sábado, 28 de novembro de 2015

"Visita Guiada" ao Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda | RTP2

   Concluída em 1896, a Enfermaria de Segurança do Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda (inicialmente designado Hospital de Rilhafoles) foi concebida para acolher doentes mentais condenados por crimes. Na linha das teorias reinserção social mais avançadas da época, este bloco do complexo do Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda foi construído segundo o modelo "Panóptico". Modelo arquitectónico que Michel Foucault, filósofo francês, no seu livro "Vigiar e Punir", repescou e tornou famoso nos anos 70 do século XX para demonstrar as suas teorias sobre o "Suplício", "Punição", "Disciplina" e "Prisão".

   O Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda, desativado há anos, tem um dos dois únicos panópticos sem teto que se conhecem no mundo. “Panóptico” quer dizer um modelo arquitetónico singular: o edifício é um círculo vazio no centro, centro em que uma torre permite "ver sem ser visto". Muito para lá da beleza que hoje se reconhece a este modelo arquitetónico do séc. XIX, o panóptico conta outra história, a da arquitetura ao serviço do controlo dos comportamentos. O psiquiatra Fernando Vieira e o arquiteto José António Bandeirinha foram guias na VISITA GUIADA, um programa da Rádio e Televisão Portuguesa com Paula Moura Pinheiro do passado 26 de Outubro de 2015.

O PROGRAMA pode ser revisionado aqui: http://www.rtp.pt/play/p2002/e211315/visita-guiada
Pavilhão de Segurança com o corpo de entrada rectangular e de apoio
 e o vasto corpo circular, 1948.

   O Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda, recentemente encerrado (designado Hospital de Rilhafoles até 1911) foi o terceiro grande hospital a ser fundado em Portugal, com 300 camas, em 1848 (a seguir aos Hospitais de Todos-os-Santos / S.José, em Lisboa, e ao Hospital de Sto António, no Porto) e ficou instalado no vasto edifício da Congregação da Missão dos Padres de S. Vicente de Paulo, construído entre 1730 e 1750 na antiga Quinta de Rilhafoles, adquirida por aquela instituição religiosa em 1720.

   Primeiro hospital psiquiátrico fundado no país, sempre assumiu uma posição inovadora na assistência e terapêuticas utilizadas, e nele foram directores a maioria das grandes figuras nesta área da saúde como Caetano Beirão, António Pulido, Guilherme Abrantes, Miguel Bombarda, Júlio de Matos, Sobral Cid, António Flores ou Eduardo Cortesão, e nele exerceram outros como Barahona Fernandes ou o neurologista Mark Athias, além do neuro-psiquiatra João Alfredo Lobo Antunes, sendo ainda de realçar ter exercido no Hospital, o filho deste último, até se reformar, o escritor António Lobo Antunes.

   O Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda, recentemente encerrado (designado Hospital de Rilhafoles até 1911) foi o terceiro grande hospital a ser fundado em Portugal, com 300 camas, em 1848 (a seguir aos Hospitais de Todos-os-Santos / S.José, em Lisboa, e ao Hospital de Sto António, no Porto) e ficou instalado no vasto edifício da Congregação da Missão dos Padres de S. Vicente de Paulo, construído entre 1730 e 1750 na antiga Quinta de Rilhafoles, adquirida por aquela instituição religiosa em 1720.

   Primeiro hospital psiquiátrico fundado no país, sempre assumiu uma posição inovadora na assistência e terapêuticas utilizadas, e nele foram directores a maioria das grandes figuras nesta área da saúde como Caetano Beirão, António Pulido, Guilherme Abrantes, Miguel Bombarda, Júlio de Matos, Sobral Cid, António Flores ou Eduardo Cortesão, e nele exerceram outros como Barahona Fernandes ou o neurologista Mark Athias, além do neuro-psiquiatra João Alfredo Lobo Antunes, sendo ainda de realçar ter exercido no Hospital, o filho deste último, até se reformar, o escritor António Lobo Antunes.

