segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

De humani corporis fabrica libri septem

Variações sobre um tema original, "Medicina" no Mundo: História da Medicina I, Op.9

Um precioso excerto do Prof. Manuel Valente Alves reflete e reencontra a História da Medicina em Vesálio na representação à época d'"A medicina e a arte de representar o corpo e o mundo através da anatomia"

       "Médicos e artistas partilharam, na Antiguidade, o mesmo interesse pela anatomia mas sob diferentes perspectivas: os primeiros, na tentativa de desvendar os mistérios do corpo e da vida (Aristóteles e Galeno dissecaram cadáveres para compreender a razão de ser do corpo humano); os segundos, na busca da proporção, da beleza exacta que permitia aproximar o mundo dos homens ao dos deuses (Fídias, contemporâneo de Policleto, esculpiu os deuses sob a forma humana no Pártenon): «Se os fenómenos naturais revelam ao olho humano apenas aspectos não essenciais, aleatórios e passageiros, então a arte tem de criar para eles o essencial, o significativo, as partes eternas» (Riegl 1897­‑1898 Historical Grammar of the Visual Arts. Translated by Jacqueline E. Jung. New York: Zone Books, 2004)
       Sendo praticamente impossível aceder aos originais (a maioria desapareceu), a leitura de fontes literárias, como os Placita Hippocratis et Platonis de Galeno, pode dar­‑nos, como sugere Erwin Panofsky, alguma informação sobre a antropometria clássica, ajudando­‑nos a compreender melhor a teoria grega das proporções: «Crisipo […] defende que a beleza não reside nos elementos mas na proporção harmoniosa entre as partes, a proporção de um dedo com o outro, de todos os dedos com o resto da mão, do resto da mão com o pulso, deste com o antebraço, do antebraço com o braço todo, afinal, de todas as partes com todas as outras, como está escrito no cânone de Policleto» (1955:53 O Significado nas Artes Visuais. Tradução de Diogo Falcão. Lisboa: Editorial Presença, 1989).
       A anatomia humana descritiva foi a primeira disciplina a autonomizar­‑se dos saberes tradicionais. A ideia descritiva, quer da morfologia defendida por Galeno na Antiguidade (visão do corpo do homem como o de um animal na plenitude do seu movimento vital), quer da morfologia de Vesálio no Renascimento (o corpo humano como uma estrutura arquitectó­nica), manteve­‑se pelo menos até ao começo do século XIX. 
       A morfologia funcional galénica, adaptada às diversas mentalidades que integravam o mundo medie­val, regeu praticamente todo o saber médico da Idade Média, quer no mundo árabe quer no Ocidente cristão. 
       As ideias de Mondino dei Luzzi (fl. 1270­‑1326), que fez renascer a anatomia ocidental no século XIV, apesar de algumas peculiaridades, não se distinguem das de Galeno e Aristóteles. A anatomia vesaliana imperou desde meados do século Xvi até à morfologia anátomo­‑comparativa posterior ao século XVIII. O que não foi óbice para que ambos os critérios, o funcional e o arquitectural, se juntassem, como sucedeu com o conhecido tratado De corporis humani fabrica de Samuel Thomas von Sömmerring (1755­‑1830), publicado em Frankfurt entre 1794 e 1801. [...] 

Vesálio tal como surgiu na primeira edição de De fabrica

       Em 1543, Andreas Vesalius (1514­‑1564) publica em Basileia De humani corporis fabrica libri septem, uma obra­‑prima, magnificamente ilustrada provavelmente por Jan van Calcar (m. 1568), um artista originário, tal como Vesálio, dos Países Baixos. Os blocos executados em Veneza foram enviados para Basileia, onde o impressor Johannes Oporinus os utilizou para produzir duas edições de De fabrica.
       De fabrica oferece­‑nos um estudo anatómico e fisiológico detalhado de todas as partes do corpo humano, baseado no trabalho de Vesálio como prossector público na Universidade de Pádua, onde era permitido (contrariamente ao que acontecia em Roma) dissecar cadáveres humanos (em geral de condenados à morte). As suas observações atentas e rigorosas vieram corrigir muitos dos erros de Galeno e dos seus seguidores permitindo um claro progresso da medicina.
       Este tratado de anatomia é um objecto de rara beleza, em que tudo se articula maravilho­samente bem – as formas, os símbolos, as palavras –, um verdadeiro monumento do desenho gráfico. Repare­‑se na página de rosto. Trata­‑se da imagem de uma movimentada cena de dissecação, plena de simbolismo. No centro da cena está Vesálio, em pessoa, conduzindo com as suas próprias mãos a dissecação, relevando deste modo a importância da experiência pessoal. Encontra­‑se rodeado por numerosa assistência, de que se destacam os quatro mais proeminentes anatomistas da antiguidade – Aristóteles, Herófilo, Erasístrato e Galeno – em cuja linhagem se pretende inscrever: «Ao introduzir os Antigos deste modo, Vesálio está a retratar­‑se a si próprio como um “Moderno­‑Antigo”, e acima de tudo como um homem do Renas­ci­mento» (Cunningham; Hug, Focus on the Frontispiece of the Fabrica of Vesalius, 1543. (Catálogo da exposição). Cambridge: Cambridge Wellcome Unit for the History of Medicine, 1994.).
      
Pormenor da página de título da obra De humani corporis fabrica.
Vesálio esteve intensamente envolvido na produção do livro, tendo escolhido o papel e supervisionado as gravuras

       As mais de duzentas ilustrações do De fabrica estão divididas em três categorias: o esqueleto, do qual há três ilustrações, os músculos, em número de catorze, e as partes individuais do corpo. As gravuras mais impressionantes são as dos músculos que estão dispostas de forma a mostrar uma progressiva dissecação, desde a superfície do cadáver até às suas camadas mais profundas.
       O cadáver é representado em poses «vivas», numa encenação em que não falta a alegoria paisagís­tica, a ideia da Arcádia, o mítico paraíso terrestre. Assim, o uso da paisagem como fundo destina­‑se não só a criar um sentido de realidade e perspectiva às figuras anatómicas, mas também a evocar um tema clássico inspirador de muitos artistas do Renascimento à actualidade. Recordo, só a título de exemplo, duas magníficas pinturas do artista neoclássico francês Nicholas Poussin (1594­‑1665), uma de 1628/29 e outra de 1638/40, exemplificadoras da persistência da tradição da paisagem arcadiana no século seguinte. Em ambas um grupo de pastores descobre um túmulo na paisagem com a inscrição Et in Arcadia ego, mas os significados, no entanto, divergem: num caso Poussin reflecte sobre a morte e no outro sobre a mortalidade. Com efeito, a conhecida frase latina «tanto pode significar no primeiro quadro», num contexto em que o drama e a surpresa se impõem, «que a morte se instalou definitivamente na Arcádia (transformando­‑a num paraíso irremediavelmente perdido), como mais poética e realisticamente no segundo quadro», em que reina um ambiente de calma e reflexiva serenidade, «que quem ali está sepultado nasceu, viveu e morreu na Arcádia, passando deste modo a fazer parte da própria natureza arcadiana, uma natureza também ela humana» (Alves, Manuel Valente «Et in Arcadia ego». Colóquio Artes. 108:(1996)17­‑22).

Et In Arcadia Ego, também conhecido por Les bergers d'Arcadie (Os pastores da Arcádia),
pintura de Nicolas Poussin (1594-1665), patente na exposição permanente do Museu do Louvre, Paris

       É nesta tradição que se inscrevem os fundos das catorze xilogravuras de músculos do De fabrica, desenhados com a mesma clareza e rigor que os objectos anatómicos em si, formando duas paisagens contínuas. Curiosamente, só em 1964 é que a conectividade com os segmentos do verso dos frisos panorâmicos foi pela primeira vez reconhecida, sendo hoje praticamente certo que a topografia tem uma relação directa com as «arcadianas» colinas Euganei, entre Pádua e Veneza, celebradas na época pela sua beleza pitoresca e pelo calor das suas primaveras. Refira­‑se também a utilização de elementos clássicos, como o Torso de Belvedere de Apollonius, a Vénus de Milo, o Doríforo de Policleto, conhecidas esculturas da antiguidade que serviram de modelo para algumas ilustrações.
       Uma segunda edição revista é publicada por Oporinus em 1555. Nela, Vesálio põe pela primeira vez claramente em causa a tradição, demonstrando que, contrariamente às afirma­ ções de Galeno, não existem poros interventriculares no coração, pelo que o sangue não pode passar do ventrículo esquerdo para o ventrículo direito através do septo. Estavam assim abertas as portas à descoberta da circulação por William Harvey (1578­‑1657) que, em 1628, publica Exercitatio anatomica de motu cordis et sanguinis in animalibus, o livro fundador da fisiologia moderna onde demonstra que o coração funciona como uma bomba e o sistema circulatório como um circuito fechado. [...]

       Concluindo: tal como o trabalho de Leonardo e Vesálio no século XVI, a obra paradoxal de Albinus no século Xviii é verdadeiramente um trabalho de charneira, que representa o fim de uma era e o começo de outra no campo da ilustração anatómica. Muitas questões estavam em jogo nas mudanças filosóficas, políticas, artísticas, científicas, religiosas e sociais operadas na segunda metade do século Xviii. A ciência (iluminista) do sujeito que então nascia irá mostrar, daí em diante, a morte tal como ela é, ausência de vida, enquanto que a arte do cená­ rio nunca mais há­‑de conjurar o cadáver em ambientes de imaginários morais, poéticos e teológicos.

