"A Montanha Mágica" ("Der Zauberberg") de Thomas Mann, 1924 | Parte II
Variações sobre um tema original, "Medicina" na Literatura XII, Op.30"O que devo eu então dizer sobre o próprio livro [A Montanha Mágica] e ainda por cima, como deve ser lido? O começo é uma exigência muito arrogante, a dizer que se deva lê-lo duas vezes. É claro que essa exigência é retirada imediatamente para o caso de que na primeira vez se tenha ficado entediado. A arte não deve ser nenhum trabalho escolar nem dificuldade, nenhuma ocupação contre coeur, mas sim deve alegrar, entreter e animar e aquele sobre o qual uma obra não exerce esse efeito então este deve deixar a obra de lado e voltar-se para outra. Mas quem chegou uma vez até o final com a “Montanha Mágica” então eu aconselho a lê-la mais uma vez, pois seu feitio particular, seu caráter como composição traz consigo que o prazer do leitor aumentará e se aprofundará da segunda vez, - como se deve já conhecer uma música para poder gozá-la de acordo.
Excerto da conferência apresentada por Thomas Mann em Maio de 1939 aos estudantes da Universidade de Princeton
A Reflexão, a auto-observação, o refinamento psicológico, a profundidade filosófica e a sensibilidade estética surgem na obra de Thomas Mann com toda a sua força destruidora e desintegradora e Mann escreveu repetidamente sobre as suas próprias lutas para melhor definir as suas ideias num mundo no qual a a concepção filosófica do passado estavam em decadência, e, como em Nietzsche, em num mundo dividido entre o Romantismo e o Racionalismo.
Por detrás de todo o registo acerca da dicotomia entre a saúde e a doença, uma realidade médica do início do século passado tão sublimemente transposta para a literatura, de seguida uma reflexão contextualizadora da filosofia e do pensamento à época:
Por detrás de todo o registo acerca da dicotomia entre a saúde e a doença, uma realidade médica do início do século passado tão sublimemente transposta para a literatura, de seguida uma reflexão contextualizadora da filosofia e do pensamento à época:
I
"Num dos mitos clássicos da nossa cultura encontramos a história de uma jovem que, no momento em que colhia despreocupadamente flores no campo, vê subitamente a terra abrir-se e do seu seio brotar o senhor da Morte que a rapta violentamente conduzindo-a para os abismos. Ela tornar-se-á, a partir daí, a senhora dos Infernos e ciclicamente surgirá na sua forma primaveril à face da Terra. Neste mito sobre Perséfone opera-se a conjugação, à partida, tão paradoxal, entre a beleza e a morte.
A obra literária de Thomas Mann e, em particular, o seu romance A Montanha Mágica, podem ser perspectivados como uma meditação permanente sobre esta identidade tão singular que transforma a morte e o sofrimento no reverso da beleza e da perfeição. [...]
Thomas Mann tem bem consciência de que, se na raiz da nossa cultura se encontra um instinto fatal - ou, para utilizarmos a significativa definição de cultura no Doutor Fausto -, se a cultura não é mais do que "a incorporação dos demónios da Noite no culto dos Deuses", então, em qualquer momento, a fina película de civilização que cobre a nossa existência pode estalar e no seu lugar emergir o poder da sofrimento, da loucura e da guerra. Diz-nos o autor nas páginas finais da Montanha Mágica: "Onde estamos? Que é isto? Onde nos levou o sonho? Crepúsculo, chuva e lama, rubros clarões de fogo no céu incendiado; um trovão surdo ressoa sem cessar, enche o ar húmido, dilacerado por silvos agudos, por uivos raivosos, infernais, cujo caminho termina em estilhaços, jactos de terra, detonações e labaredas, gemidos e gritos, clarinadas estridentes que ameaçam despedaçar-se num crepitar cada vez mais rápido, mais rápido...". Terá Goethe razão ao afirmar que todos os nossos sonhos se realizam mas apenas como pesadelos? A Montanha Mágica é [...] a reflexão trágico-satírica do escritor sobre esta mesma questão.
Apesar da redacção do romance A Montanha Mágica ter durado cerca de 12 anos (de 1912 a 1924), a sua narrativa é relativamente simples. Ela baseia-se, aliás, num facto verídico da vida do escritor. No ano de 1912, a sua mulher teve que passar seis meses num sanatório na zona de Davos na Suíça. Thomas Mann foi visitá-la durante três semanas e são os acontecimentos aí ocorridos que constituirão o ponto de partida biográfico para o romance.Na Montanha Mágica, um jovem órfão de 23 anos, simples, despretensioso e empreendedor, engenheiro naval de profissão, de nome Hans Castorp, decide visitar o seu primo militar Joachim que se encontra internado há cerca de seis meses, por causa de uma tuberculose, no sanatório de Berghof, situado na zona de Davos na Suíça. O seu projecto inicial era permanecer apenas três semanas, mas o médico e director do sanatório, o sinistro Doutor Behrens, comunica-lhe que também ele está doente. E as três semanas transformam-se em 7 anos, até à declaração da guerra em 1914. Na verdade, todos os habitantes daquele sanatório estão doentes, até mesmo o médico. [...]
