quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Medicina e Literatura: A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Parte I

"A Montanha Mágica" ("Der Zauberberg") de Thomas Mann, 1924 | Parte I
Variações sobre um tema original, "Medicina" na Literatura XI, Op.29


Berghotel Sanatorium Schatzapl, Davos. Thomas Mann iniciou a estrita no mesmo ano em que
a sua cônjuge Katharina Mann foi internada neste sanatório, em 1912.

     "A montanha mágica" (Der Zauberberg) é um livro da autoria de Thomas Mann, Nobel da Literatura em 1929, e reflecte a transição do pensamento à época e recria o fim dos valores burgueses do século XIX. Também aborda as inquietudes sociais e espirituais da sua época num espaço narrativo concreto: um sanatório de tuberculosos, onde se reúnem ricos burgueses de toda a Europa. Os temas da doença e da passagem do tempo percorrem todo o romance. É um registo na literatura da forma como a tuberculose era vivenciada sob todas as dimensões da vida humana.


1. A Chegada

     Hans Castorp é um jovem de Hamburgo que visita o seu primo Joachim, internado num sanatório para tuberculosos nos Alpes suíços. Hans não dá especial importância à viagem, e tem certa urgência em regressar a Hamburgo para, após os seus estudos de engenharia, iniciar o seu trabalho. Depressa descobrirá que a passagem do tempo tem no sanatório um ritmo particular:
"Hans Castorp continuou: 
- Vais regressar comigo, não vais? Não vejo nada que o possa impedir. 
- Regressar contigo? - perguntou o primo, fitando-o com os olhos grandes que sempre haviam sido suaves, mas durante esses cinco meses tinham assumido uma expressão um tanto cansada, quase melancólica. - Contigo? Quando? 
- Ora, daqui a três semanas. 
- Compreendo, tu já pensas em regressar - respondeu Joachim. - Espera um pouco; mal acabas de chegar. Três semanas quase nada representam para nós aqui em cima, mas para ti, que vens de visita e tencionas demorar-te só três semanas, é uma porção de tempo. Trata de aclimatar-te primeiro. Não tardarás a notar que não é assim tão fácil. E o clima não é a única coisa estranha que existe aqui. Encontrarás muitas coisas novas, sabes? Comigo, isto não vai tão depressa como tu imaginas. "Regressar daqui a três semanas" é uma ideia lá de baixo. Tenho a pele tostada, sim senhor, mas isso deve-se principalmente ao sol reflectido pela neve e não significa grande coisa, como Behrens afirma sempre. No último exame geral, disse que tinha quase a certeza de que eu teria de ficar ainda uns seis meses. 
- Seis meses? Estás louco? - gritou Hans Castorp. [...] 
- Seis meses? Mas já faz quase seis meses que aqui estás! Não se tem tanto tempo assim... 
- Pois é, o tempo... - disse Joachim, [...] - Aqui não fazem muita cerimónia com o tempo das pessoas. Tu não fazes ideia. Três meses são para eles como um dia, vais ver. Tudo isso se aprende, [...] aqui muda-se de opiniões.

2. O Sanatório

     Castorp adapta-se aos rotineiros costumes do sanatório e conhece, através do seu primo, algumas pessoas que o habitam, tanto pacientes como médicos. Também presencia certas práticas terapêuticas, realizadas mecanicamente pelos pacientes, e sente necessidade de permanecer distante do estranho e novo mundo do sanatório:
     "Apesar disso, continuou a fumá-lo, enquanto observava como Joachim se preparava para cumprir o repouso, vestia o fumoir e, envergava por cima um velho sobretudo, indo depois para a varanda com o candeeiro da mesa de cabeceira e o manual de russo na mão. Lá fora, o primo acendeu o candeeiro e, com o termómetro na boca, deitou-se na cadeira de repouso onde, com surpreendente habilidade, começou a envolver-se em dois grandes cobertores de pêlo de camelo, que estavam estendidos na cadeira. Hans Castorp contemplou com sincera admiração aqueles movimentos destros. Joachim lançou os cobertores, um após outro, por cima de si, primeiro pela esquerda, cobrindo-se até a axila, depois debaixo, por cima dos pés, e, por fim, pela direita, até formar uma espécie de pacote perfeitamente simétrico e liso, do qual saíam apenas a cabeça, os ombros e os braços. 
- É formidável como fazes isso! - disse Hans Castorp. 
- É uma questão de prática - respondeu Joachim, falando com o termómetro preso entre os dentes. - Também hás-de aprender. Amanhã, sem falta, teremos de comprar alguns cobertores para ti. Serão úteis também lá em baixo e aqui são indispensáveis, sobretudo para ti, que não tens saco de peles. 
- Mas não tenho a menor intenção de me deitar na varanda de noite - declarou Hans Castorp. - Isso não, posso garantir. Acho que me sentiria demasiado ridículo. Tudo tem limites, afinal. Além disso, parece-me preciso acentuar, de qualquer maneira, que estou aqui entre vocês apenas de visita. Vou ficar ainda mais alguns instantes junto de ti e fumar um charuto, como de costume.