   Antecedendo o encerramento do Hospital, um documento subscrito em Dezembro de 2010 por personalidades de topo da Cultura e Ciência em Portugal (dos quais sobressaem António Damásio, Paula Rego, Júlio Pomar, Eduardo Nery, Joana Vasconcelos, António Lobo Antunes, João Lobo Antunes, Simonetta Luz Afonso, Raquel Henriques da Silva, ou Maria Filomena Mónica) apelou ao Desenvolvimento deste Museu de Sítio (que só faz sentido neste local carregado de história, onde Miguel Bombarda criou c. 1894 um dos primeiros Museus de Arte de Doentes da Europa, e com edifícios classificados e de arquitectura sem paralelo a nível internacional), contra o desmembramento ou mesmo a destruição das valiosíssimas coleções e arquivos, constituindo um Museu autónomo de Arte de Doentes / Arte Outsider e de Neurociências.

Aspecto actual do Pavilhão de Segurança
do extinto Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda, 2015

Na próxima semana:
- Quem foi Miguel Bombarda?
- Que personalidades famosas passaram pelo Panóptico e que outras marcas na literatura, pintura e cinema deixou este pavilhão de Segurança?

Variações sobre um tema original, Medicina em Portugal III, Op.6

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Exposição "Real Bodies: Descubra o Corpo Humano" | Cordoaria Nacional, Lisboa

REAL BODIES - DESCUBRA O CORPO HUMANO
Classificação: M/03 anos | Duração Estimada: 90 min. s/ intervalo

   A exposição internacional “Real Bodies”, que apresenta mais de 350 órgãos e corpos humanos reais e que permite perceber como funciona o corpo humano, encontra-se patente na Cordoaria Nacional, em Lisboa.

   “Real Bodies – Descubra o corpo humano” é apresentada como a “maior e mais completa exposição de órgão e corpos humanos reais”, organizada por uma empresa norte-americana e que já foi exibida noutras cidades, somando mais de 15 milhões de visitantes.

   Em 2007, Lisboa acolheu uma exposição semelhante – com 17 cadáveres e 270 órgãos humanos conservados segundo a técnica de polimerização – que chegava a Portugal com um rasto de polémica e dúvidas sobre a origem dos corpos utilizados. “Real Bodies”, que também conta com corpos reais inteiros, apresentará corpos em várias posições anatómicas, órgãos afetados por doenças e ainda corpos de atletas durante a prática desportiva. Tendões, ossos, músculos, pele, os aparelhos urinário e respiratório, tudo será mostrado nesta exposição que, lê-se na página oficial, “é adequada para todos os públicos”.


   "Uma bailarina, um lançador de pesos, um basquetebolista com a bola na mão - três corpos literalmente sem pele, músculos flectidos, parados, mas cheios de movimentos. Há uma galeria na exposição Real Bodies – Descubra o Corpo Humano dedicada inteiramente ao desporto, para mostrar que o corpo humano está concebido para o movimento. “Queremos transmitir às pessoas que o corpo humano é óptimo para o movimento”, explica ao PÚBLICO Laura Alegria, curadora da exposição, defendendo que a mostra promove uma vida fi sicamente activa, algo que é bom para o próprio corpo. “Precisamos de nos mover. Nesta sociedade passamos muito tempo sentados.”


   Quem visitar a exposição aberta desde 31 de Outubro na Cordoaria Nacional, em Lisboa, e ainda sem data de encerramento, irá ver muito mais do que isso. Ao todo, há 34 cadáveres e 350 órgãos humanos preservados com três técnicas diferentes e têm um aspecto fresco. Por isso, é possível ver como são as nossas entranhas: os aparelhos respiratório, digestivo, urinário, sexual, circulatório; o cérebro e muitos, muitos músculos. “É muito didáctica”, diz a curadora, da Doca, a empresa inglesa que montou a exposição juntamente com a portuguesa World Crew - Events. “É feita para que todas as pessoas possam perceber o que é o corpo humano.”
   Esta não é a primeira vez que Lisboa recebe uma exposição deste género, onde se mostram cadáveres humanos preservados. Em 2007, o Palácio dos Condes do Restelo, na Rua da Escola Politécnica, abria as portas para a mostra O Corpo Humano como nunca o Viu. Cinco cadáveres que estão na Cordoaria Nacional já tinham feito parte daquela exposição. Várias exposições semelhantes passearam-se por muitas cidades do mundo nos últimos anos. Tudo começou com Body Worlds, de 2004, criada pelo médico anatomis-ta Gunther von Hagens, que em 1977 desenvolveu uma técnica de preservação de cadáveres que baptizou de “plastinação”.