Manuel Valente Alves em "Arte Médica e Imagem do Corpo". Catálogo da exposição homónima da Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa, 2010



Página de título da obra De humani corporis fabrica, onde se vê Vesálio num amplo anfiteatro anatómico a dissecar um cadáver de uma mulher. 

       O Homem celebrado como o pai da Anatomia é um flamengo chamado Andreas Vesálio (1514-1563), filho de um boticário. Estudou em Luvaina, Montpellier e Paris, e em 1537 foi para Pádua viver com um compatriota, Stephen Calcar, que aprendia pintura com Ticiano. Calcar ilustrou magistralmente o trabalho de Vessálio, contribuindo muito para a fama do anatomista. No mesmo ano, Vesálio foi nomeado professor de medicina e anatomia, e em 1538 foi publicada a sua obra Tabulae anatomicae sex, "Seis gravuras anatómicas", que continha os eternos erros de Galeno.

       Mas ao longo dos cinco anos seguintes, Vesálio desembaraçou-se dos dogmas de Galeno e em 1543, com apenas vinte e oitos anos de idade, terminou o seu monumental estudo, De humani corporis fabrica libri septem, "Sete livros sobre a estrutura do corpo humano", provocando um escândalo. A maior parte dos professores da universidade eram adeptos de Galeno e manifestaram-se contra Vesálio, contestando ferozmente a sua obra.

       Vesálio acertou onde tantos outros tinham errado, mas a sua intenção não era triunfar por razões pessoais. O mar de ignorância que tinha de encarar era vasto e também havia a má vontade dos seus antagonistas. Incapaz de se opor a eles, irritado pelos colegas e ameaçado pela Igreja, Vesálio queimou todos os seus estudos por publicar, partindo seguidamente para Pádua para se tornar médico do imperador Carlos V, e mais tarde Filipe II de Espanha. E assim terminou uma brilhante carreira científica. Passou-se algum tempo antes dos outros cientistas começarem a apreciar a obra de Vesálio. A revelação dos erros de Galeno foi um grande choque. E o pior de entre eles estava relacionado com a anatomia do fígado, o maxilar superior e o útero. O que mais contrariava os seguidores de Galeno era o facto de Vesálio não aceitar a existência de poros no septo através do qual o sangue passava do ventrículo direito para o esquerdo. Também é estranho que Galeno, autor de numerosas dissecações, tenha errado na descrição de tantas partes do esqueleto, como o esterno, o sacro e as cartilagens articulares do joelho. É verdade que o trabalho de Vesálio não era desprovido de erros. Não tinha, por exemplo, compreendido bem o mecanismo de circulação; colocava a lente ocular no centro da pupila; julgava que a vena cava vinha do fígado; que havia um músculo no interior do nariz e sete e não doze pares cranianos. No entanto, De fabrica podia ser considerado como um dos mais importantes livros publicados, e a base da Medicina moderna.


Variações sobre um tema original, "Medicina" no Mundo: História da Medicina I, Op.9

ARS MEDICA ET CHIRVRGICA | Arte Médica e a História da Medicina
Representações da Condição Humana. Representações da Saúde e da Doença. Da Felicidade, Melancolia e do Desespero. Da Vida e da Morte. Na Arte, na Literatura, na Pintura, na Escultura, na Música. Fragmentos esparsos da Medicina na sua História.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Crónica escrita em voz alta como quem passeia ao acaso por António Lobo Antunes



Crónica escrita em voz alta como quem passeia ao acaso | António Lobo Antunes

   Para mim em criança o Hospital Miguel Bombarda eram pessoas a fazerem-me chichi em cima e a cantarem o fado. O meu pai deixava-me no pátio dentro do carro enquanto ia trabalhar e homens de cabeça raspada fardados de cinzento andavam de olhos de vidro em torno do meu pânico. De tempos a tempos um deles remexia a braguilha na pressa atarefada de quem procura os trocos no bolso, aproximava-se do automóvel, alargava as pernas regaladamente e urinava contra a janela do outro lado da qual eu engrenava uma após outra as Ave-Marias do terror.

   No Natal sentavam-me numa cadeirinha de veludo junto do director inválido, os olhos de vidro ofegavam em bancos corridos por trás de mim, um senhor de patilhas com uma guitarra e um senhor de patilhas com uma viola surgiam numa espécie de palco, enfiavam as unhas postiças nas cordas e Hermínia Silva, Márcia Condessa e Fernanda Baptista dobravam o queixo para trás e uivavam à lua de nariz no tecto, como os cães de guarda das quintas. Assim que se calavam, uns sujeitos de branco pastoreavam os olhos de vidro pelas escadas abaixo talvez para fazerem chichi contra os automóveis das fadistas e o director inválido de cara à banda 
   (o seu rosto eram metades completamente diferentes que se ignoravam uma à outra com absoluto desdém) 
   presidia a uma espécie de lanche durante o qual eu com um pastel de bacalhau cravado num palito a meio caminho entre o pasto e a boca, mirava extasiado as cantoras que introduziam pastéis de nata sucessivos nos enormes lábios vermelhos; o tranquilo canibalismo destes passes de mágica fascinava-me e eu esperava sempre vê-las pregarem o nariz no tecto entre duas dentadas, alargarem os ombros trágicos nas franjas do xaile e soltarem os seus gritos trémulos que fosforesciam sobre croquetes e tacinhas de doces.

   Muitos anos depois troquei o Hospital de Santa Maria pelo Hospital Miguel Bombarda, diplomaticamente convidado a ir-me embora por ter dito ao chefe de equipa que ele cruzava as pernas como se não tivesse nada entre elas
   (continuo a achar que não tinha)
   e o que encontrei foi uma mistura de filme de Fellini com o casarão da minha avó, cheio de infelizes a cambalearem sob a martelada das pastilhas e tantos percevejos que se não viam os médicos.

   Não me lembro já qual das minhas filhas me perguntou se o Hospital Miguel Bombarda se chamava Hospital Miguel Bombarda porque Miguel Bombarda tinha sido um grande maluco mas deve ter sido a mesma que ao ver a rotunda e a estátua do Marquês de Pombal declarou que nos achávamos diante do Ramiro Leão. Talvez o Miguel Bombarda tenha de facto sido um grande maluco mas eu fui muito mais doido ao acreditar nos psiquiatras
   (como não aprendo com os erros tempos depois acreditei nos críticos literários)
   nos antipsiquiatras, nos psicanalistas, nos psicólogos, nesse enxame de patetas enfáticos erguendo das cabeças dos outros pomposos castelos de cartas e teorias sem humor.

   Hoje acredito em pouca coisa. Não acredito nos psicanalistas nem nos intelectuais, mas acredito na Isabel quando diz: Gosto muito de si pai. Ontem por exemplo passámos um dia maravilhoso no Cascais Shopping
   (um sítio lindo)
   assistimos ao filme Querida Ampliei os Miúdos
   (há séculos que não se via uma fita tão boa)
   jantámos hamburgers no McDonald's
   (um restaurante esplêndido)
   combinámos passeios de bicicleta em Agosto na Praia das Maçãs e aceitámos vários novos sócios para o Clube dos Mais, fundado por Saul Bellow, pela Joana e por mim. Entre outros foram admitidos o mais bonito dos feios e o mais feio dos bonitos, o mais cabeludo dos carecas e o mais careca dos cabeludos.

   Depois passeámos aos encontrões de mão dada
   (que bom)
   a ver lojas, ambos com os dedos sujos de lápis de cor dos trabalhos de casa que fizemos a meias, e eu tive a certeza de nunca ir morrer. Lembrei-me quando a minha filha mais velha me telefonou aflita para comunicar que tinha tido a primeira menstruação, de lhe mandar um ramo de flores, participar dias depois com o orgulho dos sedutores de sucesso
   - Como vês sou o único homem que te manda flores
   e de ela responder
   - Não, é só o primeiro.

   O problema com as filhas é que se é apenas o primeiro, de forma que nos resta, julgo eu, tentar salvá-las dos chichis, dos fados e dos psicanalistas intelectuais. O que é mais ou menos tudo a mesma coisa. E repetir-lhes o que Cendrars explicou uma ocasião à filha: todos os livros do mundo não valem uma noite de amor.
   (As noites de amor com outros bem entendido e, claro, os livros que não foram escritos por nós.)

in Público Magazine Nº 156, 28 de Fevereiro de 1993

Variações sobre um tema original, Medicina na Literatura I, Op.8

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Quem Foi Miguel Bombarda?

   Médico e político notável, Miguel Augusto Bombarda foi um dos maiores psiquiatras portugueses de sempre, tendo-se notabilizado pelo impulso que deu ao ensino desta especialidade no nosso país. Natural de Rio de Janeiro, onde nasceu em 1851, Miguel Bombarda formou-se em 1877.
   Começou por trabalhar no Hospital de S. José, foi director do Hospital de Rilhafoles e professor da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa (Filosofia e Histologia). Foi presidente da Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa e Fundador do Jornal de Medicina Contemporânea. Interessou-se pela política muito tardiamente, tendo sido deputado. Aderiu ao movimento republicano e esteve envolvido no movimento anti-monárquico que levaria à instauração da República.
   Miguel Bombarda faleceu no seu gabinete no dia exacto em que a revolução republicana estalou, no dia 3 de Outubro de 1910, vítima de assassínio perpetrado por um louco internado no seu Hospital.        Escreveu entre outras obras: Dos Hemisférios cerebrais e suas funções psíquicas, A Pelagre em Portugal, O delírio do ciúme, Distrofias por lesões cerebrais, O caso de Josefa Greno, etc.