Primeiro Sanatório criado em altitude em Davos.

3. A doença

     Quando restam poucos dias para partir, Hans sente-se constipado e mede a temperatura. Tem febre, e os médicos do sanatório que o examinam, declaram que tem uma lesão pulmonar própria da tuberculoso, e prescrevem que prolongue a sua estada para se poder curar. A doença é motivo de reflexão para as personagens, que têm diferentes pontos de vista sobre a mesma, e condiciona de certo modo a pequena sociedade do sanatório:

     "Numa palavra, a sala de refeições estava quase repleta, se bem que a temporada de Inverno não começasse antes de Outubro. E a gravidade do caso de Hans Castorp, o seu grau de enfermidade, mal lhe davam o direito de exigir uma atenção especial. A Sr.ª Stohr, por exemplo, por mais estúpida e inculta que fosse, estava indubitavelmente muito mais enferma do que ele, sem falar do Dr. Blumenkohl. Seria faltar a todo o senso de hierarquia e de distância não observar, no caso de Hans Castorp, uma reserva modesta, tendo-se ainda em conta que tal mentalidade estava de acordo com os usos da casa. Os levemente doentes não contavam, como Hans Castorp deduzia de muitas conversas que ouvira. Falava-se deles com desdém, segundo a escala de valores ali usada; eram olhados de revés, não só por parte dos doentes graves, mas também por aqueles que eram igualmente "leves". Agindo assim, esses menosprezavam-se na verdade a si próprios, mas ao mesmo tempo salvaguardavam a sua dignidade, por se submeterem à referida escala de valores. Era humano. "Ora este sujeito!", pareciam dizer uns aos outros. "No fundo, não sofre de nada. Mal tem o direito de estar aqui. Nem sequer tem cavernas..." Tal era o espírito que reinava no sanatório; era aristocrático à sua maneira e Hans Castorp inclinava-se diante dele, por um inato respeito à lei e à ordem, fosse qual fosse a sua natureza. Cada terra com seu uso, reza o provérbio. Manifestam pouca cultura os viajantes que zombam dos costumes e dos conceitos dos povos que os acolhem; e há muitas maneiras de apreciar as coisas. Mesmo em relação a Joachim, Hans Castorp observava um certo respeito e um quê de cerimónia, não só por ser o primo o paciente mais antigo, o seu guia e cicerone nesse mundo, mas, antes de tudo, porque o primo era, sem a menor dúvida, um caso mais grave do que ele. Sendo assim, era compreensível uma tendência, comum a todos, para tirarem o maior efeito possível das particularidades do seu caso e para exagerarem a sua gravidade, na intenção de pertencerem à aristocracia ou de se avizinharem dela. O próprio Hans Castorp, quando interrogado à mesa, acrescentou alguns décimos aos que verificara, e não deixava de sentir-se lisonjeado quando o advertiram com o dedo como se faz a um rapaz que é mais traquina do que parece. Mas, não obstante essa pequena gabarolice, ainda continuava sendo um personagem de uma categoria inferior, de maneira que a paciência e a reserva constituíam a atitude que se lhe impunha."


4. Discussões Filosóficas

     No romance dá-se frequentemente a exposição e o confronto das ideias das personagens sobre diversos temas, com frequência profundos. Mas o paradigma de discussão filosófica é mantido por Hans com duas personagens: Settembrini e Naphta, que dialogam entre eles e com o protagonista, e que têm personalidades e ideias muito diferentes, quase sempre opostas. Ao longo de muitas páginas, estas duas personagens discorrem sobre a política, filosofia, história, arte ou religião.

