quinta-feira, 30 de junho de 2016

Medicina e Pintura: Tuberculose

Variações sobre um tema original, "Medicina" na Pintura I, Op.20

     O percurso da Tuberculose pela pintura inicia-se com Sandro Botticelli no Renascimento. Simonetta Vespucci, uma das maiores lendas na Arte, terá sido acometida pela enfermidade que lhe amputou a vida aos 23 anos de idade. Entre os os vários quadros, destaca-se "Primavera" ou ainda os quadros "Vénus e Marte" (c.1483) e "O Nascimento de Vénus" (c.1485), nos quais a deusa do amor é personificada por Simonetta.

     Em "A Primavera", enquanto a maioria dos críticos concordam que a pintura, retrata um grupo de figuras mitológicas num jardim (alegoria para o crescimento exuberante da Primavera), outros sentidos também foram dados ao quadro. Entre eles, o trabalho é por vezes citado para ilustrar o ideal de amor neoplatónico, popularizado entre os Medicis e seus seguidores por Marsilio Ficino. Nesta interpretação, tal como estabelecido em Sandro Botticelli, o amor carnal natural representada por a figura de Zefiros à direita, é objecto de renúncia pela figura central das três Graças (deusas do banquete), que virou as costas para a cena despreocupada com a ameaça (cupido) que paira sobre ela. A preocupação dela está em Mercúrio, que mesmo ele olha despreocupado para além da tela, ignorando-a.. A história da pintura não é muito conhecida, porém, parece ter sido encomendada por um membro da família Medici. É provável que Botticelli se tenha inspirado nas odes de Poliziano para realizar esta obra. As outras fontes são da Antiguidade: Os Faustos de Ovídio e De rerum natura de Lucrécio.

Pormenor de "La Primavera" ou "A Primavera"
de Sandro Botticelli, 1482. 
Galleria degli Uffizi, Florença

     No detalhe de A Primavera, de Sandro Boticelli, Simonetta Vespucci coberta por flores. A seu lado, uma ninfa em vestes diáfanas verte flores negras pela boca, em uma hemoptise floral, uma referência clássica retirada da tradição renascentista. Na alegoria, a valorização da jovem tuberculosa sublinha o efémero de sua existência, sinalizado pela passagem das estações.


"La Primavera" ou "A Primavera"
de Sandro Botticelli, 1482. 
Galleria degli Uffizi, Florença


    Repare-se, de seguida, na mais célebre obra do pintor "O Nascimento de Vénus". No quadro, a deusa clássica Vénus emerge das águas em uma concha, sendo empurrada para a margem por Zéfiro, o Vento Oeste, símbolos das paixões espirituais, e recebendo, de uma Hora (as Horas eram as deusas das estações), uma manto bordado de flores. Alguns especialistas argumentam que a deusa nua não representaria a paixão terrena, carnal, e sim a paixão espiritual. Apresenta-se de forma similar a antigas estátuas de mármore (cujo candor teria inspirado o escultor do século XVIII Antonio Canova), esguia e com longos membros e traços harmoniosos.

     O efeito causado pelo quadro, no entanto, foi um de paganismo, já que foi pintado em época em que a maioria da produção artística se relacionava a temas católicos. Por isso, chega a ser surpreendente que o quadro tenha escapado das fogueiras de Savonarola, que consumiram outras tantas obras de Botticelli que teriam "influências pagãs".

     A Anatomia da Vénus, assim como vários outros detalhes menores, não revela o estrito realismo clássico de Leonardo da Vinci ou Rafael. O pescoço é irrealisticamente longo e o ombro esquerdo posiciona-se em ângulo anatomicamente improvável. Não se sabe se tais detalhes constituiram erros artísticos ou licença artística, mas não chegam a atrapalhar a beleza da obra, e alguns chegam a sugerir que seriam presságios do vindouro Maneirismo.