Retrato a óleo sobre Tela do Prof. Miguel Bombarda, de 1911, Veloso Salgado.
Museu Miguel Bombarda

O Professor Doutor ANTÓNIO BARBOSA traçou um perfil na Geração Médica de 1911

"*Bombarda - estou a vê-lo - alto, seco, grisalho, empertigado, um pouco brusco, tipo de militar à paisana, os olhos vivíssimos faiscando por detrás dos cristais da luneta, pertencia ao número de homens fortes, que não inspiram simpatia mas que irradiam confiança, que não criam amigos mas que têm o perigoso poder de congregar outros homens em volta de si. Inteligência fulgurante, erudição médica exaustiva", no sagaz retrato oratório de Júlio Dantas, complementar de outros dois retratos de Bombarda, por via da pincelada académica de Veloso Salgado e do preâmbulo psicológico de Columbano.

Bombarda, homem totalmente incubado no seu tempo e, por isso, também, inaugurador de outros tempos, insinuou-se em todos os assuntos referentes à sua profissão, das ciências médicas à higiene e saúde públicas. Transpôs para todos os domínios da vida médica e paramédica a sua personalidade e mentalidade universitária, norteando por uma linha coesa e constante de pensamento teórico.

Corajoso nos desafios que incendiou, estribado na sua fé no progresso e liberdade, foi um dos fundadores da psiquiatria portuguesa e o principal antecipador da geração de 1911, que veio a consagrar a medicina científica em Portugal.

Percorramos algumas avenidas do ser percurso biográfico, iniciado no Rio de Janeiro em 6 de Março de 1851. De formação tradicionalista, católico fervoroso e legitimista, traduz, aos 15 anos, um romance religioso e moral: Paulo ou os Perigos de um Carácter Fraco, editado de acordo com a educação recebida do pai, sectário miguelista, dogmático e racicamente preconceituado.

Bombarda estuda na Escola Politécnica e na Escola Médico-Ciruúgica de Lisboa, onde se distingue como aluno brilhante. Defende tese inaugural em 1877 sosbre "Delírio das Perseguições" e, no mesmo ano, a tese de concurso "Dos Hemisférios Cerebrais e suas Funções". Médico cirurgião do banco do H. S. José (1879), passa a cirurgião etraordinário em 1884.

É Director do Hospital de Rilhafoles (actual H Miguel Bombarda) em 1892. Conhecedor da instituição, desenha o plano de acção como "a reorganização sanitária, nosocomial, disciplinar, policial e administrativa de Rilhafoles". De assinalar a unidade entre acção médica e administrativa e a atribuição aos serviços médicos de actividades de investigação clínica e laboratorial e, posteriormente, de ensino.

"Transformar, á custa de uma tenacidade inquebrantável, de uma energia que desafiava todos os obstácuos, de uma actividade que vencia todas as inércias, de uma vivacidade que pulverizava todas as rotinas, um edifício que era uma monstuosidade higiénica e uma vergonha para a psychiatria portuguesa, num estabelecimento modelar pelo ser funcionamento e tão bom quanto possível pela sua instalaão, tal foi a tarefa gigantesca a que se lançou o Prof. Bombarda, ao tomar conta da direcção do Hospital de Rilhafoles", no dizer do Prof. Augusto de Vasconcelos.

Refunda e organiza e higieniza as instalações. Estabelece uma nova organização, assente em modernos critérios de diferenciação nosocomial. Suspende, num primeiro tempo, a tradição de terapêutica repressiva dos estados de agitação. Activa modelares práticas hidroterápicas e introduz precursoramente meios ergoterápicos, humanizando, assim, a abordagem do doente mental. Nos seus notáveis relatórios (desde 1892/93) sobre o serviço do hospital, documentos imprescindíveis sobre a assistência psiquiátrica portuguesa, pode-se apreciar: "Todos sabemos as pagas mesquinhas com que se remuneram os serviços e que não permitem a mais somenos selecção e, em compensação, obrigações que se lhe devem exigir, redundando numa disciplina que hoje pode existir perfeita...". "Nesta como em tantas outras questões, nós lutamos com este misoneismo do meio, que, por inércia ou por herança de vícios mentais, se opõe à implantação de coisas realmente úteis, quando novas". "O que se pode dizer-se é que tudo o que se faça nesta questão, e primeiro que tudo o curso de enfermeiros, será o melhor dos progressos nos nossos hospitais". Utiliza Rilhafoles como clínica universitária e abre (1896) um curso livre de Psiquiatria, para estudantes médicos, com lições periódicas todos os domingos. São dele as seguintes palavras proposicionais (1893): "O vasto material existente no Hospital é totalmente desaproveitado para o ensino. Os estudantes da Escola Médica passam o curso inteiro sem que nunca se lhe tenha apresentado um alienado... Daqui vem a falta de ilustração médica geral em questões de alienação mental, e a triste significação da maior parte dos atestados que acompanham os doentes admitidos em R. bem como a relutância que é ordinária na profissão em se prestar a exames na especialidade. Esta situação carece de remédio... Não querendo fazer especialistas de todos os clínicos, há pelo menos um certo grau de ciência especial que deve fazer parte da ilustração geral do médico prático, sob pena de o ver mil vezes embaraçado em presença de questões insignificantes, dum tratamento inteiramente exequível fora do hospital, dum prognóstico que lhe pode gravemente lesar a reputação".

É professor substituto durante três anos, na secção médica (desde 1880) da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, onde veio a ocupar, de seguida e durante 20 anos, como lente proprietário, a 2.ª Cadeira (Fisiologia e Histologia) e, a partir de 1903. a 14ª Cadeira (Fisiologia Geral e Histologia). Professor ilustrado, de lavra mais teórica do que verdadeira vivência, impaciente de certezas que sancionem as fáceis deduções e generalizações que um temperamento arrebatado e uma fremente e superior inteligência produz sem receio e, por vezes, sem o devido temperamento crítico, é conduzido para relevantes e inovadoras perspectivas de que são exemplo o notável estudo sobre a pelagra (prevento muito do que hoje sabemos) e a feliz previsão científica de que o agente da doença do sono seria um protozoário (patente no aviso a Aníbal Bettencourt, bacteriologista que chefiava missão de estudo a África). Recebe, com não disfarçado entusiasmo, a descoberta da mutualidade de conexões entre células, nomeadamente os prolongamentos neuronais, por Ramon y Cajal, confirmando a sua suspeitada teoria inicial, que comportava em si a chave de muitos fenómenos psíquicos normais e patológicos. O organicismo lateja desde as primeiras contribuições na sua peculiar concepção da vida mental: "O pensamento é apenas um fenómeno de combustões acompanhado da conversão do calor produzido em outros movimentos - movimentos celulares das células nervosas -, que produzem como resultante dos seus complexos e variadíssimas combinações, o espírito". Inspiração biologista - "o futuro das sociedades e de quanto se refere à psicologia do homem está por inteiro enfeixado na biologia" - assumida radicalmente no discurso inaugural do ano académico 1900-1901, proferido na Sociedade de Ciências Médicas, intitulado "A Biologia na Vida Social". Expressamente convicto das desmedidas possibilidades do estudo anatómico do cérebro para explicar a génese das alterações psíquicas (entusiasmo bem demonstrado na autópsia de Josefa Greno, caso que pretextou a recolha de inúmeros pareceres internacionais), adopta a psicologia materialista, pretendendo apoiá-la no substrato anatómico que a nova teoria dos neurónios permite. Não deixa de alvoroçadamente repetir: "O neurónio move-se e, porque se move, pensa e sente". Nunca se arrogando em investigador experimental, cerca-se estrategicamente dos melhores colaboradores e cria, em Rilhafoles, o laboratório onde Marck Athias germinará um dos viveiros experimentalistas, gerador da moderna medicina e investigação científicas portuguesas através dos seus discípulos Carlos França, Azevedo Neves, Pinto de Magalhães, Celestino da Costa.

A propósito do ensino médico escreveu: "Não há espírito de rotina, não há paixões mesquinhas que consigam parar o movimento das ideias, quando elas representam um progresso legítimo e verdadeiramente proveitoso e por mais que se adiantem do tempo em que aparecem".