 "- O Sr. Settembrini acrescenta - disse Naphta - que o idílio de Rousseau é uma trivialização racionalista da doutrina eclesiástica da fase primitiva, em que o homem era livre do Estado e do pecado, a fase inicial da proximidade de Deus e da relação filial com Ele, que nos incumbe reencontrar. O restabelecimento da Cidade de Deus, porém, após a dissolução de todas as formas terrenas, encontra-se situado no ponto em que se tocam a Terra e o Céu, o que é acessível aos sentidos e o que os ultrapassa. A salvação é transcendental e, quanto à sua república universal capitalista, meu caro doutor, é bastante estranho ouvi-lo falar de "instinto", referindo-se a ela. A tendência instintiva toma inteiramente o partido do nacionalismo e o próprio Deus implantou nos homens o instinto natural que induz os povos a separarem-se uns dos outros, formando Estados diferentes. A guerra... 
- A guerra - gritou Settembrini - até a guerra, meu caro, já teve que servir o progresso, como o senhor não pode deixar de admitir, ao lembrar-se de certos acontecimentos da sua época preferida: falo das Cruzadas. Essas guerras civilizadoras favorecem de modo sumamente feliz as relações entre os povos, no que diz respeito ao intercâmbio económico e político-comercial. Reuniram a humanidade ocidental sob o signo de uma ideia. 
- O senhor mostra-se muito tolerante para com essa ideia. Em compensação, empregarei muita cortesia numa pequena rectificação: as Cruzadas, assim como a intensificação comercial que produziram, não exerceram de modo algum uma influência internacionalista. Pelo contrário, ensinaram os povos a distinguirem-se entre si e estimularam fortemente o desenvolvimento da ideia do Estado nacional. 
-  É exacto no que se refere à relação entre os povos e o clero. Sim, nessa época começou a firmar-se a consciência do Estado nacional contra a presunção hierárquica."


5. O amor

     A estada de Hans no sanatório prolonga-se indefinidamente. Durante as primeiras semanas, Hans estava muito irritado com uma mulher russa porque fechava a porta do refeitório com um golpe; com a passagem do tempo, Hans acaba por se apaixonar por esta mulher, chamada Clawdia Chauchat, que é casada mas vive no sanatório sem o seu marido. Hans apaixona-se intensamente por ela e faz-lhe uma febril declaração de amor, mas sabe que a sua relação é impossível porque ela está casada e porque vais sair do sanatório:
"- Amo-te, - balbuciou -, amei-te sempre porque és o Tu da minha vida, do meu sonho, meu destino, meu eterno desejo... 
- Vamos, vamos - disse ela. - E se os teus perceptores te vissem... 
     Mas ele sacudiu a cabeça com desespero, o rosto voltado para o tapete, e respondeu: 
- Não me importaria com isso, não me importam todos estes Carducci e a República eloquente e o progresso humano no tempo, porque te amo! 
     Com a mão, ela acariciou-lhe suavemente os cabelos aparados da nuca. 
- Pequeno burguês! - disse ela. - Lindo burguês sombrazita húmida. É verdade que me amas tanto? 
     E arrebatado por este contacto, agora sobre ambos os joelhos, com a cabeça deitada para trás e com os olhos fechados, ele continuou a falar: 
- Oh, o amor, tu sabes... O corpo o amor a morte, os três são idênticos. Porque o corpo é a doença e a volúpia, ele é que causa a morte, sim, são ambos carnais, o amor e a morte, e aí reside o seu terror e o seu enorme sortilégio! Mas a morte, compreendes, é por um lado, coisa mal afamada, impudica, que faz corar de vergonha: e, por outro lado, é um poder muito solene e majestoso - muito mais digno do que a vida sorridente que ganha o seu dinheiro e vai enchendo a pança - muito mais venerável que o progresso que cavaqueia pelos tempos fora - porque ele é a história e a nobreza e a piedade e o eterno e o sagrado, que nos faz tirar o chapéu e caminhar em bicos dos pés... Ora, do mesmo modo, o corpo, ele também, e o amor do corpo, são uma coisa indecente e vergonhosa, e o corpo cora e empalidece, exteriormente, com espanto e vergonha de si mesmo."


