O percurso da Tuberculose pela pintura inicia-se com Sandro Botticelli no Renascimento. Simonetta Vespucci, uma das maiores lendas na Arte, terá sido acometida pela enfermidade que lhe amputou a vida aos 23 anos de idade. Entre os os vários quadros, destaca-se "Primavera" ou ainda os quadros "Vénus e Marte" (c.1483) e "O Nascimento de Vénus" (c.1485), nos quais a deusa do amor é personificada por Simonetta.
Em "A Primavera", enquanto a maioria dos críticos concordam que a pintura, retrata um grupo de figuras mitológicas num jardim (alegoria para o crescimento exuberante da Primavera), outros sentidos também foram dados ao quadro. Entre eles, o trabalho é por vezes citado para ilustrar o ideal de amor neoplatónico, popularizado entre os Medicis e seus seguidores por Marsilio Ficino. Nesta interpretação, tal como estabelecido em Sandro Botticelli, o amor carnal natural representada por a figura de Zefiros à direita, é objecto de renúncia pela figura central das três Graças (deusas do banquete), que virou as costas para a cena despreocupada com a ameaça (cupido) que paira sobre ela. A preocupação dela está em Mercúrio, que mesmo ele olha despreocupado para além da tela, ignorando-a.. A história da pintura não é muito conhecida, porém, parece ter sido encomendada por um membro da família Medici. É provável que Botticelli se tenha inspirado nas odes de Poliziano para realizar esta obra. As outras fontes são da Antiguidade: Os Faustos de Ovídio e De rerum natura de Lucrécio.
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| Pormenor de "La Primavera" ou "A Primavera" de Sandro Botticelli, 1482. Galleria degli Uffizi, Florença |
No detalhe de A Primavera, de Sandro Boticelli, Simonetta Vespucci coberta por flores. A seu lado, uma ninfa em vestes diáfanas verte flores negras pela boca, em uma hemoptise floral, uma referência clássica retirada da tradição renascentista. Na alegoria, a valorização da jovem tuberculosa sublinha o efémero de sua existência, sinalizado pela passagem das estações.
Repare-se, de seguida, na mais célebre obra do pintor "O Nascimento de Vénus". No quadro, a deusa clássica Vénus emerge das águas em uma concha, sendo empurrada para a margem por Zéfiro, o Vento Oeste, símbolos das paixões espirituais, e recebendo, de uma Hora (as Horas eram as deusas das estações), uma manto bordado de flores. Alguns especialistas argumentam que a deusa nua não representaria a paixão terrena, carnal, e sim a paixão espiritual. Apresenta-se de forma similar a antigas estátuas de mármore (cujo candor teria inspirado o escultor do século XVIII Antonio Canova), esguia e com longos membros e traços harmoniosos.
O efeito causado pelo quadro, no entanto, foi um de paganismo, já que foi pintado em época em que a maioria da produção artística se relacionava a temas católicos. Por isso, chega a ser surpreendente que o quadro tenha escapado das fogueiras de Savonarola, que consumiram outras tantas obras de Botticelli que teriam "influências pagãs".
A Anatomia da Vénus, assim como vários outros detalhes menores, não revela o estrito realismo clássico de Leonardo da Vinci ou Rafael. O pescoço é irrealisticamente longo e o ombro esquerdo posiciona-se em ângulo anatomicamente improvável. Não se sabe se tais detalhes constituiram erros artísticos ou licença artística, mas não chegam a atrapalhar a beleza da obra, e alguns chegam a sugerir que seriam presságios do vindouro Maneirismo.
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| "Nascita di Venere" ou "O Nascimento de Vénus" de Sandro Botticelli, c. 1485. Galleria degli Uffizi, Florença |
Sandro Botticelli trouxe à pintura a beleza de Simonetta acentuada pela evolução da doença, que a faz luzir frágil, febril e pálida, como figura etérea. O artista contribuiu para estabelecer, no plano dos cânones do belo físico, alguns parâmetros relativos à descrição dos tipos femininos. A beleza pálida, frágil, fugaz de Simonetta transformou-se em uma das matrizes arquetípicas da iconografia ocidental.
SIMONETTA VESPUCCI | Nascida na República de Génova, Simonetta Cattaneo de Candia (c.1453-1476) casou-se aos dezasseis anos com Marco Vespucci (filho de um banqueiro florentino e primo do navegador Amerigo Vespucci). Em Florença, graças à sua fascinante beleza, passou a ser denominada "La bella Simonetta" e tornou-se amante de Giuliano de Medici, irmão de Lorenzo, o Magnífico. O maior gesto de amor de Giuliano por Simonetta foi disputar e vencer um torneio de cavalaria na praça Santa Croce, em Florença, no qual participaram nobres vindos de diversas partes da Itália. O prémio em jogo era um retrato de Simonetta, pintado por Sandro Botticelli, que trazia a legenda "La Sans Pareille" ("A Incomparável"). Pouco tempo após aquele torneio, morria, aos 23 anos de idade de tuberculose aquela que fora uma das mulheres mais belas e admiradas do Renascimento. Giuliano será assassinado dois anos mais tarde, no mesmo dia e mês (26 de Abril), por conspiradores de duas famílias rivais dos Medici. Antes de falecer, Botticelli pediu para ser sepultado aos pés de Simonetta, na igreja de Ognissanti, em Florença, e o seu desejo foi cumprido.
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Botticelli passou o resto da vida obcecado com a beleza de Simonetta, retratando-a em muitas das suas obras. A sua expressão na pintura é o reflexo do amor profundo e secreto que o artista nutria por Simonetta, realçando as debilidades corporais inerentes à enfermidade em virtudes dignas de louvor, colocando-a como divindade mitológica. Séculos mais tarde, no Romantismo, as mulheres tentariam imitar o mesmo padrão de beleza corporal ingerindo dietas à base de água e vinagre para gerar anemia hemolítica.
Representações na Pintura de Simonetta Vespucci.
Por último, da pintura à poesia, Sophia de Mello Breyner Andresen, inspirada no mesmo sujeito poético, escreveu "Assassinato de Simonetta Vespucci".
"Homens
No perfil agudo dos quartos
Nos ângulos mortais da sombra com a luz.
Vê como as espadas nascem evidentes
Sem que ninguém as erguesse — de repente.
Vê como os gestos se esculpem
Em geometrias exactas de destino.
Vê como os homens se tornam animais
E como os animais se tornam anjos
E um só irrompe e faz um lírio de si mesmo.
Vê como pairam longamente os olhos
Cheios de liquidez, cheios de mágoa
Duma mulher nos seus cabelos estrangulada.
E todo o quarto jaz abandonado
Cheio de horror e cheio de desordem.
E as portas ficam abertas,
Abertas para os caminhos
Por onde os homens fogem,
No silêncio agudo dos espaços,
Nos ângulos mortais da sombra com a luz.
Sophia de Mello Breyner Andresen
in "Coral", Porto: Livraria Simões Lopes, 1950; "Obra Poética I"
Variações sobre um tema original "Medicina" na Pintura I, Op.20
ARS MEDICA ET CHIRVRGICA | Arte Médica e a História da Medicina
Representações da Condição Humana. Representações da Saúde e da Doença. Da Felicidade, Melancolia e do Desespero. Da Vida e da Morte. Na Arte, na Literatura, na Pintura, na Escultura, na Música. Fragmentos esparsos da Medicina na sua História.






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