a ilusão de uma medicina leve, até ao regresso à natureza apresentado como panaceia. A medicina moderna nasceu quando o homem renunciou a estas miragens. Desde há três séculos que o pensamento médico se vem tornando cada vez mais rigoroso e se aloja no domínio dos factos.

Reconstrução do Templo de Esculápio em Epidauro, visualização 3D.
Science Museum, London

       A história das civilizações pode dividir-se em dois períodos: antes e depois do nascimento da ciência. Depois bastam três séculos para que a razão se imponha em todos os domínios. A ciência emergiu pois de um longo caminho que permitiu libertar-se da visão de um mundo antropocêntrico construído em torno do homem por espíritos benévolos ou malévolos, mas que raciocinam como os homens para se chegar à concepção de um universo regido por leis que existem independentemente do homem. Este, graças ao seu intelecto, pode porém descobrir algumas delas. O sucesso deste esforço em astronomia com Copérnico, depois em física com Galileu e Newton, estimula os médicos. "A Arte está na natureza, é preciso extraí-la daí", dizia Durer; do mesmo modo, a doença está no doente, mas a sua extracção requer um esforço de abstracção, de esquematização que foi inspirado pelo exemplo da física. O médico, tal como o cientista, é influenciado pelas concepções da sua época. A medicina é revolta contra a natureza. Desde as suas origens, opõe-se ao curso espontâneo das coisas e rejeita a degradação de um organismo abandonado apenas à influência da natureza. Seja pela magia, pela sangria ou, mais tarde, pela cirurgia ou pela vacinação, o médico luta contra os desregramentos "naturais" que sobrevêm no organismo. Haverá coisa mais natural que a doença ou a morte?


No Século XVI, Miguel Ângelo pintou A criação do Sol, da Lua e dos Planetas
como obra de uma força sobrenatural. Capela de Sistina, no Estado do Vaticano, Roma.

       Religião e medicina foram durante muito tempo indissociáveis. A doença é a princípio um espírito demoníaco que invade o organismo. Mais tarde, torna-se uma punição, a consequência de uma maldição ou de um pecado. Nos três casos há que agir ao nível do sobrenatural, lutar contra o feitiço, cuidar da alma e purificá-la. Na Idade Média, a doença assume um sentido, reveste um valor, redentores. Vemos seguir-lhe e por vezes coabitar o mito, o pensamento arcaico, a fé religiosa.

       Nos meados do século XX torna-se claro que, com a ajuda da biologia molecular e da epidemiologia, todos os mecanismos vitais serão dissecados e as doenças vencidas ou evitadas. Triunfalismo logo premeditado, porque o envelhecimento subsiste. O fim das doenças não significa o fim da medicina. Irrefutavelmente a medicina torna-se cada vez mais psicológica e social. Modelos de construção hospitalar segundo as melhores evidências à época. De que serve tratar o corpo se o espírito estiver doente?

       A duração da vida que se prolonga, a eficácia crescente dos tratamentos, o nível sanitário que se eleva tornaram mais exigente a opinião pública. O médico já não é o salvador; é tanto mais criticado pelos seus fracassos quanto estes se tornam raros e parecem por isso resultar de erros.

Concluída em 1632 pelo pintor holandês Rembrandt Harmenszoon van Rijn,
"A Lição de Anatomia do Dr. Tulp" tornou-se a obra de arte mais conhecida pelos médicos

       A doença é uma alteração da ordem estabelecida, diz Hipócrates. Há meio século que o campo da Medicina se estendeu consideravelmente. As noções de saúde e de doença se alargam consideravelmente com a Organização Mundial de Saúde definir saúde como um estado de perfeito bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou deficiência física.

       Fernando Pessoa, sempre ele, diz quase tudo quando escreve: "Todos nós sabemos que morremos; todos nós sentimos que não morremos." Como podem, o cientista, o filósofo e médicos lidar com esta irrealidade do real? São estados fenomenológicos do paciente, aquilo que ele sente, vive e se esforça por relatar, são essenciais para o processo do tratamento ou cura.


Variações sobre um tema original, "Medicina" no Mundo: História da Medicina II, Op.10

ARS MEDICA ET CHIRVRGICA | Arte Médica e a História da Medicina
Representações da Condição Humana. Representações da Saúde e da Doença. Da Felicidade, Melancolia e do Desespero. Da Vida e da Morte. Na Arte, na Literatura, na Pintura, na Escultura, na Música. Fragmentos esparsos da Medicina na sua História.