LITTMANN
Usaste algumas vezes também tu
esse antigo instrumento do teu pai:
experimenta retirá-lo outra vez
do estojo desgastado e observa-o
trinta anos depois.
Pendura agora à volta do pescoço
esse objecto sagrado,
enfia nos ouvidos as olivas
e encosta o diafragma ao teu peito.
Consegues ouvir bem? Não tenhas medo
dessa música surda, repetida
em compasso binário, sincopado:
o embate da sístole e depois
o lento precipício da diástole
dentro de ti fluindo até ao fundo
sem fundo do teu corpo. Escuta bem
o ritmo fiel desse relógio.
Mesmo não tendo números nem ponteiros,
podes confiar nele: nunca se atrasa
e há-de marcar melhor que nenhum outro
as horas, os minutos, os segundos
do tempo que te cabe até ao dia
em que as notas soturnas dessa música
desaguarem serenas no silêncio
tal como milhares de outras que o teu pai ouviu
no mesmo Littmann Made in U.S.A.
Objecto que marca a entrada na formação médica clínica, o estétoscópio (do grego stéthos "peito" e skopéo "eu observo") foi desenvolvido pelo médico francês René Laennec no Hospital Necker, em Paris no ano de 1816 e tornou-se num dos símbolos mais universalmente reconhecíveis da identidade de quem o transporta aos ombros e acto médico em geral. David Littmann, (28.VII.1906 - 1.I.1981) foi médico cardiologista e professor da Harvard Medical School (U.S.A.). Filho dos imigrantes ucranianos, Issac Litman e Sadie Zewat Litman), o nome Littmann é bem conhecido pela patente do estetoscópio Littmann pela sua performance acústica.
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| Fernando Pinto do Amaral no Anfiteatro principal da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa |
Fernando José Branco Pinto do Amaral (Lisboa, 12.V.1960) é poeta, crítico literário e professor universitário. É filho de António Pinto do Amaral, médico, e de Maria Eugénia Rodrigues Branco, popular actriz da década de 1940. Frequentou a Faculdade de Medicina de Lisboa entre 1979 e 1982, mas desistiu do curso em prol das letras. Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas e doutorado em Literatura Românica, lecciona desde 1987 no Departamento de Literaturas Românicas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em 2012 publicou a colectânea de poesia Paliativos.
Variações sobre um tema original "Medicina" na Literatura VII, Op.23
ARS MEDICA ET CHIRVRGICA | Arte Médica e a História da Medicina
Representações da Condição Humana. Representações da Saúde e da Doença. Da Felicidade, Melancolia e do Desespero. Da Vida e da Morte. Na Arte, na Literatura, na Pintura, na Escultura, na Música. Fragmentos esparsos da Medicina na sua História.


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