"Nascita di Venere" ou "O Nascimento de Vénus"
de Sandro Botticelli, c. 1485. 
Galleria degli Uffizi, Florença


Pormenor de Simonetta Vespucci. "Nascita di Venere"
ou "O Nascimento de Vénus" de Sandro Botticelli, c. 1485.
Galleria degli Uffizi, Florença

     Sandro Botticelli trouxe à pintura a beleza de Simonetta acentuada pela evolução da doença, que a faz luzir frágil, febril e pálida, como figura etérea.  O artista contribuiu para estabelecer, no plano dos cânones do belo físico, alguns parâmetros relativos à descrição dos tipos femininos. A beleza pálida, frágil, fugaz de Simonetta transformou-se em uma das matrizes arquetípicas da iconografia ocidental.

     SIMONETTA VESPUCCI | Nascida na República de Génova, Simonetta Cattaneo de Candia (c.1453-1476) casou-se aos dezasseis anos com Marco Vespucci (filho de um banqueiro florentino e primo do navegador Amerigo Vespucci). Em Florença, graças à sua fascinante beleza, passou a ser denominada "La bella Simonetta" e tornou-se amante de Giuliano de Medici, irmão de Lorenzo, o Magnífico. O maior gesto de amor de Giuliano por Simonetta foi disputar e vencer um torneio de cavalaria na praça Santa Croce, em Florença, no qual participaram nobres vindos de diversas partes da Itália. O prémio em jogo era um retrato de Simonetta, pintado por Sandro Botticelli, que trazia a legenda "La Sans Pareille" ("A Incomparável"). Pouco tempo após aquele torneio, morria, aos 23 anos de idade de tuberculose aquela que fora uma das mulheres mais belas e admiradas do Renascimento. Giuliano será assassinado dois anos mais tarde, no mesmo dia e mês (26 de Abril), por conspiradores de duas famílias rivais dos Medici. Antes de falecer, Botticelli pediu para ser sepultado aos pés de Simonetta, na igreja de Ognissanti, em Florença, e o seu desejo foi cumprido.

Da pintura à nunismática como símbolo maior da Arte Italiana
na moeda de 10 Cêntimos de Euro
     Botticelli passou o resto da vida obcecado com a beleza de Simonetta, retratando-a em muitas das suas obras. A sua expressão na pintura é o reflexo do amor profundo e secreto que o artista nutria por Simonetta, realçando as debilidades corporais inerentes à enfermidade em virtudes dignas de louvor, colocando-a como divindade mitológica. Séculos mais tarde, no Romantismo, as mulheres tentariam imitar o mesmo padrão de beleza corporal ingerindo dietas à base de água e vinagre para gerar anemia hemolítica. 


Representações na Pintura de Simonetta Vespucci.



    Por último, da pintura à poesia, Sophia de Mello Breyner Andresen, inspirada no mesmo sujeito poético, escreveu "Assassinato de Simonetta Vespucci". 

Assassinato de Simonetta Vespucci

"Homens
No perfil agudo dos quartos
Nos ângulos mortais da sombra com a luz.

Vê como as espadas nascem evidentes
Sem que ninguém as erguesse — de repente.

Vê como os gestos se esculpem
Em geometrias exactas de destino.

Vê como os homens se tornam animais
E como os animais se tornam anjos
E um só irrompe e faz um lírio de si mesmo.

Vê como pairam longamente os olhos
Cheios de liquidez, cheios de mágoa
Duma mulher nos seus cabelos estrangulada.

E todo o quarto jaz abandonado
Cheio de horror e cheio de desordem.
E as portas ficam abertas,
Abertas para os caminhos
Por onde os homens fogem,
No silêncio agudo dos espaços,
Nos ângulos mortais da sombra com a luz.

Sophia de Mello Breyner Andresen
in "Coral", Porto: Livraria Simões Lopes, 1950; "Obra Poética I"


Sophia de Mello Breyner Andresen declama 
"Assassinato de Simonetta Vespucci" 



Variações sobre um tema original "Medicina" na Pintura I, Op.20

ARS MEDICA ET CHIRVRGICA | Arte Médica e a História da Medicina

Representações da Condição Humana. Representações da Saúde e da Doença. Da Felicidade, Melancolia e do Desespero. Da Vida e da Morte. Na Arte, na Literatura, na Pintura, na Escultura, na Música. Fragmentos esparsos da Medicina na sua História.

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