É devotado obreiro do prestígio da sua Escola, integrando activamente a comissão que elabora o projecto para a construção e, mais tarde, o apretechamento do seu edifício. Autor e colaborador de vários projectos de reforma do ensino médico, assumem relevância contextual os artigos com que acolhe o célebre relatório do Prof. Ricardo Jorge ao Conselho Superior de Instrução Pública e o esmero com que sustenta a decorrente polémica com os professores da Faculdade de Coimbra. Em 1886 é um dos autores do projecto de reforma do ensino médico aprovado pelo Conselho Escolar (novas disciplinas, novos laboratórios, trabalhos práticos, especialidades clínicas). Apesar de anteriormente ter tomado posições contra a especialização em medicina (patente na polémica com Gama Pinto), passa a ser um auxiliar precioso dessa reforma. Noutra arena, polariza frontal e crispada polémica frente à ostensiva reticência de Curry Cabral ao ensino hospitalar e à instituição do internato. Com igual energia defende a conservação da Escola Médica de Goa e aplaude a criação da Escola de Medicina Tropical. Assumiu por inteiro a fundamentada, constante e granítica defesa, na imprensa e na tribuna, da criação do ensino da Psiquiatria em Portugal. Não tem o ensejo de ver o seu esforço, a que se acoplam os de Júlio de Matos e de Sobral Cid, premiado com a introdução oficial do ensino da Psiquiatria no plano de estudos das nossas Faculdade de Medicina, por obra da reforma do ensino médico de 1911. Concorre superiormente para a internacionalização da psiquiatria portuguesa, através do convívio científico internacional e da tecidura de amistosas relações profissionais com os mais eminentes alienistas contemporâneos, tendo até algumas das suas contribuições originais sido criadas pelo Prof. Regis e, mais tarde, pelo Prof. Henry Ey.

A sua audácia, penetrância intelectual e clareza de observação consubstanciam valiosíssimos relatórios médico-legais, bem como pareceres com que responde a numerosas consultas médico-forenses dos mais reputados advogados. Desenvolve abundante exposição de ideário próprio em psicologia judiciária e criminologia: no discurso pronunciado em Lisboa ("La folie pénitentiaire"), no VII Congresso da União Internacional de Direito Penal (1897). Trata magistralmente o problema da responsabilidade. Precursor da moderna psiquiatrização do Direito Penal, depois de retumbante luta, consegue a publicação da lei de 3/4/1896 que determina a realização do exame médico-legal em caso de crime que ou pela sua natureza ou pelas condições do agente possa justificar a suspeita de procedimento em estado de alienação mental. "O livre arbítrio não é uma questão insolúvel... o que faz a sua insolubilidade actual é que nós, juristas e médicos, vivemos em correntes de ideias muito diferentes. Os primeiros analisam sobretudo dentro deles próprios, enquanto que os médicos estudam fora no meio ambiente. (...) Vós sois subjectivos, nós somos essencialmente objectivos... Não há responsabilidade ou culpabilidade criminais no estado actual dos nossos códigos e da metafísica que lhes serve de base. Poder-se-ia substituir a noção contida nas disposições penais pela aplicabilidade das penas. Mas o grande progresso será o de instituir junto dos tribunais júris médicos encarregados de estudar os criminosos sob o ponto de vista mental". Integra o Conselho Médico-Legal e entra para a política, em 1908, como deputado afecto ao então Presidente do Conselho, Ferreira do Amaral. A 3 de Junho disserta sobre a penitenciária e apresenta um projecto-lei para modificação do artigo do Código Penal, que se refere aos criminosos loucos (com consequente duelo à pistola em Monsanto, no dia seguinte, com Malheiro Reymão, ofendido com o discurso da véspera, tendo, como era, aliás, habitual, a questão sido liquidada honrosamente).



Preside à Sociedade de Ciências Médicas (1900-1903) que assiduamente frequentou fazendo parte de grande número de comissões encarregadas do estudo dos mais variados temas e entrando em quase todas as discussões ali ventiladas. Como Secretário-Geral organiza a máquina complexa do XV Congresso Internacional de Medicina (1906). Este grande acontecimento da nossa vida médica, que reúne cerca de 2000 perticipantes, constitui paradigmático exemplo de imolação a uma causa. Bombarda sabe aplanar discórdias, conter debicados queixumes, desbloquear ácidas resistências, desentranhar e decapar ressaibos retaliadores, alvitrando ajustes, tecendo consensos e concitando a militância da generosidade da classe médica. Sem esse congresso, diria Francisco Gentil, "teríamos tido, provavelmente, de esperar mais vinte anos pela criação das especialidades!".

Bombarda integra, também, o Conselho Superior de Higiene e a sua intervenção sócio-sanitária pauta-se por abrangentes acções de divulgação dos princípios de higiene colectiva e individual, de noções científicas elementares, e mais tarde, das suas ideias políticas. Na Sociedade de Ciências Médicas colabora na questão da raiva defendendo o tratamento pasteuriano, forcejando para que se iniciem em Portugal os estudos bacteriológicos (acolhe em primeira mão Câmara Pestana, antes da colaboração deste com Sousa Mastins). Na sequência da organização, por aquela sociedade, de congressos que reclamam, como forma de tratamento e combate ao contágio, a sanatorização dos doentes e a doação ao País (1900) do primeiro Sanatório no Outão, e perante a lentidão do Estado, Bombarda vai simbolizar a nova postura da classe médica face às necessidades da sociedade, criando a Liga Nacional contra a Tuberculose. Inteiramente privada, mobilizou diversos sectores da sociedade portuguesa, realizando congressos nas cidades onde a incidência da doença é maior e espalhando porfiadas críticas sob a forma de inúmeros pedidos pertinentes e justos ao governo, obrigando-o a tomar medidas favorecedoras dos mais carenciados e doentes. O prestígio da classe médica resulta, então, da sua sensibilidade sociológica, do imperativo de partilha de uma consciência crítica solidária com a população e das formas expressivas de compromisso de cada um e de todos os médicos com os cidadãos que assumem representar junto das autoridades.

A convite de Silva Amado é redactor do Correio Médico (no qual ainda em estudante publica os primeiros artigos clínicos) e funda, com Manuel Bento de Sousa e Sousa Martins, em 1883, o jornal Medicina Contemporânea, ao qual empresta grande parte da sua actividade. Comenta semanalmente os principais sucessos médicos, científicos mas também políticos, literários e artísticos (Duse, Sara Bernhardt, Novelli, Ibsen...) que se relacionam com a medicina. Aí publica também os seus apontamentos das viagens de estudo no estrangeiro.

Um nimbo de mistério envolve a sua vida. Nada sabemos do seu penas interior, na análise retrospectiva de Barahona Fernandes: "da dualidade do outro perfil que nunca deixou retratar ou que o orgulho não deixou confessar". A partir duma severa juventude, ultrapassa-se a si mesmo, num fervor expansivo sem limites, numa acumulação de intensidade e transposição de limites, de  mitigação de contigências da vida, atulhada de indigestas comoções, de ferozes contraditas intelectuais, filosóficas e doutrinais, de regulação das próprias contradições, de antinomia entre si e as ideias que encarnava, das resistências dos homens e dos ambientes.

Nas notas da autópsia, o seu amigo Pinto de Magalhães revela surpreendentemente: "É curioso notar que sob aquela grande robustez aparente do Prof. Bombarda, à parte as lesões chronicas taes, em órgaos de vida tão essenciais, que inevitavelmente ao meu espírito ocorre a ideia de que, positivamente, a vida do Prof. Bombarda corria graves riscos. Por outro lado, attendendo à actividade verdadeiramente febril do Prof. Bombarda, e a que este não só se não queixava de qualquer mal estar, mas mesmo declarava sentir-se perfeitamente bem disposto, eu, em presença de que a autópsia revelou, não posso deixar de pasmar do que é a enorme faculdade de adaptação que o organismo desenvolve... "Paradoxal será, também, a decidida pertinácia individual, explicitada numa vontade inquebrantável e inteireza monolítica, em suspensa contradição com as suas convicções sobre o erro do "livre arbítrio".

Noutra vertente, com o seu esforço de actualização e de progresso científico, quer apresentar-se como empirista, experimentalista, anti-idealista, ele que tanto é acusado de teórico e especulador. Se, nos momentos de serenidade, o seu materialismo e vinculação monista haeckeliana se manteria dentro dos limites críticos, duma matriz de entendimento meramente fenomenológica ou heurística, o redemoinho temperamental convida subitamente a excessos de timbre dogmático e de radicalismo sectário que, mais tarde e não poucas vezes, se degrada em propaganda polemista, numa incongruência psicológica entre o conteúdo das suas opções e a forma que lhes dá a sua personalidade.

Dois recortes de síntese amiga debruam o seu retrato: "Foi uma forte personalidade cuja acção por igual encheu a Escola, a clínica, a imprensa médica, a vida social da nossa classe e transbordou, por fim, para a política da nação", Augusto Celestino da Costa no discurso pronunciado na Faculdade de Medicina de Lisboa, em 17-XII-1925, no acto da inauguração do busto oferecido pelo Prof. Francisco Gentil. Mas, também, de Luís Navarro Soeiro: Homem forte (...) inconformista com todas as injustiças, com todas as misérias e com todas as hipocrisias, irmanando todos os movimentos generosos. Sustentando uma só fé, a do progresso e libertação do homem, ou humanidade e as ideias com uma confiança invencível nos seus destinos, que foi afinal o primado vínculo da sua existência. Esta era a sua única, a sua grande crença"

Torna-se patente a avultada exemplaridade do médico com grande influência social e política, crente na superioridade da sua profissão, a quem, apesar de todas as reservas e da insustentabilidade actual de algumas das suas proposições, não podemos deixar de tributar a nossa admiração e apreço.

