Da obra de Alexandre Dumas Filho, A Dama das Camélias ("La Dame aux Camélias"), aqui referenciada no passado próximo, seria inevitável não passar por "La Traviata", ópera de Giuseppe Verdi composta em 1853 dramatizada a partir da novela do próprio Dumas, datada de 1848. A história da vida desta cortesã, baptizada por Alexandre Dumas Filho, como Margarida Gautier, continua a fascinar nos dias de hoje. É a história de uma mulher que se tornou num personagem carismática da literatura, do teatro, do cinema e também da ópera. Uma mulher que o amor transformou e morre enferma da comum consumpção da tuberculose à época.
Numa tradução literal "A Transviada" (a senhora desencaminhada) ou ainda "A Cortesã" é uma Ópera com libreto de Francesco Piave de três actos interpretada pela primeira vez em Veneza, em 1853 e provavelmente a mais popular das óperas deste compositor. Giuseppe Verdi tinha uma identificação pessoal com o tema: ele próprio vivia em Paris desde 1848, com Giuseppina Strepponi - uma soprano reformada, com filhos ilegítimos, e que em 1859 se viria a tornar a segunda mulher do compositor. Assim, o compositor conhecia em primeira mão os preconceitos que mulheres na posição de Violetta tinham de enfrentar: descreveu a ópera como "um tema da nossa era".
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| "La Traviata" de Giuseppe Vardi com Maria Callas e Alfredo Kraus, Teatro Nacional de S. Carlos, Lisboa, a 27.III.1958 |
O enredo começa com uma encantadora cortesã, Violetta Valéry, soprano, que está a morrer de tuberculose. Numa festa, apaixona-se por Alfredo Germont (tenor), que há muito a admirava à distância. Os dois vivem felizes na província, até Violetta ser visitada em segredo pelo pai de Alfredo, Germont (barítono). Germont exige que Violetta deixe o seu filho, uma vez que os pormenores escandalosos do seu passado ameaçavam destruir as hipóteses da sua filha conseguir um bom casamento. Temerosa de que o amor de Alfredo esmoreça de qualquer forma, Violetta acede tristemente. Germont fica comovido com a sua nobreza de espírito; Violetta pede-lhe que não conte a verdade a Alfredo qté que ela esteja morta. Violetta regressa a Paris e a um anterior amante; Alfredo persegue-a numa festa, onde a denuncia publicamente. Abandonada pelos seus amigos elegantes, Violetta afunda-se na pobreza e a tuberculose agrava-se fatalmente. Germont conta a Alfredo a verdade acerca do sacrifício abnegado de Violetta, e ele corre para junto do leito desta. Os dois amantes, reunidos e felizes, falam em sair de Paris e começar de novo, mas é demasiado tarde - Violetta morre nos braços de Alfredo.
Mais recentemente, várias produções têm tentado estabelecer paralelos entre a tuberculose e a infecção VIH nos estágios terminais da SIDA, na apresentação apurada dos detalhes patológicos em ambas as doenças. De qualquer modo, La Traviata é um drama directo e simples, que não se presta a reinterpretações radicais.
Muitos sopranos têm sido atraídos pelo papel de Violetta Valéry e pelas possibilidades vocais dramáticas, mas poucos conseguiram dominar verdadeiramente as suas completas exigências. Nos últimos 50 anos, Maria Callas, "La Divina" (2.XII.1923-16.IX.1977) continua a ser notável. Infelizmente nunca chegou a fazer uma verdadeira gravação em estúdio desta ópera. Mas Lisboa teve a oportunidade de receber essa diva e ver-lhe ao vivo na interpretação desta ópera a 27 de Março de 1958, ao lado do tenor Alfredo Kraus, dirigido por Franco Ghione no Teatro Nacional de São Carlos. A gravação ao vivo foi, na altura transmitida em directo na Emissora Nacional (precursora da actual RDP) e editada em disco pela EMI, uma das mais reputadas editoras discográficas.
"La Traviata" | Maria Callas, Alfredo Kraus. Live in Lisbon
Teatro Nacional de São Carlos, 27.III.1958
Teatro Nacional de São Carlos, 27.III.1958
Uma gravação restaurada pelos a partir da fonte original dos arquivos RTP, de qualidade superior à da própria EMI à época foi editada por algumas outras editoras no início do milénio e pode ser escutada aqui, numa versão integral: La Traviata | Maria Callas, Alfredo Kraus, San Carlos Opera House. Live in 27.III.1958 bem como uma pequena entrevista aquando da chegada ao aeroporto de Lisboa: Maria Callas: Interview at Lisbon airport (Lisbon, 26.III.1958)
Para terminar, não seria possível não fazer referência a uma outra diva directamente relacionada com a história de Portugal - Dame Joan Sutherland (7.XI.1926-10.X.2010), "La Stupenda", como lhe chamavam os fãs italianos, ou a “voz do século” como lhe chamou Luciano Pavarotti. Não só Lisboa recebeu Callas em 1958 como também uma, por vezes designada como a herdeira de Callas, Joan Sutherland, cantou em três récitas de La Traviata ao lado do mesmo Alfredo Kraus de 1958 sob a direcção de Richard Bonynge, duas récitas no Teatro Nacional de S. Carlos nos dias 18 e 21 de Abril do 1974 para alguns convidados, e uma última para o público em geral no Coliseu dos Recreios de Lisboa no fatídico dia de 24 de Abril de 1974. Terminara a récita já na madrugada de 25 de Abril de 1974, sem que nada se soubesse, quando Portugal viria a respirar uma outra era de revolução, a que poria fim ao Estado Novo em lugar da Liberdade.
"La Traviata" | Dame Joan Sutherland, Alfredo Kraus. E strano! Ah, fors'e lui e Sempre libera.
Excertos da récita ao vivo no Coliseu dos Recreios, 24.IV.1974
"Augusto M. Seabra diz que foi "uma das noites mais memoráveis" da sua vida: começou no Coliseu dos Recreios a ouvir Joan Sutherland cantar La Traviata de Verdi, ao lado de Alfredo Kraus, e continuou, madrugada fora, a festejar a revolução que iria acabar com os 48 anos de ditadura fascista em Portugal. O crítico de música e ensaísta recorda "o momento premonitório" em que, nessa noite de 24 de Abril, perante um Coliseu cheio e em delírio depois de ouvir a grande soprano australiana, a Joan Sutherland "foi oferecido um ramo de cravos vermelhos".
in Morreu Joan Sutherland, "La Stupenda". Público 12.X.2010.
O musicólogo Ruy Vieira Nery, esteve também presente na récita que o soprano deu em Lisboa horas antes do 25 de Abril, afirma que “tinha uma afinação absolutamente perfeita e não deve ter dado uma nota desafinada uma vez na vida” e João Pereira Bastos também presente na mesma récita, testemunhando a única vez que Sutherland esteve em Lisboa, também recorda as suas palavras quando, retida em Portugal devido ao encerramento do aeroporto no dia 25 de Abril de 1974 disse ter tido “o dia de sol mais bonito da sua vida”.
Variações sobre um tema original "Medicina" na Música I, Op.18
ARS MEDICA ET CHIRVRGICA | Arte Médica e a História da Medicina
Representações da Condição Humana. Representações da Saúde e da Doença. Da Felicidade, Melancolia e do Desespero. Da Vida e da Morte. Na Arte, na Literatura, na Pintura, na Escultura, na Música. Fragmentos esparsos da Medicina na sua História.


