sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

António Lobo Antunes | Nós, o último abraço ao irmão João


Variações sobre um tema original, "Medicina" na Literatura X, Op.28

     A última crónica de António Lobo Antunes relata o momento do o último abraço ao irmão João Lobo Antunes, uma despedida quase monossilábica, quase silenciosa, arrasta-nos literalmente para aquele sofá onde, invisíveis, ouvimos o que não é dito e vemos o que não é revelado.



Nós, o último abraço ao irmão João
     "Não precisávamos de falar. Como ele dizia 
- Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar 
mas muito pouco tempo antes de morrer veio ter comigo e passámos a tarde juntos, sentados lado a lado no sofá. Foi ele quem falou quase sempre, eu pouco abri a boca. 
     Mostrou-me os braços, o corpo 
- Estou miserável 
sabia que ia morrer dali a nada e comportou-se com a extraordinária coragem do costume. Coragem, dignidade e pudor. A certa altura 
- Para onde queres ir quando morreres? 
respondi 
- Para os Jerónimos, naturalmente. 
Ficou uns minutos calado e depois 
- Tu acreditas na eternidade. 
Disse-lhe 
- Tu também. 
Novo silêncio. 
- Eu quero ser cremado e que ponham as cinzas na serra, voltado para a Praia das Maçãs. 
Novo silêncio. A seguir 
- Vou morrer primeiro que tu. Vou morrer agora. 
Mais silêncio. Eu 
- Ganhei-te outra vez.
ele 
- É. 
Ele 
Ganhamos sempre os dois. 
Eu 
- Porque é que agente gosta tanto um do outro? 
Ele silêncio antes de 
- Se me voltas a falar de amor vou-me embora. 
eu 
- Sabes onde é a porta. 
Mas não voltámos a falar de amor. Para quê? Estava ali todo. Depois quis ver os livros 
- Para aí vinte mil, não? 
eu 
- Mais ou menos, incluindo os muitos que encontrei numa livraria de segunda mão, assinados por ti. 
Silêncio. Eu 
- Não podia suportar a ideia de que outras pessoas tivessem em casa os livros do meu irmão. 
Gesto vago. Depois ele 
- António 
e silêncio. Ou seja um diálogo de amor compridíssimo. 
Depois 
- Se os pais cá estivessem 
e esta frase fez-me compreender melhor a sua imensa dor. A mãe para quem a inteligência, num homem, era a forma suprema de sensualidade. E um rabo grande a coisa mais feia deste mundo. Um homem inteligente, na sua opinião, era atraentíssimo. 
- Um homem bonito e estúpido ao fim de um quarto de hora não existe 
e ainda bem porque, assim, talvez tenhamos algumas chances com ela. A mãe, ainda 
- Desafio qualquer mulher no mundo a ter filhos tão inteligentes como os meus. 
E ele continuou a falar: 
- Depois eu fui para Nova Iorque e tu para África. 
Numa altura, depois de África, em que ele estava a sofrer muito meti-me num avião e fui para casa dele. Durante o dia ele trabalhava no hospital e eu ficava às voltas com o Fado Alexandrino. Depois jantávamos juntos e comíamos uns gelados enormes que ele trazia a vermos os play-offs do basquete. Um de nós 
- E jogam com humor 
o que é tão raro no desporto. Aos sábados um bocado numa discoteca. Camisas cheias de baton. A certa altura olhou, do sofá, para a estante mais próxima: Um livro de Marcel Pagnol. Ele 
- A nossa infância toda. 
E eu com vontade de tocar-lhe. Claro que não toquei. As suas mãos, que conhecia tão bem, poisadas nos joelhos. Embora impassíveis estávamos demasiado emocionados. 
Ele 
- De qualquer modo não nos perdemos um ao outro eu, depois de um silêncio compridíssimo 
- Nunca nos perdemos, não é agora que isso vai acontecer. 
Ele 
- Vou chamar um taxi. 
Silêncio. Ele 
- Acompanhas-me lá abaixo? 
Entre a casa e a rua uma distância grande. Era o fim do dia, já não estava muito sol. O taxi à espera no passeio. O chofer, a quem ele operara a mãe, veio abrir-lhe a porta do carro. Ele voltou-se para mim e disse o meu nome. Eu aproximei-me de e disse o seu. Abraçámo-nos com muita força e, de repente, começou a chorar. Só sentia ossos nas minhas mãos. Mas nada de mariquices, claro, sobretudo nada de mariquices. Ele 
- Não digas a ninguém que chorei. 
E sentou-se no banco ao lado do chofer, sem olhar para mim. Não olhámos um para o outro, aliás, mas nunca nos vimos tão bem. O carro foi-se embora. Fiquei na borda do passeio até que desapareceu. E então, de mãos nos bolsos, voltei para casa. Nunca houve um abraço assim no mundo.


António Lobo Antunes
in Visão, 8 de dezembro de 2016.


Variações sobre um tema original, "Medicina" na Literatura X, Op.28

ARS MEDICA ET CHIRVRGICA | Arte Médica e a História da Medicina

Representações da Condição Humana. Representações da Saúde e da Doença. Da Felicidade, Melancolia e do Desespero. Da Vida e da Morte. Na Arte, na Literatura, na Pintura, na Escultura, na Música. Fragmentos esparsos da Medicina na sua História.