   A plastinação permite fixar os tecidos mortos de forma a impedir a sua decomposição. É uma técnica constituída por cinco passos: primeiro, usam-se substâncias químicas para travar a decomposição do corpo; depois, dissecam-se as partes necessárias do cadáver para mostrar a sua anatomia; em terceiro lugar, elimina-se a água do corpo usando acetona; de seguida, coloca-se o corpo numa câmara de vácuo, num banho de polímeros líquidos - o vácuo obriga a acetona líquida a tornar-se gás, libertando-se dos tecidos, sendo substituída pelos polímeros; finalmente, aplica-se silicone para endurecer o corpo. Desta forma, graças às propriedades do plástico, o cadáver fica preservado indefinidamente, com um aspecto luzidio.

Os corpos e os órgãos foram submetidos a três técnicas diferentes 
que permitem conservar os tecidos indefinidamente
   Na nova exposição, além da plastinação, há ainda a utilização de mais duas técnicas, explica Laura Alegria. Uma em que se utilizam resinas de epóxido (um polímero artificial), o que permite endurecer os tecidos. Esta técnica foi usada para, depois, se poderem cortar finas fatias do corpo humano, outra aposta da exposição. A terceira técnica, chamada “fundição”, permite conservar apenas o sistema circulatório. Neste caso, injectam-se polímeros nas veias e artérias. Desta forma, é possível conservar os vasos sanguíneos, da cabeça aos pés, sem mais nenhum tecido. Os cadáveres provêm dos Estados Unidos e da China, segundo a informação prestada pela empresa de assessoria portuguesa da exposição Inha&Maria Luís: alguns pertenciam a pessoas que doaram os seus corpos para a ciência depois de morrerem, outros eram de pessoas que morreram e os seus corpos não foram reclamados. As leis dos Estados Unidos e da China, refere ainda a empresa de assessoria, permitem que os corpos sejam doados para a ciência. No passado, algumas exposições pelo mundo com cadáveres humanos plastinados estiveram envoltas em polémica quanto à origem dos corpos. Grupos defensores dos direitos humanos acusavam as empresas que organizavam as exposições de que os corpos eram de presos chineses condenados à morte.


   Esta exposição, que veio de Jesolo, no Norte de Itália, junto a Veneza, está aberta das 10h às 20h, todos os dias da semana, incluindo fins-de-semana e feriados. O bilhete custa 15,5 euros por adulto e há descontos para estudantes, idosos, crianças, famílias, grupos de adultos e grupos escolares. No fim-de-semana de abertura, mais de 3000 pessoas visitaram a exposição.

in Público 03.XI.2015, por Nicolau Ferreira.


   O interior da exposição manter-se-á aberto até às 21h30 para os últimos visitantes que entrarem até às 20h00. A entrada será feita por sessões de meia em meia-hora, em que a primeira terá início às 10h00 e a última às 20h00. Não existe tempo limite para a visita, mas o tempo previsto ronda 1h30 min. Entrada grátis para crianças até aos 4 anos desde que acompanhadas por um adulto portador e bilhete válido.

Site da exposição: http://www.realbodies.pt/

Variações sobre um tema original "Medicina" em Simpósios, apresentações e Exposições II, Op.5

domingo, 8 de novembro de 2015

Ciclo Cinema e Psiquiatria


CINEMA E PSIQUIATRIA A Cinemateca - Museu do Cinema em associação com as “Conferências de Outono”, organizadas pelo Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital de Santa Maria e pela Faculdade de Medicina de Lisboa organizam o Ciclo "Cinema e Psiquiatria". Duas sessões na Cinemateca  intercalam-se com debates no Serviço de Psiquiatria em que a psiquiatria é colocada em diálogo com outras áreas de modo a alargar o olhar recíproco entre a psiquiatria e a sociedade. A partir de amanhã, dia 9 de novembro.

Dia 9, Segunda-feira, 18:30 | Cinemateca | EL de Luis Buñuel com Arturo de Córdova, Delia Garcés, Luís Beristain México, 1951 – 90 min / leg. eletronicamente em português | M/12 sessão seguida de debate com Miguel Talina. Um dos grandes filmes de Buñuel e um dos mais perversos, cheio de símbolos e fetiches que materializam as fixações e a paranoia do protagonista. Buñuel foi buscar um dos grandes símbolos do macho nos melodramas mexicanos, Arturo de Córdova, transformando‑o num impotente, paranoicamente ciumento, e contrapondo‑o à elegante atriz argentina Delia Garcés. Como sempre em Buñuel, o filme é repleto de humor. Uma obra‑prima indiscutível, que Jacques Lacan mostrou durante vários anos aos seus alunos, como ilustração da paranoia. O filme tem uma segunda passagem a 11, às 15h30. A projeção de EL é seguida por um debate com a presença de Miguel Talina, Diretor do Serviço de Psiquiatria do Hospital Vila Franca de Xira e Professor de Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.

