Os Primeiros Tempos da Medicina em Portugal
Desde a fundação da nacionalidade (e quase até ao século XVI), o ensino e a prática da Medicina estiveram sob responsabilidade directa e exclusiva das ordens religiosas. Por ser entendida como prática solidária e caridosa, a Medicina praticada desde o século X, no que seria o Condado Portucalense, baseava-se em conhecimentos que os cónegos e monges iam buscar a terras distantes e transmitiam uns aos outros, sem que para isso fosse considerada necessária a criação de escolas específicas. Neste enquadramento explica-se que todos os médicos reconhecidos fossem eclesiásticos, alguns dos quais vieram a ocupar elevadas posições na hierarquia da Igreja. Os mosteiros e conventos constituíam o lugar propício para a sua aprendizagem e também para o cumprimento prático do que se entendia ser parte de um desígnio religioso.
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| Várias Ordens religioso-militares foram fundadas na época das cruzadas |
O período de formação da monarquia portuguesa coincide com as Cruzadas, durante a qual passaram pelo território vagas sucessivas de peregrinos e de exércitos. Em consequência destes movimentos demográficos houve que criar albergarias e hospitais, embora ambos tivessem por prioridade principal mais a de acolher os viajantes e os pobres do que tratar os doentes. A maioria dessas instalações situava-se em anexos dos mosteiros, e também junto aos castelos das principais povoações. Diversas congregações religiosas, a generalidade das quais entrou no país com as Cruzadas, ocupavam-se do serviço desses hospitais e albergarias, pondo em prática o preceito cristão de ajudar, alimentar e abrigar todos os viajantes e necessitados que lhes batiam à porta.
Em finais do século XII, no reinado de D. Sancho I, o prior do Mosteiro de Santa Cruz, com o apoio do rei e do bispo de Coimbra, enviou para a Universidade de Paris um dos cónegos (que era também seu sobrinho), para aí aprender Teologia e alguma Medicina. Ao regressar, aquele cónego (D. Mendo Dias) iniciou o ensino médico na forma como então (e durante os séculos seguintes) foi usual fazê-lo, isto é, lendo aos noviços textos clássicos da medicina grego-romana e árabe.
| Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra | Fundado em 1131 pela Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, datando a primitiva igreja românica do séc. XII. |
Perto do mosteiro foi fundado um hospital, onde os religiosos autorizados prestavam os cuidados de saúde possíveis a quem a eles recorresse. Por conseguinte, D. Mendo Dias foi o primeiro lente de Medicina do País, sendo o mosteiro, com o seu hospital “escolar”, o berço do ensino e da aplicação prática dos conhecimentos médicos aí aprendidos. Com o apoio financeiro determinado por D. Sancho I, diversos cónegos da irmandade de Santa Cruz, sediados naquele mosteiro, foram sucessivamente enviados para estudarem Medicina nas universidades francesas de Paris e de Montpellier. Por escassez de documentação não há provas concludentes sobre a Medicina da época. Todavia, considerando a proximidade territorial com as zonas de influência islâmica na Península Ibérica, é admissível que também em Portugal prevalecessem os ensinamentos clássicos que haviam sido coligidos e modificados pelos médicos árabes. Na realidade, devido a dogmas religiosos ou por razões emocionais, alguns dos conhecimentos e práticas mais inovadoras da Medicina grego-romana, designadamente as observações anatómicas e as indicações técnicas e cirúrgicas referidas por Galeno, foram ignoradas ou descuradas pela Medicina árabe. Em seu lugar prevaleceu a importância dada à observação das urinas (uroscopia) na identificação das doenças, as implicações astrológicas, a adivinhação e a caracterização do sobrenatural, a par com a introdução de uma imensidade de substâncias farmacêuticas inteiramente novas e com aplicação prática. É de prever que os eclesiásticos medievais, que haviam aprendido em textos coligidos pelos tratadistas árabes, tenham seguido, pelo menos durante os séculos XII e XIII, os conceitos e as orientações práticas descritas. Pelo que se conhece das obras atribuídas a Pedro Julião ou Pedro Hispano (que veio a ser o Papa João XXI), os conhecimentos em vigor mais não eram do que compilações de textos antigos utilizados, na época, também na Universidade de Paris.
A sangria (com finalidade higiénica e terapêutica) era o acto mais ousado do exercício médico. Entretanto, a cirurgia praticamente deixara de existir, por ser proibido o derramamento de sangue em intervenções cruentas, em que se incluiam as de sangrar, cortar ou purgar algum membro ou parte do corpo do doente por instrumento cortante. A terapêutica restante incluía a utilização de orações, invocações com relíquias de mártires cristãos, benzeduras com água benta, comunhão, santos óleos e algumas plantas com indicações medicinais, cultivadas nas hortas botânicas que era habitual existirem junto de todos os conventos. As espécies botânicas eram mais utilizadas por tradição do que por fundamentação científica, acreditando-se que, para serem eficazes, deviam ser acompanhadas por orações. Entretanto desaparecera virtualmente de uso a riquíssima farmacopeia desenvolvida pelos árabes.
Apesar das limitações referidas o exercício da Medicina era, naquele período, uma profissão (ou ocupação) socialmente bem considerada, o que não surpreende por ser exercida pelos eclesiásticos, então a classe mais privilegiada da sociedade e única depositária da ciência, conservada e reproduzida nos mosteiros e utilizada pelos seus membros.
João Martins e Silva «Anotações sobre a história do ensino da Medicina em Lisboa, desde a criação da Universidade Portuguesa até 1911 – 1ª Parte». RFML 2002; Série III; 7 (5): 237-249. (Ex-Director da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa)
Variações sobre um tema original "Medicina" em Portugal I, Op.1

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