Em que é que o seu exemplo, em 1999, poderá ser de ressonância referencial? Sintética e decisivamente, na celebração duma mentalidade universitária, que alentou e impregnou toda a sua vida e acção! Configuramo-la a quatro dimensões essenciais: homem culto, bem informado e internacionalmente relacionado, enorme curiosidade científica vigiada  por permanente vontade de saber e sede de verdade; próxima e pertinente interpretação da realidade social, vontade solidária de agir e de servir desinteressante a comunidade ateada pela paixão do justo; postura pedagógica, apostólica e propagandista, diletando o agir reformador à procura do melhor (perante técnicos de saúde, população e políticos); resiliência, coesão interna, autonomia crítica e sentido de dignidade profissional, verticalizando a preocupação com o progresso e a creditação do bem.

Na sociedade contemporânea do conhecimento, assente na não linearidade e previsibilidade do saber, nas vertiginosas transformações nos horizontes dos valores, dos comportamentos, das percepções, em que os graus de subordinação do projecto humano aumentaram consideravelmente, reenvia-se, preocupantemente, o homem para várias exclusões e dissociações da sua natureza e da produção de si e de sentido.

A Universidade tem de preparar para competências profissionalizantes mas, também, para analisar os contextos multideterminados, para compreender palpitações multimodais, para se encantar e fruir mas, também, para se sobressaltar e contrapor àquela avalancha e interiorização do sentido profundo das coisas. Deverá, neste contexto, precaver-se: dos assaltos ofuscantes da razão instrumental, da arrogãncia inútil dos aparelhos tecno-burocráticos (fundados na mera razão económica), da amputação míope das gestões funcionalistas (que proscrevem as subjectividades e confundem processo com procedimentos), do espasmo conceptual da árida política de resultados (pretexto de meritocracias perversas). O homem é mais que o seu desempenho. O homem identifica-se pelo seu valor.

A medicina actual convoca, através das suas bases científicas e da tentativa de uma prática holística, se calhar, como em nenhuma outra área profissional, grandes e diversos saberes que formam nela uma complexa rede transdisciplinar onde o conhecimento pode circular, interagir, nutrir-se e fundamentar-se.

Ensinar superiormente em Medicina passa pelo reconhecimento do universo relacional do cidadão/estudante, ensinar a teoria e a prática da relação, favorecer as relações como fonte ou núcleo de situações instauradoras de singularidades, dissuadir o confortável regimen de certezas, inscrever o estudante/cidadão (e não o estudante/funcionário) num sistema universitário aberto (de coabitação disciplinar, nacional e universal) reconciliando as três vertentes básicas da Universidade: ensino, investigação e ligação à sociedade num contexto de missão.

Tão simplesmente, transpor coevamente o testemunho universitário arrebatador de Miguel Bombarda.


A. Barbosa, "Os professores da escola médica de Columbano: Miguel Bombarda". In M. Valente Alves (Dir.), 1911-1999. O ensino médico em Lisboa no início do século. Sete artistas contemporâneos evocam a geração médica de 1911. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 235-243, 1999.

Variações sobre um tema original, Medicina em Portugal IV, Op.7

sábado, 28 de novembro de 2015

"Visita Guiada" ao Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda | RTP2

   Concluída em 1896, a Enfermaria de Segurança do Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda (inicialmente designado Hospital de Rilhafoles) foi concebida para acolher doentes mentais condenados por crimes. Na linha das teorias reinserção social mais avançadas da época, este bloco do complexo do Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda foi construído segundo o modelo "Panóptico". Modelo arquitectónico que Michel Foucault, filósofo francês, no seu livro "Vigiar e Punir", repescou e tornou famoso nos anos 70 do século XX para demonstrar as suas teorias sobre o "Suplício", "Punição", "Disciplina" e "Prisão".

   O Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda, desativado há anos, tem um dos dois únicos panópticos sem teto que se conhecem no mundo. “Panóptico” quer dizer um modelo arquitetónico singular: o edifício é um círculo vazio no centro, centro em que uma torre permite "ver sem ser visto". Muito para lá da beleza que hoje se reconhece a este modelo arquitetónico do séc. XIX, o panóptico conta outra história, a da arquitetura ao serviço do controlo dos comportamentos. O psiquiatra Fernando Vieira e o arquiteto José António Bandeirinha foram guias na VISITA GUIADA, um programa da Rádio e Televisão Portuguesa com Paula Moura Pinheiro do passado 26 de Outubro de 2015.

O PROGRAMA pode ser revisionado aqui: http://www.rtp.pt/play/p2002/e211315/visita-guiada
Pavilhão de Segurança com o corpo de entrada rectangular e de apoio
 e o vasto corpo circular, 1948.

   O Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda, recentemente encerrado (designado Hospital de Rilhafoles até 1911) foi o terceiro grande hospital a ser fundado em Portugal, com 300 camas, em 1848 (a seguir aos Hospitais de Todos-os-Santos / S.José, em Lisboa, e ao Hospital de Sto António, no Porto) e ficou instalado no vasto edifício da Congregação da Missão dos Padres de S. Vicente de Paulo, construído entre 1730 e 1750 na antiga Quinta de Rilhafoles, adquirida por aquela instituição religiosa em 1720.

   Primeiro hospital psiquiátrico fundado no país, sempre assumiu uma posição inovadora na assistência e terapêuticas utilizadas, e nele foram directores a maioria das grandes figuras nesta área da saúde como Caetano Beirão, António Pulido, Guilherme Abrantes, Miguel Bombarda, Júlio de Matos, Sobral Cid, António Flores ou Eduardo Cortesão, e nele exerceram outros como Barahona Fernandes ou o neurologista Mark Athias, além do neuro-psiquiatra João Alfredo Lobo Antunes, sendo ainda de realçar ter exercido no Hospital, o filho deste último, até se reformar, o escritor António Lobo Antunes.

   O Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda, recentemente encerrado (designado Hospital de Rilhafoles até 1911) foi o terceiro grande hospital a ser fundado em Portugal, com 300 camas, em 1848 (a seguir aos Hospitais de Todos-os-Santos / S.José, em Lisboa, e ao Hospital de Sto António, no Porto) e ficou instalado no vasto edifício da Congregação da Missão dos Padres de S. Vicente de Paulo, construído entre 1730 e 1750 na antiga Quinta de Rilhafoles, adquirida por aquela instituição religiosa em 1720.

   Primeiro hospital psiquiátrico fundado no país, sempre assumiu uma posição inovadora na assistência e terapêuticas utilizadas, e nele foram directores a maioria das grandes figuras nesta área da saúde como Caetano Beirão, António Pulido, Guilherme Abrantes, Miguel Bombarda, Júlio de Matos, Sobral Cid, António Flores ou Eduardo Cortesão, e nele exerceram outros como Barahona Fernandes ou o neurologista Mark Athias, além do neuro-psiquiatra João Alfredo Lobo Antunes, sendo ainda de realçar ter exercido no Hospital, o filho deste último, até se reformar, o escritor António Lobo Antunes.

   Antecedendo o encerramento do Hospital, um documento subscrito em Dezembro de 2010 por personalidades de topo da Cultura e Ciência em Portugal (dos quais sobressaem António Damásio, Paula Rego, Júlio Pomar, Eduardo Nery, Joana Vasconcelos, António Lobo Antunes, João Lobo Antunes, Simonetta Luz Afonso, Raquel Henriques da Silva, ou Maria Filomena Mónica) apelou ao Desenvolvimento deste Museu de Sítio (que só faz sentido neste local carregado de história, onde Miguel Bombarda criou c. 1894 um dos primeiros Museus de Arte de Doentes da Europa, e com edifícios classificados e de arquitectura sem paralelo a nível internacional), contra o desmembramento ou mesmo a destruição das valiosíssimas coleções e arquivos, constituindo um Museu autónomo de Arte de Doentes / Arte Outsider e de Neurociências.

Aspecto actual do Pavilhão de Segurança
do extinto Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda, 2015

Na próxima semana:
- Quem foi Miguel Bombarda?
- Que personalidades famosas passaram pelo Panóptico e que outras marcas na literatura, pintura e cinema deixou este pavilhão de Segurança?

Variações sobre um tema original, Medicina em Portugal III, Op.6

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Exposição "Real Bodies: Descubra o Corpo Humano" | Cordoaria Nacional, Lisboa

REAL BODIES - DESCUBRA O CORPO HUMANO
Classificação: M/03 anos | Duração Estimada: 90 min. s/ intervalo

   A exposição internacional “Real Bodies”, que apresenta mais de 350 órgãos e corpos humanos reais e que permite perceber como funciona o corpo humano, encontra-se patente na Cordoaria Nacional, em Lisboa.

   “Real Bodies – Descubra o corpo humano” é apresentada como a “maior e mais completa exposição de órgão e corpos humanos reais”, organizada por uma empresa norte-americana e que já foi exibida noutras cidades, somando mais de 15 milhões de visitantes.

   Em 2007, Lisboa acolheu uma exposição semelhante – com 17 cadáveres e 270 órgãos humanos conservados segundo a técnica de polimerização – que chegava a Portugal com um rasto de polémica e dúvidas sobre a origem dos corpos utilizados. “Real Bodies”, que também conta com corpos reais inteiros, apresentará corpos em várias posições anatómicas, órgãos afetados por doenças e ainda corpos de atletas durante a prática desportiva. Tendões, ossos, músculos, pele, os aparelhos urinário e respiratório, tudo será mostrado nesta exposição que, lê-se na página oficial, “é adequada para todos os públicos”.