Hans Castorp passa os dias em grandes conversações filosóficas com duas personagens típicas daquele sanatório: Settembrini, italiano de convicções iluministas e humanistas, defensor da ciência e do poder da razão, adepto do ideário de Voltaire; Nafta, judeu e jesuíta, crítico dos ideais iluministas e defensor niilista de um catolicismo simultaneamente reaccionário e marxista. Ambos procurarão influenciar a formação filosófica de Hans Castorp, mas as profundas desavenças entre ambos terminam num duelo em que Settembrini acaba por disparar para o ar e Nafta se suicida. Por fim, iremos encontrar, nas páginas finais do romance, Hans Castorp combatendo na guerra. Como se pode verificar estamos em face de uma intriga bastante simples, em que o decisivo não está tanto no retrato realista dos acontecimentos, mas antes no significado simbólico que tanto as personagens como as situações representam. A Montanha Mágica é um romance simbólico através de um aparente realismo.
II
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| Thomas Mann (6.VI.1875-12.VIII.1955), Prémio Nobel da Literatura em 1929. |
A primeira questão que devemos colocar prende-se com o significado do próprio símbolo da Montanha Mágica. A expressão provém de "O Nascimento da Tragédia" de Nietzsche onde se fala das "raízes" de uma "Montanha Mágica Olímpica". "Agora abre-se-nos por assim dizer a montanha mágica olímpica e mostra-nos as suas raízes. O Grego conhecia e sentia os horrores e as coisas tremendas da existência: aliás, para poder viver, tinha de contrapor-lhe o fulgurante nascimento onírico dos seres olímpicos".No romance de Thomas Mann, a "Montanha Mágica" (Zauberberg) pode ter vários sentidos e eles não são de forma alguma indiferentes em relação a uma compreensão da obra. Em todos os sentidos possíveis deste símbolo encontra-se, no entanto, um ponto comum: a Montanha Mágica é o mundo "cá de cima", do sanatório de Berghof, a que se opõe o "mundo lá de baixo", do vale - a que poderíamos chamar o Vale desencantado mas em que esta oposição, mais do que traduzir uma antinomia espacial, promove uma alteração substancial, não só nos valores, mas na própria forma de viver dos seus habitantes. Thomas Mann quis, deste modo, realizar uma ficção laboratorial, construindo um universo distinto das preocupações pragmáticas e quotidianas de forma a poder ressaltar alguns traços essenciais da condição humana. São possíveis várias interpretações, com alguma consistência, do símbolo em questão. A mais óbvia, mas que não a transforma, por isso, em menos correcta, consistiria em ver a "Montanha Mágica" como símbolo da situação do homem em face da morte. Estamos num sanatório em que a questão da morte se encontra directa ou indirectamente sempre presente. Os seus "habitantes" têm que lidar diariamente com a morte e, deste modo, são levados a analisar ou a recalcar o sentido das suas vidas. Hans Castorp tem a percepção nítida de que é mortal quando um dia vê directamente o esqueleto da sua mão num aparelho de Raios X. "E Hans Castorp viu o que devia ter esperado, mas que, na realidade, não foi feito para o homem ver e que jamais teria pensado poder ver: lançou um olhar para dentro do seu próprio túmulo. Viu, prefigurado pela força da luz, o futuro processo da decomposição". A questão da morte vai minar todas as formas de relacionamento humano: desde o amor e paixão envoltos numa atracção macabra e patética, bem expresso pelo desejo de Hans Castorp conhecer as "fotografias interiores" [radiografias] de Mme. Chauchat, passando pela consciência cada vez mais nítida de que o fundamento em que se alicerça o que há de mais sublime é a experiência da morte. Isso torna-se claro numa passagem muito bela do romance em que o "herói" se interroga sobre o que é a vida, essa mistura de "água e albumina" que dá corpo à nossa existência: "O que era a vida? Não se sabia. Ela tinha consciência de si mesma, indubitavelmente, desde que era vida, mas ignorava o que era [...]. O que era a vida? Ninguém sabia. Ninguém conhecia o ponto da natureza donde ela brotava e no qual se inflamava. [...] O que era então a vida? Era calor, calor produzido por um fenómeno sem substância própria que conservava a forma; era uma febre de matéria [...] não era matéria nem era espírito. Era qualquer coisa entre os dois, um fenómeno sustentado pela matéria, como o arco-íris sobre a queda de água." A vida, enquanto "frémito secreto que irrompe na castidade gelada do universo" transforma-se para Hans Castorp num sonho, numa imagem onírica de um corpo feminino que progressivamente o envolve e o beija. O encantamento da montanha mágica é a magia da relação entre o amor e a morte como se existisse uma fusão doentia entre a atracção sensual e o fascínio pela decomposição e pela morte. Em que o erotismo, mais do que "aprovação da vida até na própria morte" se transforma na "aprovação da morte até na própria vida".
