quarta-feira, 31 de agosto de 2016

História da Medicina: O Estetoscópio

História da Medicina: O Estetoscópio
Variações sobre um tema original, "Medicina" no Mundo: História da Medicina III, Op.24


A René Laenec e o primeiro estetoscópcio, Robert Thom

     "O estetoscópio foi inventado em 1816 por René Laennec (1781-1826), influenciado por Jean-Nicolas Corvisart (1755-1821), médico pessoal de Napoleão Bonaparte. Corvisart foi o primeiro a reconhecer o valor do método de percussão, descoberto no século XVIII, dando-lhe aplicabilidade clínica. A descoberta da percussão foi feita pelo médico austríaco Joseph Leopold Auenbrugger (1722-1809) e publicada num pequeno livro Inventum Novum, que praticamente caiu no esquecimento. Em 1808, Corvisart traduziu e publicou em francês o estudo de Auenbrugger, reabilitando-o. O método auscultatório de Laennec revolucionou a semiologia clínica. Antes do aparecimento do estetoscópio, o exame clínico de um doente baseava-se na pesquisa dos sinais do corpo através do olhar, complementado pela audição, pelo toque, pela avaliação da febre, pela caracterização do pulso e pela percussão.

Primeiro estetoscópio, Laennec.

     A dificuldade que Laennec tinha em identificar os sons do corpo na observação de alguns doentes, quando simplesmente pressionava o ouvido sobre a pele, e as limitações do método da percussão, levaram-no a criar um dispositivo amplificador, um tudo de papel, que interpunha entre o corpo do paciente e o ouvido do médico, através do qual amplificava os sons do coração e da respiração, inventando assim o estetoscópio. Experimentou vários materiais e formas para o novo instrumento, tendo optado por um simples cilindro de madeira com cerca de 25 centímetros de diâmetro. A seguir começou a investigar os sons percecionados no doente através da auscultação, com as alterações patológicas detetadas na autópsia. Os resultados dessas experiências foram publicadas em 1819 no seu livro De L'Auscultation Médiate ou Traité du Diagnostique des Maladies des Poumons et du Coeur, que se tornou a base da moderna compreensão da patologia pulmonar e cardíaca. Como refere William Osler, Laennec revolucionou a clínica através de "uma simples extensão do método hipocrático da cama para o necrotério, e pela correlação dos sinais e sintomas de uma doença com as aparências anatómicas". O aparecimento de outros instumentos de diagnóstico, mais sofisticados, baseados nas imagens, não retirou ao estetóscópio a sua importância: ele continua a ser uns instrumento muito prático, indispensável no dia a dia clínico. E também um ícone, pois identifica em qualquer parte do mundo a profissão médica.
Excertos de "O termómetro, o estetoscópio e o esfigmomanómetro - Instrumentos da clínica" de Manuel Valente Alves, "História da Medicina em Portugal. Origens, ligações e contextos",  Porto Editora, 2014, p. 205. (Professor de História da Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa).

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De L'Auscultation Médiate ou
Traité du Diagnostique des Maladies des Poumons et du Coeur

     Em 1819, o primeiro estetoscópio constituia-se de um tubo de papel longo e enrrolado para "afunilar" o som. Simples, porém eficiente. Leannec deu o nome de estetoscópio a partir do grego  (do grego "stéthos", peito e "skopéo", observar), bem como designou à técnica auscultação, de "auscultare" (ouvir). 
Estetoscópio de Cammann
     
     Vinte e cinco anos depois, George P. Cammann de Nova Iorque, desenvolveu o primeiro estetoscópio com uma oliva para cada ouvido. Este modelo seria usado por mais de 100 anos, com pequenas modificações. Este novo método de auscultação não foi imediatamente aceite por alguns médicos, que preferiram continuar com a técnica de ouvir o tórax directamente com aplicação do ouvido. Apesar de o New England Journal of Medicine ter relatado, em 1821, a invenção do estetoscópio, em 1885 um professor de medicina declarava ainda: "Deus deu-nos ouvidos para ouvir, usem as orelhas e não um estetoscópio." Até mesmo o fundador da American Heart Association, LA Connor (1866-1950), continuava a utilizar um lenço de seda que colocava sobre a parede do tórax e não o estetoscópio.