   "Uma bailarina, um lançador de pesos, um basquetebolista com a bola na mão - três corpos literalmente sem pele, músculos flectidos, parados, mas cheios de movimentos. Há uma galeria na exposição Real Bodies – Descubra o Corpo Humano dedicada inteiramente ao desporto, para mostrar que o corpo humano está concebido para o movimento. “Queremos transmitir às pessoas que o corpo humano é óptimo para o movimento”, explica ao PÚBLICO Laura Alegria, curadora da exposição, defendendo que a mostra promove uma vida fi sicamente activa, algo que é bom para o próprio corpo. “Precisamos de nos mover. Nesta sociedade passamos muito tempo sentados.”


   Quem visitar a exposição aberta desde 31 de Outubro na Cordoaria Nacional, em Lisboa, e ainda sem data de encerramento, irá ver muito mais do que isso. Ao todo, há 34 cadáveres e 350 órgãos humanos preservados com três técnicas diferentes e têm um aspecto fresco. Por isso, é possível ver como são as nossas entranhas: os aparelhos respiratório, digestivo, urinário, sexual, circulatório; o cérebro e muitos, muitos músculos. “É muito didáctica”, diz a curadora, da Doca, a empresa inglesa que montou a exposição juntamente com a portuguesa World Crew - Events. “É feita para que todas as pessoas possam perceber o que é o corpo humano.”
   Esta não é a primeira vez que Lisboa recebe uma exposição deste género, onde se mostram cadáveres humanos preservados. Em 2007, o Palácio dos Condes do Restelo, na Rua da Escola Politécnica, abria as portas para a mostra O Corpo Humano como nunca o Viu. Cinco cadáveres que estão na Cordoaria Nacional já tinham feito parte daquela exposição. Várias exposições semelhantes passearam-se por muitas cidades do mundo nos últimos anos. Tudo começou com Body Worlds, de 2004, criada pelo médico anatomis-ta Gunther von Hagens, que em 1977 desenvolveu uma técnica de preservação de cadáveres que baptizou de “plastinação”.

   A plastinação permite fixar os tecidos mortos de forma a impedir a sua decomposição. É uma técnica constituída por cinco passos: primeiro, usam-se substâncias químicas para travar a decomposição do corpo; depois, dissecam-se as partes necessárias do cadáver para mostrar a sua anatomia; em terceiro lugar, elimina-se a água do corpo usando acetona; de seguida, coloca-se o corpo numa câmara de vácuo, num banho de polímeros líquidos - o vácuo obriga a acetona líquida a tornar-se gás, libertando-se dos tecidos, sendo substituída pelos polímeros; finalmente, aplica-se silicone para endurecer o corpo. Desta forma, graças às propriedades do plástico, o cadáver fica preservado indefinidamente, com um aspecto luzidio.

Os corpos e os órgãos foram submetidos a três técnicas diferentes 
que permitem conservar os tecidos indefinidamente
   Na nova exposição, além da plastinação, há ainda a utilização de mais duas técnicas, explica Laura Alegria. Uma em que se utilizam resinas de epóxido (um polímero artificial), o que permite endurecer os tecidos. Esta técnica foi usada para, depois, se poderem cortar finas fatias do corpo humano, outra aposta da exposição. A terceira técnica, chamada “fundição”, permite conservar apenas o sistema circulatório. Neste caso, injectam-se polímeros nas veias e artérias. Desta forma, é possível conservar os vasos sanguíneos, da cabeça aos pés, sem mais nenhum tecido. Os cadáveres provêm dos Estados Unidos e da China, segundo a informação prestada pela empresa de assessoria portuguesa da exposição Inha&Maria Luís: alguns pertenciam a pessoas que doaram os seus corpos para a ciência depois de morrerem, outros eram de pessoas que morreram e os seus corpos não foram reclamados. As leis dos Estados Unidos e da China, refere ainda a empresa de assessoria, permitem que os corpos sejam doados para a ciência. No passado, algumas exposições pelo mundo com cadáveres humanos plastinados estiveram envoltas em polémica quanto à origem dos corpos. Grupos defensores dos direitos humanos acusavam as empresas que organizavam as exposições de que os corpos eram de presos chineses condenados à morte.


   Esta exposição, que veio de Jesolo, no Norte de Itália, junto a Veneza, está aberta das 10h às 20h, todos os dias da semana, incluindo fins-de-semana e feriados. O bilhete custa 15,5 euros por adulto e há descontos para estudantes, idosos, crianças, famílias, grupos de adultos e grupos escolares. No fim-de-semana de abertura, mais de 3000 pessoas visitaram a exposição.

in Público 03.XI.2015, por Nicolau Ferreira.


   O interior da exposição manter-se-á aberto até às 21h30 para os últimos visitantes que entrarem até às 20h00. A entrada será feita por sessões de meia em meia-hora, em que a primeira terá início às 10h00 e a última às 20h00. Não existe tempo limite para a visita, mas o tempo previsto ronda 1h30 min. Entrada grátis para crianças até aos 4 anos desde que acompanhadas por um adulto portador e bilhete válido.

Site da exposição: http://www.realbodies.pt/

Variações sobre um tema original "Medicina" em Simpósios, apresentações e Exposições II, Op.5

domingo, 8 de novembro de 2015

Ciclo Cinema e Psiquiatria


CINEMA E PSIQUIATRIA A Cinemateca - Museu do Cinema em associação com as “Conferências de Outono”, organizadas pelo Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital de Santa Maria e pela Faculdade de Medicina de Lisboa organizam o Ciclo "Cinema e Psiquiatria". Duas sessões na Cinemateca  intercalam-se com debates no Serviço de Psiquiatria em que a psiquiatria é colocada em diálogo com outras áreas de modo a alargar o olhar recíproco entre a psiquiatria e a sociedade. A partir de amanhã, dia 9 de novembro.

Dia 9, Segunda-feira, 18:30 | Cinemateca | EL de Luis Buñuel com Arturo de Córdova, Delia Garcés, Luís Beristain México, 1951 – 90 min / leg. eletronicamente em português | M/12 sessão seguida de debate com Miguel Talina. Um dos grandes filmes de Buñuel e um dos mais perversos, cheio de símbolos e fetiches que materializam as fixações e a paranoia do protagonista. Buñuel foi buscar um dos grandes símbolos do macho nos melodramas mexicanos, Arturo de Córdova, transformando‑o num impotente, paranoicamente ciumento, e contrapondo‑o à elegante atriz argentina Delia Garcés. Como sempre em Buñuel, o filme é repleto de humor. Uma obra‑prima indiscutível, que Jacques Lacan mostrou durante vários anos aos seus alunos, como ilustração da paranoia. O filme tem uma segunda passagem a 11, às 15h30. A projeção de EL é seguida por um debate com a presença de Miguel Talina, Diretor do Serviço de Psiquiatria do Hospital Vila Franca de Xira e Professor de Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.

Dia 10, Terça-feira, 12:30 | Serviço de Psiquiatria do CHLN | "O Cinema e a Psiquiatria", com o Prof. Luís Miguel Oliveira. No âmbito das Conferências de Outono que decorrerão de outubro a novembro de 2015, o Serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria - CHLN organiza as Conferências de Outono. As Conferências realizar-se-ão na sala Barahona Fernandes, localizada no piso 1, na Consulta Externa de Psiquiatria entre as 12h30 e as 14h. As Sessões são abertas a todos os profissionais de saúde do Centro Hospitalar Lisboa Norte e da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Dia 14, Sábado, 16:00 | Cinemateca | FEN AI “Até que a Loucura nos Separe” de Wang Bing Hong Kong, França, Japão, 2013 – 227 min / legendado em inglês | M/12. FEN AI documenta a vida quotidiana no interior de um hospital psiquiátrico isolado, no sudoeste da China. Um espaço habitado por cerca de cem pacientes albergados num espaço muito decrépito e em grande reclusão. Com idades entre os 20 e os 50 anos, raramente recebem visitas de familiares ou amigos, e, abandonados pela sociedade, procuram o conforto e o calor humano. Ao longo de cerca de quatro horas Wang Bing traduz o dia a dia de um conjunto de homens que vivem num mundo realmente à parte. Também conhecido pelo seu título internacional, TILL MADNESS DO US PART. Primeira exibição na Cinemateca.

http://www.sppsm.org/event/cinema-e-psiquatria/#prettyPhoto/0/
http://www.cinemateca.pt/CinematecaSite/media/Documentos/novembro2015.pdf

Variações sobre um tema original "Medicina" no Cinema I, Op. 4

sábado, 7 de novembro de 2015

Quem foi Ricardo Jorge?

Aquando da inauguração da exposição do Museu da Saúde - Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge intitulada “Ricardo Jorge e a Saúde Pública em Portugal” ontem, dia 6 de novembro 2015, revisitamos hoje o perfil de Ricardo Jorge.

"Um serviço central de saúde não pode rastejar por uma simples estância burocrática. Tem de ser a sede de uma plêiade de funcionários especializados e treinados. Tem de animá-lo o espírito da renovação científica e técnica, para a qual contribui a seu turno com os resultados da sua experiência e investigação; é um centro de acção e de produção de ciência aplicada.”
Ricardo Jorge, "A propósito de Pasteur", 1923.

