quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Medicina e Pintura: Amadeo de Souza-Cardoso

"Retrato de Médico" de Amadeo de Souza-Cardoso, 1916/17
Variações sobre um tema original, "Medicina" na Pintura II, Op.25

"Retrato de Médico" ou "Retrato de Paul Alexander", 1916/17.
Óleo sobre tela, Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.

     Provavelmente o mais importante artista modernista português, Amadeo de Souza-Cardoso viveu entre Paris (1906-1914) e Manhufe, norte de Portugal, convivendo em permanente diálogo autoral com as vanguardas e os artistas do seu tempo (como os seus amigos próximos Modigliani, Brancusi, Sonia e Robert Delaunay, entre outros).
     "Amadeo de Souza-Cardoso estudou e iniciou a sua obra em Paris para onde partiu aos 19 anos de idade. Curiosamente, Amadeo consolidou fortes relações de amizade ao longo da sua vida com alguns médicos, seus contemporâneos. O primeiro foi Manuel Laranjeira, médico, poeta e ensaísta, que terá sido determinante na escolha do caminho dos estudos artísticos aos 17 anos de idade. Em 1909, contactou com o dermatologista Paul Alexander e posteriormente o Dr. Martins, que acompanhou o pintor nas Termas das Taipas, por uma dermatose que o impediu de pintar nos últimos tempos de vida. Descrita como um eczema que comprometia as mãos e a face, provavelmente uma dermite de contacto alérgica a tintas ou outros produtos que não chegou a ser esclarecida, com a morte precoce do artista aos 30 anos por ‘febre pneumónica’. As doenças profissionais comprometem a prática de muitas profissões e os artistas plásticos, nomeadamente os pintores, constituem um dos grupos de risco. O contacto com diversos componentes de tintas, diluentes e produtos de limpeza está associado à sensibilização por contacto e os alergenos responsáveis por dermites de contacto alérgicas vão mudando, de acordo com os padrões de utilização e composição dos produtos.  
     A influência do médico Manuel Laranjeira, amigo mais velho e seu fiel conselheiro, na vida e escolhas de Amadeo é testemunhada na vasta correspondência que mantêm até à morte do último em 1912. Em 1909, Amadeo conhece [...] Paul Alexander, um médico dermatologista, o principal divulgador da obra de Modigliani e fundador de uma colónia de artistas, o chamado Grupo Delta. [...] Contudo, no ano de 1914, a estadia de Amadeo em Portugal prolonga-se pelo impedimento de regressar a Paris causado pelo deflagrar da Primeira Guerra Mundial. O período de isolamento em Portugal é considerado por muitos uma fase de maturação da sua pintura. Entretanto, em 1915 aproxima-se de Sonia e Robert Delaunay (já seus amigos dos tempos de Paris) que se instalam em Vila do Conde e posteriormente reata as relações com Eduardo Viana e Almada Negreiros, entrando em contacto com o grupo dos “Futuristas” lisboetas, reunidos em torno da revista Orpheu. 
     Em 1918, ainda em Portugal mas com intenção de regressar a Paris, manifestam-se os sintomas da dermatose que vai impedir Amadeo de pintar. Os relatos sobre a doença são escassos e mencionados em correspondência com Victor Falcão (Carta de Victor Falcão a Amadeo) e com Lucie (Carta de Amadeu a Lucie, escrita durante estadia nas termas das Taipas). A dermatose descrita envolvia a face e as mãos e impediu o artista de pintar nos últimos tempos de vida, apesar do acompanhamento e tratamento médico, a cargo do Dr. Martins nas Termas das Taipas. Ainda que a dermatose do pintor Amadeo de Souza-Cardoso não tenha sido esclarecida, com morte precoce do artista aos 30 anos de idade com ‘febre pneumónica’, as descrições referidas nos documentos supramencionados fazem pensar que provavelmente tratava-se de uma dermite de contacto, associada à exposição a tintas, seus pigmentos, veículos, solventes ou outros produtos de limpeza. As doenças profissionais associadas à actividade de pintura foram reconhecidas pela primeira vez em 1713 por Ramazzini, autor de De Morbis Artificum Diatriba, marco na área da medicina ocupacional.  