Uma segunda interpretação do símbolo da "Montanha Mágica" sublinharia o papel privilegiado do tempo na construção deste romance. Aquele local seria "mágico", "encantado" pois promoveria a progressiva dissolução das formas quotidianas e cronológicas da vivência do tempo, possibilitando uma nova compreensão deste. Da mesma forma que a alteração espacial, - como, por exemplo, uma viagem -, suscita uma modificação e provoca o esquecimento, também a nossa experiência temporal pode ser minada por dentro. O primeiro sentimento estranho que envolve Hans Castorp, na sua digressão no Berghof, diz respeito à perda de referências temporais, de tal modo que ele já não consegue ter uma noção nítida dos dias e começa a manifestar dificuldades em responder a questões tão simples como seja a da sua própria idade. A reorganização da experiência interior do tempo constitui, assim, um dos temas centrais da Montanha Mágica, sendo este romance uma exploração meticulosa de todos os meandros da nossa vivência temporal.
A explícita questão sobre a natureza do tempo é colocada em dois momentos distintos do romance. No começo do capítulo seis, na cena "Transformações", que começa com a questão directa: "O que é o tempo?" e no capítulo sete, na cena "Passeio pela Praia", que começa com outra interrogação: "Pode narrar-se o tempo, o tempo em si mesmo, como tal e em si? Não, na verdade seria uma empresa louca. [...] O tempo é o elemento da narração, assim como é o elemento da vida." A narrativa não tem pois o tempo como objecto mas é, em si mesma, a experiência do tempo no interior da linguagem. O que significa que não temos acesso ao tempo - o da vivência mais do que o da sua medição - a não ser através da narrativa. O próprio romance de Thomas Mann é a expressão exemplificada desta mesma tese. Como se o narrar da história promovesse uma distorção da vivência temporal: assim, por exemplo, o primeiro capítulo trata da chegada, enquanto o quarto trata das 3 primeiras semanas, o quinto dos 7 primeiros meses e o sétimo de todos os anos restantes. No próprio prólogo, a voz narrativa anuncia enigmaticamente que a história que se vai ler se passa num passado muito distante, o que não deixa de ser estranho, pois os acontecimentos parecem estar "datados" dado que se referem aos sete anos que antecedem a primeira guerra. É pois uma história mítica que lemos, mais do que um relato histórico circunstancial, em que o que está em causa é essa busca de si através da vivência do tempo. Por sua vez, o romance poderia ser visto como uma meditação sobre as diferentes formas da eternidade num mundo em que a mais "pequena unidade de tempo é o mês": desde o eterno retorno do mesmo simbolizado pela "sopa eterna", passando pela eternidade do sonho, em particular aquele que lhe é revelado pela paixão por Mme Chauchat até à eternidade do instante que se realiza na cena crucial do romance, "A Neve".
A terceira interpretação do símbolo da "Montanha Mágica" sublinharia a reflexão permanente do autor sobre o destino da cultura europeia. E o "encantamento" seria a subtracção momentânea da cultura ao próprio ritmo da história. Esta interpretação tem a seu favor o conflito estéril entre o humanista tagarela Settembrini e Nafta, o crítico niilista da ideologia burguesa do progresso. Como se Thomas Mann nos quisesse mostrar o conflito ideológico que animava a cultura europeia naquela época e, como esse conflito, entre os ideais das Luzes e da Kultur romântica, nos anuncia a expressão de um outro conflito de proporções bem maiores.