Ricardo de Almeida Jorge nasceu na cidade do Porto, a 9 de Maio de 1858, e faleceu em Lisboa, a 29 de Julho de 1939.

Em 1874, ingressa na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, na qual viria a formar-se, cinco anos depois, com as mais altas classificações. Na sua dissertação de licenciatura, "O nervosismo no Passado", aborda a história da Neurologia, um termo que nessa altura ainda não havia sido consensualizado. Tinha então 21 anos.

Inicia a sua vida profissional, em 1880, como professor na Escola Médico-Cirúrgica do Porto e faz várias deslocações a Estrasburgo e a Paris (onde assiste às lições de Charcot), procurando nos hospitais locais uma aprendizagem impossível de adquirir em Portugal, onde o saber neurológico era ainda incipiente.

O ano de 1884 marca uma viragem nas suas preocupações de estudo. Abandona a Neurologia e começa a dedicar-se à "Higiene Social Aplicada à Nação Portuguesa", tema de uma série de conferências, que lhe granjeiam um enorme prestígio em todo o país.

Ricardo Jorge com Balbino Rego, Sousa Júnior e peritos - 1899Aos 27 anos, elabora e apresenta no Conselho Superior Público (do qual fazia parte como delegado do Porto), um relatório sobre o ensino médico em Portugal, que considera obsoleto face às orientações modernas que vira praticadas noutros países europeus. Este relatório viria depois a servir de base ao Regulamento Geral de Saúde de 1901.

Entre 1891-1899, é nomeado médico municipal do Porto, ficando também responsável pelo Laboratório Municipal de Bacteriologia. Torna-se, em 1895, professor titular da cadeira de Higiene e Medicina Legal da Escola de Medicina do Porto. Este facto, juntamente com a publicação das suas conferências de 1884, vai consolidar o seu prestígio como higienista.

Mas é em Junho de 1899 que se dá a sua consagração em definitivo a nível nacional e a projecção internacional, quando, sem hesitações, chega à prova "clínica e epidemiológica" da peste bubónica que assolou a cidade do Porto, sendo esta depois confirmada "bacteriologicamente" por ele próprio e Câmara Pestana.

No entanto, as operações profilácticas que liderou no sentido de eliminar a peste, como a evacuação de casas e o isolamento e desinfecção de domicílios, entre outras, desencadearam a fúria popular que incentivada por grupos políticos, obrigam Ricardo Jorge a abandonar a cidade.

Dr. Ricardo Jorge no laboratório - 1899Em Outubro de 1899, é transferido para Lisboa, sendo nomeado Inspector-Geral de Saúde e a seguir professor de Higiene da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Em 1903, é incumbido de organizar e dirigir o Instituto Central de Higiene, que passaria a ter o seu nome a partir de 1929.

Participa em iniciativas como a organização da Assistência Nacional Contra a Tuberculose e o Congresso Internacional de Medicina de 1906, no qual presidiu à Secção de Higiene e Epidemiologia. Colabora também na reforma do ensino médico de 1911, e em 1912 inicia os seus trabalhos no Office Internacional de Higiene, em Paris, onde haveria de se distinguir.

Nos anos de 1914 e 1915 preside à Sociedade das Ciências Médicas e nos anos seguintes visita formações sanitárias na zona de guerra em França. Organiza depois a luta contra a epidemia de gripe pneumónica, do tifo exantemático, varíola e difteria, que surgiram como consequência das deficientes condições sanitárias do pós-guerra.

É escolhido para representar Portugal no Comité de Higiene da Sociedade das Nações e, em 1929, é nomeado Presidente do Conselho Técnico Superior de Higiene. Mesmo nos últimos anos da sua vida mantém uma intensa actividade, intervindo pela última vez numa reunião do Office Internacional de Higiene, três meses antes de morrer.

Ricardo Jorge com Albert Calmet, Ferrand, Câmara Pestana, entre outros - 1899

Os interesses de Ricardo Jorge não se limitaram, no entanto, ao campo da medicina e as suas preocupações revelam um espírito versátil e curioso de verdadeiro humanista. A sua vasta obra inclui, por exemplo, publicações versando arte, literatura, história e política.


Bibliografia |
http://www.insa.pt/sites/INSA/Portugues/Biblioteca/BiblioDigit/Paginas/Inicio.aspx |
http://www.insa.pt/sites/INSA/Portugues/QuemSomos/historia/Documents/Bibliografia_RJ.pdf |
Versão integral de 80 obras da autoria do fundador do Instituto Nacional de Saúde, o professor Ricardo Jorge, escritas no decurso da sua actividade científica na área da Saúde Pública e fruto do seu gosto pela literatura, linguística, história, arte e política. E ainda 29 dissertações de medicina a que presidiu o júri.


Variações sobre um tema original, Medicina em Portugal II, Op.3

terça-feira, 3 de novembro de 2015

História da Noite da Medicina de Lisboa

   No final de Outubro ou início de Novembro a imponente Praça de Touros do Campo Pequeno ou a colossal Coliseu dos Recreios tem-se habituado a encher para mais uma edição da já conhecida Noite da Medicina, sendo palco de um espetáculo organizado pelos finalistas da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL).

   O Campo Pequeno contará com uma audiência de cerca de 3400 pessoas entre alunos, professores, amigos, familiares, médicos e patrocinadores que assistirão a um espetáculo concebido e encenado por mais de 400 alunos com produções físicas e de vídeos que visa, entre outras ações, a promoção e colaboração com entidades e iniciativas solidárias, a apresentação da união e espírito académico aos novos alunos, a divulgação da Faculdade de Medicina e a sua História e a promoção da diversidade e desenvolvimento pessoal, cultural e criativo de todos os estudantes da FMUL.

   A Noite da Medicina 2016 poderá ser acompanhada em directo: http://noitedamedicina.pt/


   A Noite da Medicina é um espectáculo académico organizado pelos finalistas do curso de Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL), realizado anualmente nas últimas semanas de Outubro ou início de Novembro. O espectáculo conta com números de variedades musicais, dança, vídeo e actuações em palco, assumindo-se como momento de união dos estudantes da FMUL através da sátira aos aspectos do seu quotidiano. Marca-se como a despedida dos finalistas e as boas-vindas dos recém chegados, havendo também espaço concedido aos outros anos (do 2º ao 5º) para participarem.

   A Noite da Medicina é um dos espectáculos académicos com maior tradição em Portugal. Seguindo a melhor tradição das clássicas Récitas Estudantis do virar do século XX, a primeira edição data de 1912, onde ainda era um espectáculo de beneficiação para uma instituição de solidariedade social.



 Durante cerca de 60 anos, até ao 25 de Abril de 74, o espectáculo era uma revista portuguesa, com partes faladas e cantadas, que ironizava o quotidiano da faculdade, os alunos e os professores. Alguns professores chegaram mesmo a participar. Durante estes anos, passou pelos teatros mais ilustres de Lisboa: o Politeama, o Monumental, o Teatro da Trindade e o Teatro S. Carlos. Como todos os espectáculos desta época, também as récitas dos Quintanistas de Medicina eram visadas pela Censura. A "Récita 70", apresentada em 1970, esteve quase para não ser permitida pelo Serviço Nacional de Informação (SNI).


Noite da Medicina de 5 de Fevereiro de 1929 no Teatro Politeama,
assumindo a forma de um teatro de revista escrito em coplas com o título
“O Que Arde… Cura!”, levado à cena pelo curso de 1924/29

   No entanto, com a interdição do direito de livre associação introduzida no Estado Novo, em 1933 suspende-se a realização do espectáculo nos moldes já habituais, ressurgindo lentamente como mostra de pendor mais erudito e sobejamente mais “bem comportada” nos anos seguintes. Depois de uma série de anos sem existir Récita dos Finalistas, a Noite da Medicina volta, retoma a qualidade de espetáculo de cariz mais teatral e mordaz em 1978, na Sala de Alunos da AEFML, onde decorreu durante os seguintes 25 anos até ser transferida para o Auditório da FMDUL em 2003. Em 2005 é novamente transferida para a Aula Magna da Universidade de Lisboa, e a partir de 2008 passa a realizar-se no Coliseu dos Recreios de Lisboa e, finalmente, desde 2014, a Noite da Medicina tem sede no Campo Pequeno, em Lisboa.   

   Com uma plateia de 3000 pessoas e intervenção em palco de cerca de 500 alunos, trata-se do maior e mais antigo espectáculo académico organizado por uma Faculdade em Portugal, e do 3.º maior espetáculo académico nacional – ultrapassado apenas pela Monumental Serenata da Associação Académica de Coimbra (realizada desde 1949 com 20.000 espetadores anuais) e pela Monumental Serenata da Federação Académica do Porto (7.500 espectadores anuais). Na construção do espectáculo as causas sociais não são esquecidas. De ano para ano a comissão organizadora da Noite da Medicina organiza actividades com os caloiros da faculdade como a doação de sangue, inscrição no Registo de Dadores de Medula Óssea e o Churrasco Solidário do Caloiro, cujos lucros revertem a favor de uma instituição de cariz social.