Dia 10, Terça-feira, 12:30 | Serviço de Psiquiatria do CHLN | "O Cinema e a Psiquiatria", com o Prof. Luís Miguel Oliveira. No âmbito das Conferências de Outono que decorrerão de outubro a novembro de 2015, o Serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria - CHLN organiza as Conferências de Outono. As Conferências realizar-se-ão na sala Barahona Fernandes, localizada no piso 1, na Consulta Externa de Psiquiatria entre as 12h30 e as 14h. As Sessões são abertas a todos os profissionais de saúde do Centro Hospitalar Lisboa Norte e da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Dia 14, Sábado, 16:00 | Cinemateca | FEN AI “Até que a Loucura nos Separe” de Wang Bing Hong Kong, França, Japão, 2013 – 227 min / legendado em inglês | M/12. FEN AI documenta a vida quotidiana no interior de um hospital psiquiátrico isolado, no sudoeste da China. Um espaço habitado por cerca de cem pacientes albergados num espaço muito decrépito e em grande reclusão. Com idades entre os 20 e os 50 anos, raramente recebem visitas de familiares ou amigos, e, abandonados pela sociedade, procuram o conforto e o calor humano. Ao longo de cerca de quatro horas Wang Bing traduz o dia a dia de um conjunto de homens que vivem num mundo realmente à parte. Também conhecido pelo seu título internacional, TILL MADNESS DO US PART. Primeira exibição na Cinemateca.

http://www.sppsm.org/event/cinema-e-psiquatria/#prettyPhoto/0/
http://www.cinemateca.pt/CinematecaSite/media/Documentos/novembro2015.pdf

Variações sobre um tema original "Medicina" no Cinema I, Op. 4

sábado, 7 de novembro de 2015

Quem foi Ricardo Jorge?

Aquando da inauguração da exposição do Museu da Saúde - Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge intitulada “Ricardo Jorge e a Saúde Pública em Portugal” ontem, dia 6 de novembro 2015, revisitamos hoje o perfil de Ricardo Jorge.

"Um serviço central de saúde não pode rastejar por uma simples estância burocrática. Tem de ser a sede de uma plêiade de funcionários especializados e treinados. Tem de animá-lo o espírito da renovação científica e técnica, para a qual contribui a seu turno com os resultados da sua experiência e investigação; é um centro de acção e de produção de ciência aplicada.”
Ricardo Jorge, "A propósito de Pasteur", 1923.

Ricardo de Almeida Jorge nasceu na cidade do Porto, a 9 de Maio de 1858, e faleceu em Lisboa, a 29 de Julho de 1939.

Em 1874, ingressa na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, na qual viria a formar-se, cinco anos depois, com as mais altas classificações. Na sua dissertação de licenciatura, "O nervosismo no Passado", aborda a história da Neurologia, um termo que nessa altura ainda não havia sido consensualizado. Tinha então 21 anos.

Inicia a sua vida profissional, em 1880, como professor na Escola Médico-Cirúrgica do Porto e faz várias deslocações a Estrasburgo e a Paris (onde assiste às lições de Charcot), procurando nos hospitais locais uma aprendizagem impossível de adquirir em Portugal, onde o saber neurológico era ainda incipiente.

O ano de 1884 marca uma viragem nas suas preocupações de estudo. Abandona a Neurologia e começa a dedicar-se à "Higiene Social Aplicada à Nação Portuguesa", tema de uma série de conferências, que lhe granjeiam um enorme prestígio em todo o país.

Ricardo Jorge com Balbino Rego, Sousa Júnior e peritos - 1899Aos 27 anos, elabora e apresenta no Conselho Superior Público (do qual fazia parte como delegado do Porto), um relatório sobre o ensino médico em Portugal, que considera obsoleto face às orientações modernas que vira praticadas noutros países europeus. Este relatório viria depois a servir de base ao Regulamento Geral de Saúde de 1901.