6. Aprendizagem vital

     O protagonista permanece no sanatório durante sete anos. Ao longo deste tempo tem oportunidade de conhecer gente, viver experiências e aprender com algumas personagens, como os mencionados Settembrini e Naphta e o holandês Peeperkom. Além disso, a morte, muito presente no sanatório, fá-lo amadurecer, especialmente a do seu primo Joachim. Por tudo isto, esta obra é considerada um romance de formação, já que nele a personagem realiza todo o processo de aprendizagem.
"É um fenómeno tão melancólico como fatal essa ilusão falaz e crédula em que caem mesmo as almas viris durante a fase em que, na realidade, o processo destruidor se aproxima do fim; fenómeno impessoal, normal e superior a toda a consciência individual na mesma medida que a tentação de adormecer que seduz o homem que vai morrer de frio, ou a marcha circular de quem perdeu a rota. Hans Castorp, a quem a mágoa e a dor de alma não impediam de encarar esse fenómeno com objectividade, associou-lhe algumas observações mal formuladas, embora lúcidas, em conversas com Naphta e Settembrini, quando os informava sobre o estado do parente, e o humanista censurou-o por ter julgado erróneo o conceito comum, segundo o qual a fé filosófica e a confiança no bem eram sinal de saúde, ao passo que o pessimismo e a severidade em relação ao mundo constituíam sinal de doença; se assim fosse, não seria possível que a fase final, desesperadora, produzisse um optimismo de um cor-de-rosa tão sinistro, comparado com o qual a depressão precedente parecia revelar uma vitalidade sadia. Graças a Deus podia comunicar aos amigos compassivos que Radamanto, no meio de toda esta desesperança, profetizara um exitus suave e, apesar da juventude de Joachim, sem sofrimento."


7. A I Guerra Mundial: morte de uma época

       Enquanto Hans está no sanatório, estala a Primeira Guerra Mundial. Hans abandona o lugar onde permaneceu tanto tempo e, num brusco salto, vemo-lo em pleno combate. Ali o narrador, tomando o leitor participante, diz adeus à sua personagem, numa despedida que o é também de toda uma época que culmina com a destruição própria da guerra. Assim termina o romance.
"E assim, no tumulto, na chuva, no crepúsculo, perdemo-lo de vista. 
Adeus, Hans Castorp, bravo menino mimado da vida! A tua história terminou. Acabámos de contá-la. Não foi nem breve nem longa, é uma história hermética. Contámo-la por amor a ela mesma, não por amor a ti, porque tu eras simples. Mas, afinal, era a tua história, como te coube em sorte. Deves ter certas qualidades porque a viveste, não dissimulamos a simpatia pedagógica que, ao narrá-la, nutrimos por ti e que seria capaz de induzir-nos a tocar delicadamente o canto de um olho com a ponta do dedo, ao pensar que nunca mais tornaremos a ver-te nem ouvir-te. 
Adeus! Agora vais viver ou morrer! Tens poucas probabilidades. Este baile macabro para que foste arrastado durará ainda alguns anos criminosos e não queremos apostar muita coisa na tua possibilidade de escapar. Para falar com franqueza, não sentimos grandes escrúpulos ao deixar esta questão sem resposta. Certas aventuras da carne e do espírito, que educaram a tua simplicidade, permitiram-te vencer no domínio do espírito aquilo a que não escaparás certamente do domínio da carne. Momentos houve em que nos sonhos que tu "governavas" viste brotar da morte e da luxúria do corpo um sonho de amor. Será que de dessa festa da morte, dessa perniciosa febre que incendeia à nossa volta o céu desta noite chuvosa, também o amor surgirá um dia?"

Variações sobre um tema original, "Medicina" na Literatura XI, Op.29

ARS MEDICA ET CHIRVRGICA | Arte Médica e a História da Medicina

Representações da Condição Humana. Representações da Saúde e da Doença. Da Felicidade, Melancolia e do Desespero. Da Vida e da Morte. Na Arte, na Literatura, na Pintura, na Escultura, na Música. Fragmentos esparsos da Medicina na sua História.

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