Noite da Medicina no Coliseu dos Recreios em Novembro de 2011 | Curso 2006-2012
   
Cartaz da Noite da Medicina de 2014, Campo Pequeno | Curso 2009-2015


Cartaz da Noite da Medicina de 2016, Campo Pequeno | Curso 2011-2017


   Actualmente, a Noite da Medicina é uma festa de toda a faculdade, onde participam todos os anos, não sendo exclusivamente uma "récita dos quintanistas". Apesar de se realizar em moldes diferentes dos anos 20, continua a ser o grande espectáculo cultural desta Faculdade. Aqui ficam os vídeos mais emblemáticos das últimas edições:

Noite da Medicina de 2010 | Curso 2005-2011

Noite da Medicina de 2010 | Curso 2005-2011

  

Noite da Medicina de 2012 | Curso 2007-2013

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Noite da Medicina de 2013 | Curso 2008-2014




Noite da Medicina de 2014. Paródia Bailando | Curso 2009-2015

Noite da Medicina de 2014. Paródia Bailando | Curso 2009-2015

Noite da Medicina de 2015 | Curso 2010-2016



"A História da Noite da Medicina" in http://noitedamedicina.pt/ (adaptado)
Variações sobre um tema original: Medicina em Simpósios, espectáculos e Exposições I, Op.2

domingo, 1 de novembro de 2015

O Hospital Real de Todos-os-Santos | Variações sobre a Medicina em Portugal I, Op.1

   Em 1492 D. João III lançou a primeira pedra da construção do Hospital Real de Todos-os-Santos que veio a ser inaugurado por D. Manuel I em 1501 entre a actual Praça da Figueira e o Rossio. Este veio a substituir todos os hospitais medievais de pequenas dimensões pertencentes a diferentes ordens religiosas, como remonta à génese da sua designação.  Portugal inaugura o movimento europeu das construções hospitalares da época, assente numa lógica de unificação e centralização.

All-Saints.jpg
The Forerunners of Christ with Saints and Martyrs (c.1423-24).
National Gallery, London. Author Angelico
   Por ironia do destino em que assenta o próprio nome foi na festa ou solenidade do dia de Todos-os-Santos, celebrada em honra de todos os santos e mártires pelos crentes de muitas das igrejas da religião cristã a todos os primeiros dias de Novembro, que foi destruído pelo horrífico terramoto de 1755.

   A réplica de uma possível reconstituição de Lisboa e do Hospital antes do terramoto encontra-se patente no Museu da Cidade de Lisboa. Em sua homenagem encontra-se actualmente em construção um novo Hospital "de Todos-os-Santos" ou Centro Hospitalar Lisboa Oriental, que deverá albergar as várias unidades integrantes do actual Centro Hospitalar Lisboa Central, Campo Grande. 

   Segue-se um excerto de um artigo de João Martins e Silva, ex-director da Faculdade de Medicina de Lisboa sobre o início da Medicina Hospitalar.


"O Começo da Medicina Hospitalar

   O ensino e a prática de Medicina foram modificadas radicalmente com a fundação por D. João II, em 1492, do Hospital de Todos-os-Santos, em Lisboa. Alguns anos mais tarde, cerca de 1504, D. Manuel I, numa medida pioneira e de grande visão estratégica, determinou que a cirurgia fizesse parte da matriz da formação médica na Universidade, sendo o seu ensino realizado naquele Hospital.

   Ainda com D. João II, e depois pelo seu cunhado e sucessor D. Manuel I, foi profundamente alterada a organização dos cuidados de saúde à população, que passou a contar com instituições hospitalares de dimensão razoável, em substituição das albergarias e outras instalações precárias e dependentes da caridade. Já nos tempos do Condado Portucalense, existiam alojamentos semelhantes para socorrer os viajantes e asilar temporariamente os doentes desprotegidos e outros carenciados, designadamente crianças e velhos.

   A reorganização dos estabelecimentos hospitalares da época deveu-se fundamentalmente à escassez de rendimentos, à precaridade e exiguidade das instalações em que funcionavam as albergarias, enfermarias e os primitivos hospitais e, ainda, à declarada deficiência do serviço clínico e dos apoios disponíveis. Nessa perspectiva, a criação do Hospital (Real) de Todos-os-Santos conduziu à aglutinação de dezenas daquelas instalações que proliferavam por todos os bairros da antiga Lisboa. Nas outras principais cidades do Reino verificou-se idêntico processo de centralização dos recursos e dos serviços a prestar.

   A par com a criação daquele emblemático hospital de Lisboa, nasceu um outro movimento de inspiração cristã fundamentado na premência em prestar auxílio e dar tratamento aos doentes mais pobres e desprotegidos, de que veio a resultar a fundação, em 1498, da confraria de Nossa Senhora da Misericórdia. O primeiro estabelecimento das “Misericórdias” foi instalado junto à Sé em Lisboa, numas casas cedidas para albergar indigentes doentes. Em 1516, D. Manuel I, irmão de Dona Leonor, determinou que fosse concedida uma dotação especial que veio a ser decisiva para o desenvolvimento das “Misericórdias”. Enquanto as Misericórdias tinham por principal objectivo a prática da caridade, o Hospital de Todos-os-Santos, à semelhança de outros fundados no Reino a partir do século XVI, visava fundamentalmente o tratamento das feridas e das doenças graves, embora mantivesse, na linha da tradição das anteriores albergarias, um amplo sector para acolhimento dos peregrinos e indigentes da cidade. Rapidamente muitas outras unidades semelhantes foram sendo criadas por todo o País, perdurando (com óbvias modificações) até aos dias de hoje. Consta que a criação das Misericórdias teve origem nas recomendações da rainha Dona Leonor junto de seu marido, instada pelo seu confessor a promover o auxílio real à população mais necessitada.

Painel de azulejos mostrando a fachada do Hospital Real de Todos-os-Santos,
c. 1740, Museu da Cidade de Lisboa.

   Pela documentação conhecida, o Hospital de Todos-os-Santos (que se localizava na antiga Praça da Figueira com a fachada orientada para o Rossio) era um edifício majestoso para a época. Na traça original, o hospital tinha três enfermarias num piso superior e, no andar inferior, havia dois espaços amplos com função de albergaria, um recolhimento para crianças abandonadas (criandário), uma casa para doentes alienados e outra para os incuráveis, além de quartos para doentes de condição social elevada. As enfermarias destinavam-se a doentes do foro médico, outra abrigava feridos requerendo tratamento cirúrgico, uma terceira era reservada somente a mulheres, qualquer que fosse a sua doença, e havia ainda um sector para doentes com enfermidades venéreas e sífilis (morbo serpentino). No caso de aumentar o número de doentes a requererem internamento, havia espaços para instalar mais algumas enfermarias de recurso. Além dos doentes internados, o serviço incluia uma vasta consulta externa. Para todo o serviço, o pessoal clínico (permanente) limitava-se a dois médicos, dois cirurgiões e um mestre em tratamento da sífilis, sendo a gestão da responsabilidade de três ou quatro padres da Confraria de Santo Eloi, um dos quais era designado provedor. O edifício foi destruído por dois incêndios (1610 e 1750) e sucessivamente reconstruído, desaparecendo definitivamente no terramoto de 1755. A primeira reconstrução aumentou substancialmente o espaço útil do hospital e modificou a forma do edifício para a de uma cruz, com quatro segmentos iguais. Um dos braços era ocupado pela igreja, com entrada por uma escadaria do lado do Rossio. Os restantes braços eram ocupados por três grandes enfermarias principais (a São Cosme, para os feridos, a de Santa Clara para as mulheres e a de S. Vicente para os doentes com febres), num total de 60 leitos dispostos de modo a deixarem um espaço livre para corredor. Além destas enfermarias (exemplares para a época) havia muitos outros espaços onde cabiam leitos à medida das necessidades, pelo que a população hospitalizada variava entre cerca de 300 a 600 doentes. As características hospitalares pouco ou nada mudaram até um século mais tarde, excepto no movimento dos doentes, que aumentou para cerca de seis mil entradas por ano. A exiguidade de pessoal clínico mantinha-se, havendo ainda mais oito enfermeiros fixos, dos quais cinco eram mulheres. A mortalidade continuava elevadíssima entre os doentes hospitalizados, dos quais morria cerca de um quinto.

Representação do Terramoto de Lisboa de 1 de Novembro de 1755

João Martins e Silva «Anotações sobre a história do ensino da Medicina em Lisboa, desde a criação da Universidade Portuguesa até 1911 – 1ª Parte». RFML 2002; Série III; 7 (5): 237-249. (Ex-Director da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa)


'Quando Lisboa Treme - de 1755 à Cidade Resiliente' é a exposição que o Museu de Lisboa inaugurou no Pavilhão Preto, assinalando os 260 anos da catástrofe natural. São apresentadas gravuras da destruição da cidade. maquetas da famosa Gaiola Pombalina. bombas de água utilizadas na época, uma plataforma sísmica interativa, equipamentos de medição de sismos e ilustrações das atividades da proteção civil. A exposição procura dar a conhecer mais sobre as caraterísticas associadas aos perigos e riscos dos fenômenos sísmicos. É uma iniciativa da Cámara Municipal de Lisboa em parceria com o Instituto D. Luiz. Instituto Portugués do Mar e da Atmosfera e o Instituto Superior Técnico. | Até 1 de Março, de Terça a Domingo, entre as 10h00 e as 18h00. A entrada é livre.
Variações sobre um tema original "Medicina" em Portugal I, Op.1