Entre 1891-1899, é nomeado médico municipal do Porto, ficando também responsável pelo Laboratório Municipal de Bacteriologia. Torna-se, em 1895, professor titular da cadeira de Higiene e Medicina Legal da Escola de Medicina do Porto. Este facto, juntamente com a publicação das suas conferências de 1884, vai consolidar o seu prestígio como higienista.

Mas é em Junho de 1899 que se dá a sua consagração em definitivo a nível nacional e a projecção internacional, quando, sem hesitações, chega à prova "clínica e epidemiológica" da peste bubónica que assolou a cidade do Porto, sendo esta depois confirmada "bacteriologicamente" por ele próprio e Câmara Pestana.

No entanto, as operações profilácticas que liderou no sentido de eliminar a peste, como a evacuação de casas e o isolamento e desinfecção de domicílios, entre outras, desencadearam a fúria popular que incentivada por grupos políticos, obrigam Ricardo Jorge a abandonar a cidade.

Dr. Ricardo Jorge no laboratório - 1899Em Outubro de 1899, é transferido para Lisboa, sendo nomeado Inspector-Geral de Saúde e a seguir professor de Higiene da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Em 1903, é incumbido de organizar e dirigir o Instituto Central de Higiene, que passaria a ter o seu nome a partir de 1929.

Participa em iniciativas como a organização da Assistência Nacional Contra a Tuberculose e o Congresso Internacional de Medicina de 1906, no qual presidiu à Secção de Higiene e Epidemiologia. Colabora também na reforma do ensino médico de 1911, e em 1912 inicia os seus trabalhos no Office Internacional de Higiene, em Paris, onde haveria de se distinguir.

Nos anos de 1914 e 1915 preside à Sociedade das Ciências Médicas e nos anos seguintes visita formações sanitárias na zona de guerra em França. Organiza depois a luta contra a epidemia de gripe pneumónica, do tifo exantemático, varíola e difteria, que surgiram como consequência das deficientes condições sanitárias do pós-guerra.

É escolhido para representar Portugal no Comité de Higiene da Sociedade das Nações e, em 1929, é nomeado Presidente do Conselho Técnico Superior de Higiene. Mesmo nos últimos anos da sua vida mantém uma intensa actividade, intervindo pela última vez numa reunião do Office Internacional de Higiene, três meses antes de morrer.

Ricardo Jorge com Albert Calmet, Ferrand, Câmara Pestana, entre outros - 1899

Os interesses de Ricardo Jorge não se limitaram, no entanto, ao campo da medicina e as suas preocupações revelam um espírito versátil e curioso de verdadeiro humanista. A sua vasta obra inclui, por exemplo, publicações versando arte, literatura, história e política.


Bibliografia |
http://www.insa.pt/sites/INSA/Portugues/Biblioteca/BiblioDigit/Paginas/Inicio.aspx |
http://www.insa.pt/sites/INSA/Portugues/QuemSomos/historia/Documents/Bibliografia_RJ.pdf |
Versão integral de 80 obras da autoria do fundador do Instituto Nacional de Saúde, o professor Ricardo Jorge, escritas no decurso da sua actividade científica na área da Saúde Pública e fruto do seu gosto pela literatura, linguística, história, arte e política. E ainda 29 dissertações de medicina a que presidiu o júri.


Variações sobre um tema original, Medicina em Portugal II, Op.3

terça-feira, 3 de novembro de 2015

História da Noite da Medicina de Lisboa

   No final de Outubro ou início de Novembro a imponente Praça de Touros do Campo Pequeno ou a colossal Coliseu dos Recreios tem-se habituado a encher para mais uma edição da já conhecida Noite da Medicina, sendo palco de um espetáculo organizado pelos finalistas da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL).

   O Campo Pequeno contará com uma audiência de cerca de 3400 pessoas entre alunos, professores, amigos, familiares, médicos e patrocinadores que assistirão a um espetáculo concebido e encenado por mais de 400 alunos com produções físicas e de vídeos que visa, entre outras ações, a promoção e colaboração com entidades e iniciativas solidárias, a apresentação da união e espírito académico aos novos alunos, a divulgação da Faculdade de Medicina e a sua História e a promoção da diversidade e desenvolvimento pessoal, cultural e criativo de todos os estudantes da FMUL.