III
Estamos assim em face de um romance de aprendizagem. Embora nos possamos interrogar sobre o que é que de positivo Hans Castorp aprendeu dos seus diferentes preceptores, dificilmente a sua visão do mundo permaneceria a mesma sem a intervenção de Settembrini, de Nafta, de Peeperkorn e de Mme Chauchat. Esta última, por exemplo, ensina-lhe, com um certo sabor gnóstico, que se "deve procurar a moral não tanto na virtude, isto é, na razão, na disciplina, nos bons costumes, na honestidade, mas antes no contrário, no pecado, abandonando-se ao perigo, ao que nos é prejudicial, no que nos consome. Penso que é mais moral perder-se e mesmo deixar-se perecer do que conservar-se." E, neste romance de aprendizagem sobre a morte, sobre o tempo e a cultura surgem duas visões distintas na relação entre a beleza e a morte, a perfeição e o sofrimento. A primeira é-nos apresentada na cena em que Hans Castorp ouve extasiado uma canção de Schubert, A Tília. O mundo da canção era singelo, mas, ao mesmo tempo, sublime, em que se canta o amor e a serenidade. E, de repente, Hans Castorp, apercebe-se de que é a "morte" que se encontra por detrás daquela canção. "Que mundo era esse que se abria atrás dela [da canção] e que, segundo o pressentimento da sua consciência, devia ser o mundo de um amor proibido? Era a morte." Nesta súbita iluminação Hans Castorp descobre que, como Nietzsche tinha defendido no Nascimento da Tragédia, na base de toda a forma pura e apolínea revela-se um fundamento caótico, mortal e dionisíaco, fundamento que não é mais do que a "vontade de viver" cega de Schopenhauer. Uma vez mais se confirmava a tese sobre a beleza como o reverso da própria morte.
Winterreise (Viagem de Inverno) é um ciclo de 24 canções composto em 1927 por Franz Schubert
a partir dos poemas de Wilhem Müller. Der Lindenbaum (A Tília) é a quinta canção deste ciclo.Com Dietrich Fischer-Dieskau com Alfred Brendel ao piano.
É, no entanto, possível discernir, na Montanha Mágica, uma alternativa a esta visão niilista da vida. Encontramo-la, pelo menos, em dois momentos: na cena da "Neve" e no final do romance. Na primeira cena, deparamos inicialmente com a visão nietzschiana de um fundo abissal que atravessa toda a beleza formal. Quando Hans Castorp se perde numa tempestade de neve, tem primeiramente uma visão onírica da verdura dos campos e do azul dos mares, recordando-lhe um Mediterrâneo que ele nunca visitou. Mas, como diz o protagonista, "não se sonha unicamente com a nossa própria alma". Só que depois desta percepção idílica, tem a visão arrepiante de duas velhas que, com as suas próprias mãos, dilaceram e esquartejam o corpo de uma criança. Por um lado, Castorp sabe, à maneira nietzschiana, que a morte é parte intrínseca da vida, pois, se assim não fosse, nunca se poderia falar de vida; sabe, numa palavra, que na raiz da experiência mais sublime se encontra o eterno retorno de criação e destruição. "Aquela aspiração para o infinito, o bater das asas da ânsia nostálgica no momento em que apreendemos com um prazer supremo a realidade nitidamente apreendida, lembram que devemos reconhecer [...] um fenómeno dionisíaco que nos revela sempre de novo a construção e destruição lúdicas do mundo individual, decorrendo de um prazer primordial, de modo análogo à comparação, pelo obscuro Heraclito, da força criadora do universo a uma criança que, ao brincar, coloca pedras aqui e acolá, construindo e derrubando montes de areia." Mas Castorp sabe também, à maneira schopenhaueriana, que uma consciência integral da própria "vontade de viver" lhe permite uma compaixão com todos os seres que são vítimas dessa mesma identidade trágica entre a vida e a morte. "Este homem que, em cada ser, se reconhece a si mesmo, no mais íntimo e verdadeiro de si próprio, considera também as dores infinitas de tudo o que vive como sendo as suas próprias dores e, assim, faz seu o sofrimento de todo o mundo. A partir daqui, nenhuma dor lhe é estranha." É, por isso, que Hans Castorp, no final da sua visão na neve, nos dirá: "O homem não deve deixar a morte reinar sobre os seus pensamentos em nome da bondade e do amor. E com isto vou acordar... Pois segui o meu sonho até ao fim e alcancei o meu objectivo". Ou então ainda, no final do romance: "Momentos houve em que nos sonhos que tu "governavas" viste brotar da morte e da luxúria do corpo um sonho de amor. Será que dessa festa da morte, dessa perniciosa febre que incendeia à nossa volta o céu desta noite chuvosa, também o amor surgirá um dia?
João Carlos Correia
in "Thomas Mann e a Montanha Mágica", Philosophical 9, Lisboa, 1997, pp. 123-131. [excertos]
Variações sobre um tema original, "Medicina" na Literatura XII, Op.30
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