     O estetoscópio continuou evoluindo pelo final dos séculos XIX e início do século XX. Nessa época a peça terminal já apresentava a forma de uma campânula que possibilitava uma auscultação melhorada para os sons graves. Havia, no entanto, a necessidade de se melhorar a auscultação dos sons agudos, o que veio a ser feito com a introdução do diafragma. Em 1894, Robert C.M. Bowles patenteou a forma moderna do estetoscópio com diafragma, utilizando membranas de metal ou celulose. Posteriormente, os estetoscópios passaram a ser construídos tanto com campânula quanto com diafragma. 

     Em 1961, Dr. David Littman, distinto cardiologista, descreveu o modelo que veio a ser o mais utilizado na prática médica dos dias de hoje. Ele é construído com aço inoxidável, condutores de tygon (um polímero flexível em vez de borracha) e possui campânula e diafragma. Desde então o avanço permitiu incorporar algumas tecnologias, como a ultrassonografia ou o bluetooth, mas o modelo mais comummente usado é o que se aproxima ao dos anos 60 do século passado.

Modelo de Littman, 1961


Variações sobre um tema original "Medicina" no Mundo: História da Medicina III, Op.24

ARS MEDICA ET CHIRVRGICA | Arte Médica e a História da Medicina

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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Medicina e Poesia: "Littmann" de Fernando Pinto do Amaral

Variações sobre um tema original, "Medicina" na Literatura VII, Op.23


LITTMANN

Usaste algumas vezes também tu
esse antigo instrumento do teu pai:
experimenta retirá-lo outra vez
do estojo desgastado e observa-o
trinta anos depois.
Pendura agora à volta do pescoço
esse objecto sagrado,
enfia nos ouvidos as olivas
e encosta o diafragma ao teu peito.

Consegues ouvir bem? Não tenhas medo
dessa música surda, repetida
em compasso binário, sincopado:
o embate da sístole e depois
o lento precipício da diástole
dentro de ti fluindo até ao fundo
sem fundo do teu corpo. Escuta bem
o ritmo fiel desse relógio.

Mesmo não tendo números nem ponteiros,
podes confiar nele: nunca se atrasa
e há-de marcar melhor que nenhum outro
as horas, os minutos, os segundos
do tempo que te cabe até ao dia
em que as notas soturnas dessa música
desaguarem serenas no silêncio
tal como milhares de outras que o teu pai ouviu
no mesmo Littmann Made in U.S.A.

Fernando Pinto do Amaral in Paliativos, 2012.




     Objecto que marca a entrada na formação médica clínica, o estétoscópio (do grego stéthos "peito" e skopéo "eu observo") foi desenvolvido pelo médico francês René Laennec no Hospital Necker, em Paris no ano de 1816 e tornou-se num dos símbolos mais universalmente reconhecíveis da identidade de quem o transporta aos ombros e acto médico em geral. David Littmann, (28.VII.1906 - 1.I.1981) foi médico cardiologista e professor da Harvard Medical School (U.S.A.). Filho dos imigrantes ucranianos, Issac Litman e Sadie Zewat Litman), o nome Littmann é bem conhecido pela patente do estetoscópio Littmann pela sua performance acústica.

Fernando Pinto do Amaral no Anfiteatro principal
da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

     Fernando José Branco Pinto do Amaral (Lisboa, 12.V.1960) é poeta, crítico literário e professor universitário. É filho de António Pinto do Amaral, médico, e de Maria Eugénia Rodrigues Branco, popular actriz da década de 1940. Frequentou a Faculdade de Medicina de Lisboa entre 1979 e 1982, mas desistiu do curso em prol das letras. Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas e doutorado em Literatura Românica, lecciona desde 1987 no Departamento de Literaturas Românicas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em 2012 publicou a colectânea de poesia Paliativos.



Variações sobre um tema original "Medicina" na Literatura VII, Op.23

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