   A Noite da Medicina 2016 poderá ser acompanhada em directo: http://noitedamedicina.pt/


   A Noite da Medicina é um espectáculo académico organizado pelos finalistas do curso de Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL), realizado anualmente nas últimas semanas de Outubro ou início de Novembro. O espectáculo conta com números de variedades musicais, dança, vídeo e actuações em palco, assumindo-se como momento de união dos estudantes da FMUL através da sátira aos aspectos do seu quotidiano. Marca-se como a despedida dos finalistas e as boas-vindas dos recém chegados, havendo também espaço concedido aos outros anos (do 2º ao 5º) para participarem.

   A Noite da Medicina é um dos espectáculos académicos com maior tradição em Portugal. Seguindo a melhor tradição das clássicas Récitas Estudantis do virar do século XX, a primeira edição data de 1912, onde ainda era um espectáculo de beneficiação para uma instituição de solidariedade social.



 Durante cerca de 60 anos, até ao 25 de Abril de 74, o espectáculo era uma revista portuguesa, com partes faladas e cantadas, que ironizava o quotidiano da faculdade, os alunos e os professores. Alguns professores chegaram mesmo a participar. Durante estes anos, passou pelos teatros mais ilustres de Lisboa: o Politeama, o Monumental, o Teatro da Trindade e o Teatro S. Carlos. Como todos os espectáculos desta época, também as récitas dos Quintanistas de Medicina eram visadas pela Censura. A "Récita 70", apresentada em 1970, esteve quase para não ser permitida pelo Serviço Nacional de Informação (SNI).


Noite da Medicina de 5 de Fevereiro de 1929 no Teatro Politeama,
assumindo a forma de um teatro de revista escrito em coplas com o título
“O Que Arde… Cura!”, levado à cena pelo curso de 1924/29

   No entanto, com a interdição do direito de livre associação introduzida no Estado Novo, em 1933 suspende-se a realização do espectáculo nos moldes já habituais, ressurgindo lentamente como mostra de pendor mais erudito e sobejamente mais “bem comportada” nos anos seguintes. Depois de uma série de anos sem existir Récita dos Finalistas, a Noite da Medicina volta, retoma a qualidade de espetáculo de cariz mais teatral e mordaz em 1978, na Sala de Alunos da AEFML, onde decorreu durante os seguintes 25 anos até ser transferida para o Auditório da FMDUL em 2003. Em 2005 é novamente transferida para a Aula Magna da Universidade de Lisboa, e a partir de 2008 passa a realizar-se no Coliseu dos Recreios de Lisboa e, finalmente, desde 2014, a Noite da Medicina tem sede no Campo Pequeno, em Lisboa.   

   Com uma plateia de 3000 pessoas e intervenção em palco de cerca de 500 alunos, trata-se do maior e mais antigo espectáculo académico organizado por uma Faculdade em Portugal, e do 3.º maior espetáculo académico nacional – ultrapassado apenas pela Monumental Serenata da Associação Académica de Coimbra (realizada desde 1949 com 20.000 espetadores anuais) e pela Monumental Serenata da Federação Académica do Porto (7.500 espectadores anuais). Na construção do espectáculo as causas sociais não são esquecidas. De ano para ano a comissão organizadora da Noite da Medicina organiza actividades com os caloiros da faculdade como a doação de sangue, inscrição no Registo de Dadores de Medula Óssea e o Churrasco Solidário do Caloiro, cujos lucros revertem a favor de uma instituição de cariz social.

Noite da Medicina no Coliseu dos Recreios em Novembro de 2011 | Curso 2006-2012
   
Cartaz da Noite da Medicina de 2014, Campo Pequeno | Curso 2009-2015


Cartaz da Noite da Medicina de 2016, Campo Pequeno | Curso 2011-2017


   Actualmente, a Noite da Medicina é uma festa de toda a faculdade, onde participam todos os anos, não sendo exclusivamente uma "récita dos quintanistas". Apesar de se realizar em moldes diferentes dos anos 20, continua a ser o grande espectáculo cultural desta Faculdade. Aqui ficam os vídeos mais emblemáticos das últimas edições:

Noite da Medicina de 2010 | Curso 2005-2011

Noite da Medicina de 2010 | Curso 2005-2011

  

