Filme "A CANÇÃO DE LISBOA" de Cottinelli Telmo
com Beatriz Costa, Vasco Santana, António Silva, Manoel de Oliveira. Tóbis Portuguesa. Portugal, 1933 - 93 min.
A CANÇÃO DE LISBOA é a primeira, a mais famosa e sem dúvida a melhor das chamadas “comédias à portuguesa” e provavelmente o mais popular filme português de sempre. Foi também a primeira vez em que uma Faculdade, a de Medicina de Lisboa, adquire destaque na sétima arte e passa para o grande écran.
A CANÇÃO DE LISBOA é a primeira, a mais famosa e sem dúvida a melhor das chamadas “comédias à portuguesa” e provavelmente o mais popular filme português de sempre. Foi também a primeira vez em que uma Faculdade, a de Medicina de Lisboa, adquire destaque na sétima arte e passa para o grande écran.

Vasco vive da mesada das tias que vivem no Porto, que acreditam que o sobrinho é um aluno exemplar e que em breve se tornará um médico de renome. Mas ele, que raramente aparece nas aulas, prefere as festas e saídas à noite aos livros e calhamaços da faculdade. Divide ainda o seu tempo com Alice, a filha de José Caetano, candidato a Primeiro-ministro. A rapariga é a tentação de Vasco, mas o pai dela faz de tudo para arranjar melhor partido para a filha. Tudo parece correr bem até ao dia em que Vasco volta a chumbar o exame de final de curso ao mesmo tempo que recebe a notícia da visita das tias a Lisboa. Sem saber muito bem o que fazer para sustentar a mentira, o rapaz vai ter de usar de grande talento para as convencer de que o dinheiro que durante todos este tempo elas gastaram com ele foi bem empregue e que ele agora é um médico formado com uma carreira promissora pela frente…
Este filme iniciou uma Era de Ouro no cinema português. Para além de ser a primeira longa-metragem sonora feita em Portugal, também serviu de modelo para as comédias nacionais que se seguiram. A Evocação de ambientes lisboetas “típicos”, de modo semelhante ao que René Clair fazia com Paris, com vários actores lendários do cinema português e uma brilhante faceta musical para a qual contribuiu a partitura original composta por Jaime Silva Filho e René Bohet. Cottinelli Telmo, que era arquitecto, mistura com muita inteligência cenários naturais e cenários de estúdio, que reproduzem certos bairros de Lisboa. De notar a presença de Manoel de Oliveira num papel secundário.
A passagem pela Faculdade de Medicina de Lisboa, na altura no Campo de Sant'Ana, num dos seus dois anfiteatros é lendária. A imagem do estudante universitário diletante e do estudante de medicina "marrão" passou a ser uma das primeiras que até aos dias de hoje prevalece no subconsciente de todos aqueles partilham o ambiente académico. Expressões como "Chapéus há muitos, seu palerma!" repetida até à exaustão por Vasco no Jardim Zoológico de Lisboa, ou a imagem do alto de uma janela bairrista em que Vasco tenta contrariar os factos Alice (Beatriz Costa) a pedir que lhe cortem a cabeça se ousasse mentir e a janela cai como uma guilhotina ou o tema em que Alice desafina a canção "Ai chega chega a minha agulha...", uma inesquecível passagem de Beatriz Costa, são alguns dos momentos que para sempre ficaram no imaginário dos portugueses. O músculo esternocleidomastoideu extravasou todo o seu âmbito anatómico e adquiriu o tom jocoso na gíria popular. E o "Fado do Estudante" passou a ser um êxito e um símbolo do saudosismo estudantil que todos o sabem de "cor", com o coração. E não apenas nos que estudam em Medicina ou em Lisboa, mas em todo o país.
"Fado do Estudante". Um dos momentos mais conhecidos e reproduzidos de todo o filme.
Vasco (Vasco Santana), 1933.