     [...] Os pigmentos e corantes são usados desde antiguidade e podem ser corantes químicos sintéticos ou obtidos a partir de produtos naturais comuns tais como: minerais, frutos, raízes e ou insetos. Os pigmentos inorgânicos são obtidos da terra (ocres, por exemplo) ou produzidos a partir de metais ou minerais (como o branco ou azul cerúleo chumbo). No grupo dos metais potenciais alérgenos e utilizados em tintas encontram-se: o níquel, cobalto e o crómio (utilizados nos pigmentos de cor azul e verde). [...] Os solventes são responsáveis por cerca de 6-20% dos casos de dermite ocupacional e destes a aguarrás (terebentina) é o mais frequentemente usado na pintura a óleo. A terebentina é uma oleorresina obtida por destilação de resina de coníferas (ex.: resina do pinheiro) e é composta por: um óleo volátil (essência de terebentina), responsável pelas suas propriedades como solvente (para diluir pigmentos, dissolver e remover lacas, vernizes, ceras e tintas e limpar pincéis) e por um resíduo não volátil (colofónia), presente também em muitos adesivos. Tanto a terebentina como a colofónia são potenciais alérgenos e estão descritas reações de sensibilidade cruzada com: plantas da família das Compositae (ex.: crisântemo), Bálsamo de Peru, benjoim, óleo de ambrósia, hortelã-pimenta e tea tree oil. [...] Nas pinturas a óleo as tintas contém óleos, mais frequentemente o óleo de linhaça pré-polimerizado, mas também sementes de papoula, nozes e girassol. Apesar de não conterem ingredientes voláteis, as tintas de óleo são habitualmente diluídas e limpas com solventes voláteis, acartando consequentemente risco de irritação ou sensibilização. 
     O quadro deste médico foi pintado pouco tempo antes da morte do pintor. É um bonito quadro com cores muito vivas. Representa o médico com uma gravata estilizada. O uso ou não da gravata pelos médicos tem sido acompanhado de alguma polémica, já que alguns estudos mostram o risco de transmissão de bactérias aos doentes, decorrente do uso de gravatas pelos médicos. Amadeo de Souza-Cardoso viria a falecer de gripe, no decurso de um surto pandémico. A Gripe de 1918, (frequentemente citada como Gripe Espanhola) foi uma pandemia do vírus influenza que se espalhou por quase toda parte do mundo. Foi causada uma estirpe do vírus Influenza A do subtipo H1N1. A origem geográfica a pandemia de gripe de 1918-1919 é desconhecida. Foi designada de gripe espanhola, gripe pneumónica, peste pneumónica ou, simplesmente, pneumónica. Calcula-se que afetou 30-50% da população mundial, tendo sido responsável pela morte de 40 -100 milhões de pessoas (3-6% da população mundial), pelo que foi classificada como a epidemia mais grave de todos os tempos. Estima-se que em Portugal tenham morrido cerca de 120.000 pessoas, entre elas os ‘pastorinhos’ de Fátima, Jacinta e Francisco Marta. A taxa de mortalidade foi de 10-20%. A gripe é uma doença evitável com a vacina. O impacto social, cultural e pessoal dos surtos e epidemias de gripe é muito elevado.
Excertos de "A Medicina na Obra de Amadeo de Souza-Cardoso". Ana Rita Travassos , L. Soares-de-Almeida, Rui Tato Marinho. Acta Med Port 2014 Mar-Apr;27(2):277-280.  http://www.actamedicaportuguesa.com/revista/index.php/amp/article/viewFile/5376/3925


     Souza-Cardoso atravessou velozmente e num tempo muito curto, os movimentos de rutura artísticos do seu tempo (cubismo.futurismo, expressionismo, abstraccionismo), em passagens sucessivas, criando o vocabulário próprio e inconfundível de um grande criador. Precocemente desaparecido, em 1918, vítima de gripe pneumónica, o seu percurso artístico e a visibilidade das suas obras foram interrompidos. Deixou-nos, contudo, para reflexão, o legado de um trabalho intenso, experimental e único no contexto das vanguardas do século XX. Ainda entre abril e julho deste mesmo ano esteve em grande destaque numa exposição em Paris no Grand Palais, com a curadoria de Helena de Freitas. Uma coordenação da Réunion des musées nationaux - Grand Palais e da Fundação Calouste Gulbenkian.


Variações sobre um tema original "Medicina" na Pintura II, Op.25

ARS MEDICA ET CHIRVRGICA | Arte Médica e a História da Medicina

Representações da Condição Humana. Representações da Saúde e da Doença. Da Felicidade, Melancolia e do Desespero. Da Vida e da Morte. Na Arte, na Literatura, na Pintura, na Escultura, na Música. Fragmentos esparsos da Medicina na sua História.