quinta-feira, 28 de julho de 2016

Medicina e Cinema: A Canção de Lisboa, 1933-2016

Variações sobre um tema original, "Medicina" no Cinema I, Op.22

 

Filme "A CANÇÃO DE LISBOA" de Cottinelli Telmo
com Beatriz Costa, Vasco Santana, António Silva, Manoel de Oliveira. Tóbis Portuguesa. Portugal, 1933 - 93 min.

     A CANÇÃO DE LISBOA é a primeira, a mais famosa e sem dúvida a melhor das chamadas “comédias à portuguesa” e provavelmente o mais popular filme português de sempre. Foi também a primeira vez em que uma Faculdade, a de Medicina de Lisboa, adquire destaque na sétima arte e passa para o grande écran.


    Vasco vive da mesada das tias que vivem no Porto, que acreditam que o sobrinho é um aluno exemplar e que em breve se tornará um médico de renome. Mas ele, que raramente aparece nas aulas, prefere as festas e saídas à noite aos livros e calhamaços da faculdade. Divide ainda o seu tempo com Alice, a filha de José Caetano, candidato a Primeiro-ministro. A rapariga é a tentação de Vasco, mas o pai dela faz de tudo para arranjar melhor partido para a filha. Tudo parece correr bem até ao dia em que Vasco volta a chumbar o exame de final de curso ao mesmo tempo que recebe a notícia da visita das tias a Lisboa. Sem saber muito bem o que fazer para sustentar a mentira, o rapaz vai ter de usar de grande talento para as convencer de que o dinheiro que durante todos este tempo elas gastaram com ele foi bem empregue e que ele agora é um médico formado com uma carreira promissora pela frente…

     Este filme iniciou uma Era de Ouro no cinema português. Para além de ser a primeira longa-metragem sonora feita em Portugal, também serviu de modelo para as comédias nacionais que se seguiram. A Evocação de ambientes lisboetas “típicos”, de modo semelhante ao que René Clair fazia com Paris, com vários actores lendários do cinema português e uma brilhante faceta musical para a qual contribuiu a partitura original composta por Jaime Silva Filho e René Bohet. Cottinelli Telmo, que era arquitecto, mistura com muita inteligência cenários naturais e cenários de estúdio, que reproduzem certos bairros de Lisboa. De notar a presença de Manoel de Oliveira num papel secundário.


     A passagem pela Faculdade de Medicina de Lisboa, na altura no Campo de Sant'Ana, num dos seus dois anfiteatros é lendária. A imagem do estudante universitário diletante e do estudante de medicina "marrão" passou a ser uma das primeiras que até aos dias de hoje prevalece no subconsciente de todos aqueles partilham o ambiente académico. Expressões como "Chapéus há muitos, seu palerma!" repetida até à exaustão por Vasco no Jardim Zoológico de Lisboa, ou a imagem do alto de uma janela bairrista em que Vasco tenta contrariar os factos Alice (Beatriz Costa)  a pedir que lhe cortem a cabeça se ousasse mentir e a janela cai como uma guilhotina ou o tema em que Alice desafina a canção "Ai chega chega a minha agulha...", uma inesquecível passagem de Beatriz Costa, são alguns dos momentos que para sempre ficaram no imaginário dos portugueses. O músculo esternocleidomastoideu extravasou todo o seu âmbito anatómico e adquiriu o tom jocoso na gíria popular. E o "Fado do Estudante" passou a ser um êxito  e um símbolo do saudosismo estudantil que todos o sabem de "cor", com o coração. E não apenas nos que estudam em Medicina ou em Lisboa, mas em todo o país.

"Fado do Estudante". Um dos momentos mais conhecidos e reproduzidos de todo o filme.
Vasco (Vasco Santana), 1933.
Cena do Casamento entre Alice (Beatriz Costa) e Vasco (Vasco Santana)
     E se atrás leu Faculdade de Medicina de Lisboa, sim, leu bem. O edifício histórico e muito característico que hoje alberga a segunda escola médica em Lisboa (a Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa) foi no passado a Faculdade de Medicina de Lisboa, seja como sua sede durante mais de 40 anos, seja como património adstrito secundarizado mais tarde cedido em 1976 à Universidade Nova de Lisboa, que então se fundava.

     Com a construção do Hospital Escolar de Santa Maria no início dos anos 50, a Faculdade de Medicina e os departamentos espalhados pelos restantes Hospitais Civis e Escolar de Santa Marta foram transferidos para as novas instalações que ainda hoje ocupam. O edifício histórico-sede da Faculdade de Medicina de Lisboa no Campo de Sant'Ana, fundado como Escola Médico-Chirvrgica a que originou a própria Faculdade de Medicina, construído e inaugurado pelo Rei D. Carlos no final do século XIX, passou entrou em declínio após as novas instalações da Faculdade. Em meados dos anos 70, após a o fim da ditadura salazarista, foi recuperado e aberto como a sede da segunda escola médica em Lisboa organicamente distinta da que lhe precedera, assim permanecendo até aos dias de hoje.

A Canção de Lisboa, de Pedro Varela, 2016
     Em exibição em todas as salas de cinema em Portugal está um novo filme com o mesmo nome que faz parte da trilogia "Novos Clássicos" da cinematografia portuguesa (remake). Neste sentido, a este se menciona "O Pátio das Cantigas" (2015, o maior êxito de bilheteira do cinema português) e "O Leão da Estrela" (2015) . Com uma crítica, de uma forma geral, pouco favorável a arrasadora a cada um dos remakes, é também reconhecido que, neste último, "A Canção de Lisboa" foi o que dos três conseguiu uma crítica mais favorável tal qual reconhece-se ter sido também o que manteve o argumento mais próximo ao original. O terceiro filme da trilogia “Novos Clássicos” é uma adaptação da comédia homónima de Cottinelli Telmo que conta, no mesmo edifício de há 70 anos.
     O trailer pode ser visualizado aqui: https://www.youtube.com/watch?v=o_DyJBoECvA

    Conta com o argumento e realização de Pedro Varela, produção de Leonel Vieira, músicas originais de Miguel Araújo e banda sonora original de Nuno Maló. César Mourão, Miguel Guilherme, Luana Martau, Marcus Majella, Maria Vieira, São José Lapa, Carla Vasconcelos, Dinarte Freitas e Ruy de Carvalho dão vida às personagens.


Nas próximas semanas:
- História da Medicina em Portugal: Escola Médico-Chirvrgica de Lisboa
- Medicina na Pintura de Amadeo de Souza-Cardoso
- Medicina, Poesia e o Estetoscópio


Variações sobre um tema original, "Medicina" no Cinema I, Op.22

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