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| Cena do Casamento entre Alice (Beatriz Costa) e Vasco (Vasco Santana) |
E se atrás leu Faculdade de Medicina de Lisboa, sim, leu bem. O edifício histórico e muito característico que hoje alberga a segunda escola médica em Lisboa (a Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa) foi no passado a Faculdade de Medicina de Lisboa, seja como sua sede durante mais de 40 anos, seja como património adstrito secundarizado mais tarde cedido em 1976 à Universidade Nova de Lisboa, que então se fundava.
Com a construção do Hospital Escolar de Santa Maria no início dos anos 50, a Faculdade de Medicina e os departamentos espalhados pelos restantes Hospitais Civis e Escolar de Santa Marta foram transferidos para as novas instalações que ainda hoje ocupam. O edifício histórico-sede da Faculdade de Medicina de Lisboa no Campo de Sant'Ana, fundado como Escola Médico-Chirvrgica a que originou a própria Faculdade de Medicina, construído e inaugurado pelo Rei D. Carlos no final do século XIX, passou entrou em declínio após as novas instalações da Faculdade. Em meados dos anos 70, após a o fim da ditadura salazarista, foi recuperado e aberto como a sede da segunda escola médica em Lisboa organicamente distinta da que lhe precedera, assim permanecendo até aos dias de hoje.
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| A Canção de Lisboa, de Pedro Varela, 2016 |
Em exibição em todas as salas de cinema em Portugal está um novo filme com o mesmo nome que faz parte da trilogia "Novos Clássicos" da cinematografia portuguesa (remake). Neste sentido, a este se menciona "O Pátio das Cantigas" (2015, o maior êxito de bilheteira do cinema português) e "O Leão da Estrela" (2015) . Com uma crítica, de uma forma geral, pouco favorável a arrasadora a cada um dos remakes, é também reconhecido que, neste último, "A Canção de Lisboa" foi o que dos três conseguiu uma crítica mais favorável tal qual reconhece-se ter sido também o que manteve o argumento mais próximo ao original. O terceiro filme da trilogia “Novos Clássicos” é uma adaptação da comédia homónima de Cottinelli Telmo que conta, no mesmo edifício de há 70 anos.
O trailer pode ser visualizado aqui: https://www.youtube.com/watch?v=o_DyJBoECvA
Conta com o argumento e realização de Pedro Varela, produção de Leonel Vieira, músicas originais de Miguel Araújo e banda sonora original de Nuno Maló. César Mourão, Miguel Guilherme, Luana Martau, Marcus Majella, Maria Vieira, São José Lapa, Carla Vasconcelos, Dinarte Freitas e Ruy de Carvalho dão vida às personagens.
Nas próximas semanas:
- História da Medicina em Portugal: Escola Médico-Chirvrgica de Lisboa
- Medicina na Pintura de Amadeo de Souza-Cardoso
- Medicina, Poesia e o Estetoscópio
Variações sobre um tema original, "Medicina" no Cinema I, Op.22
ARS MEDICA ET CHIRVRGICA | Arte Médica e a História da Medicina
Fragmentos esparsos da Medicina na sua História. Representações da Condição Humana. Representações da Saúde e da Doença. Da Felicidade, Melancolia e do Desespero. Da Vida e da Morte. Na Arte, na Literatura, na Pintura, na Escultura, na Música. Em todas as formas de Arte.
Nas próximas semanas:
- História da Medicina em Portugal: Escola Médico-Chirvrgica de Lisboa
- Medicina na Pintura de Amadeo de Souza-Cardoso
- Medicina, Poesia e o Estetoscópio
Variações sobre um tema original, "Medicina" no Cinema I, Op.22
ARS MEDICA ET CHIRVRGICA | Arte Médica e a História da Medicina
Fragmentos esparsos da Medicina na sua História. Representações da Condição Humana. Representações da Saúde e da Doença. Da Felicidade, Melancolia e do Desespero. Da Vida e da Morte. Na Arte, na Literatura, na Pintura, na Escultura, na Música. Em todas as formas de Arte.