Noite da Medicina de 2012 | Curso 2007-2013

~
Noite da Medicina de 2013 | Curso 2008-2014




Noite da Medicina de 2014. Paródia Bailando | Curso 2009-2015

Noite da Medicina de 2014. Paródia Bailando | Curso 2009-2015

Noite da Medicina de 2015 | Curso 2010-2016



"A História da Noite da Medicina" in http://noitedamedicina.pt/ (adaptado)
Variações sobre um tema original: Medicina em Simpósios, espectáculos e Exposições I, Op.2

domingo, 1 de novembro de 2015

O Hospital Real de Todos-os-Santos | Variações sobre a Medicina em Portugal I, Op.1

   Em 1492 D. João III lançou a primeira pedra da construção do Hospital Real de Todos-os-Santos que veio a ser inaugurado por D. Manuel I em 1501 entre a actual Praça da Figueira e o Rossio. Este veio a substituir todos os hospitais medievais de pequenas dimensões pertencentes a diferentes ordens religiosas, como remonta à génese da sua designação.  Portugal inaugura o movimento europeu das construções hospitalares da época, assente numa lógica de unificação e centralização.

All-Saints.jpg
The Forerunners of Christ with Saints and Martyrs (c.1423-24).
National Gallery, London. Author Angelico
   Por ironia do destino em que assenta o próprio nome foi na festa ou solenidade do dia de Todos-os-Santos, celebrada em honra de todos os santos e mártires pelos crentes de muitas das igrejas da religião cristã a todos os primeiros dias de Novembro, que foi destruído pelo horrífico terramoto de 1755.

   A réplica de uma possível reconstituição de Lisboa e do Hospital antes do terramoto encontra-se patente no Museu da Cidade de Lisboa. Em sua homenagem encontra-se actualmente em construção um novo Hospital "de Todos-os-Santos" ou Centro Hospitalar Lisboa Oriental, que deverá albergar as várias unidades integrantes do actual Centro Hospitalar Lisboa Central, Campo Grande. 

   Segue-se um excerto de um artigo de João Martins e Silva, ex-director da Faculdade de Medicina de Lisboa sobre o início da Medicina Hospitalar.


"O Começo da Medicina Hospitalar

   O ensino e a prática de Medicina foram modificadas radicalmente com a fundação por D. João II, em 1492, do Hospital de Todos-os-Santos, em Lisboa. Alguns anos mais tarde, cerca de 1504, D. Manuel I, numa medida pioneira e de grande visão estratégica, determinou que a cirurgia fizesse parte da matriz da formação médica na Universidade, sendo o seu ensino realizado naquele Hospital.

   Ainda com D. João II, e depois pelo seu cunhado e sucessor D. Manuel I, foi profundamente alterada a organização dos cuidados de saúde à população, que passou a contar com instituições hospitalares de dimensão razoável, em substituição das albergarias e outras instalações precárias e dependentes da caridade. Já nos tempos do Condado Portucalense, existiam alojamentos semelhantes para socorrer os viajantes e asilar temporariamente os doentes desprotegidos e outros carenciados, designadamente crianças e velhos.

   A reorganização dos estabelecimentos hospitalares da época deveu-se fundamentalmente à escassez de rendimentos, à precaridade e exiguidade das instalações em que funcionavam as albergarias, enfermarias e os primitivos hospitais e, ainda, à declarada deficiência do serviço clínico e dos apoios disponíveis. Nessa perspectiva, a criação do Hospital (Real) de Todos-os-Santos conduziu à aglutinação de dezenas daquelas instalações que proliferavam por todos os bairros da antiga Lisboa. Nas outras principais cidades do Reino verificou-se idêntico processo de centralização dos recursos e dos serviços a prestar.

   A par com a criação daquele emblemático hospital de Lisboa, nasceu um outro movimento de inspiração cristã fundamentado na premência em prestar auxílio e dar tratamento aos doentes mais pobres e desprotegidos, de que veio a resultar a fundação, em 1498, da confraria de Nossa Senhora da Misericórdia. O primeiro estabelecimento das “Misericórdias” foi instalado junto à Sé em Lisboa, numas casas cedidas para albergar indigentes doentes. Em 1516, D. Manuel I, irmão de Dona Leonor, determinou que fosse concedida uma dotação especial que veio a ser decisiva para o desenvolvimento das “Misericórdias”. Enquanto as Misericórdias tinham por principal objectivo a prática da caridade, o Hospital de Todos-os-Santos, à semelhança de outros fundados no Reino a partir do século XVI, visava fundamentalmente o tratamento das feridas e das doenças graves, embora mantivesse, na linha da tradição das anteriores albergarias, um amplo sector para acolhimento dos peregrinos e indigentes da cidade. Rapidamente muitas outras unidades semelhantes foram sendo criadas por todo o País, perdurando (com óbvias modificações) até aos dias de hoje. Consta que a criação das Misericórdias teve origem nas recomendações da rainha Dona Leonor junto de seu marido, instada pelo seu confessor a promover o auxílio real à população mais necessitada.

Painel de azulejos mostrando a fachada do Hospital Real de Todos-os-Santos,
c. 1740, Museu da Cidade de Lisboa.

   Pela documentação conhecida, o Hospital de Todos-os-Santos (que se localizava na antiga Praça da Figueira com a fachada orientada para o Rossio) era um edifício majestoso para a época. Na traça original, o hospital tinha três enfermarias num piso superior e, no andar inferior, havia dois espaços amplos com função de albergaria, um recolhimento para crianças abandonadas (criandário), uma casa para doentes alienados e outra para os incuráveis, além de quartos para doentes de condição social elevada. As enfermarias destinavam-se a doentes do foro médico, outra abrigava feridos requerendo tratamento cirúrgico, uma terceira era reservada somente a mulheres, qualquer que fosse a sua doença, e havia ainda um sector para doentes com enfermidades venéreas e sífilis (morbo serpentino). No caso de aumentar o número de doentes a requererem internamento, havia espaços para instalar mais algumas enfermarias de recurso. Além dos doentes internados, o serviço incluia uma vasta consulta externa. Para todo o serviço, o pessoal clínico (permanente) limitava-se a dois médicos, dois cirurgiões e um mestre em tratamento da sífilis, sendo a gestão da responsabilidade de três ou quatro padres da Confraria de Santo Eloi, um dos quais era designado provedor. O edifício foi destruído por dois incêndios (1610 e 1750) e sucessivamente reconstruído, desaparecendo definitivamente no terramoto de 1755. A primeira reconstrução aumentou substancialmente o espaço útil do hospital e modificou a forma do edifício para a de uma cruz, com quatro segmentos iguais. Um dos braços era ocupado pela igreja, com entrada por uma escadaria do lado do Rossio. Os restantes braços eram ocupados por três grandes enfermarias principais (a São Cosme, para os feridos, a de Santa Clara para as mulheres e a de S. Vicente para os doentes com febres), num total de 60 leitos dispostos de modo a deixarem um espaço livre para corredor. Além destas enfermarias (exemplares para a época) havia muitos outros espaços onde cabiam leitos à medida das necessidades, pelo que a população hospitalizada variava entre cerca de 300 a 600 doentes. As características hospitalares pouco ou nada mudaram até um século mais tarde, excepto no movimento dos doentes, que aumentou para cerca de seis mil entradas por ano. A exiguidade de pessoal clínico mantinha-se, havendo ainda mais oito enfermeiros fixos, dos quais cinco eram mulheres. A mortalidade continuava elevadíssima entre os doentes hospitalizados, dos quais morria cerca de um quinto.

Representação do Terramoto de Lisboa de 1 de Novembro de 1755

João Martins e Silva «Anotações sobre a história do ensino da Medicina em Lisboa, desde a criação da Universidade Portuguesa até 1911 – 1ª Parte». RFML 2002; Série III; 7 (5): 237-249. (Ex-Director da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa)


'Quando Lisboa Treme - de 1755 à Cidade Resiliente' é a exposição que o Museu de Lisboa inaugurou no Pavilhão Preto, assinalando os 260 anos da catástrofe natural. São apresentadas gravuras da destruição da cidade. maquetas da famosa Gaiola Pombalina. bombas de água utilizadas na época, uma plataforma sísmica interativa, equipamentos de medição de sismos e ilustrações das atividades da proteção civil. A exposição procura dar a conhecer mais sobre as caraterísticas associadas aos perigos e riscos dos fenômenos sísmicos. É uma iniciativa da Cámara Municipal de Lisboa em parceria com o Instituto D. Luiz. Instituto Portugués do Mar e da Atmosfera e o Instituto Superior Técnico. | Até 1 de Março, de Terça a Domingo, entre as 10h00 e as 18h00. A entrada é livre.
Variações sobre um tema original "Medicina" em Portugal I, Op.1