Variações sobre um tema original, "Medicina" no Mundo: História da Medicina III, Op.24
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| A René Laenec e o primeiro estetoscópcio, Robert Thom |
"O estetoscópio foi inventado em 1816 por René Laennec (1781-1826), influenciado por Jean-Nicolas Corvisart (1755-1821), médico pessoal de Napoleão Bonaparte. Corvisart foi o primeiro a reconhecer o valor do método de percussão, descoberto no século XVIII, dando-lhe aplicabilidade clínica. A descoberta da percussão foi feita pelo médico austríaco Joseph Leopold Auenbrugger (1722-1809) e publicada num pequeno livro Inventum Novum, que praticamente caiu no esquecimento. Em 1808, Corvisart traduziu e publicou em francês o estudo de Auenbrugger, reabilitando-o. O método auscultatório de Laennec revolucionou a semiologia clínica. Antes do aparecimento do estetoscópio, o exame clínico de um doente baseava-se na pesquisa dos sinais do corpo através do olhar, complementado pela audição, pelo toque, pela avaliação da febre, pela caracterização do pulso e pela percussão.
| Primeiro estetoscópio, Laennec. |
A dificuldade que Laennec tinha em identificar os sons do corpo na observação de alguns doentes, quando simplesmente pressionava o ouvido sobre a pele, e as limitações do método da percussão, levaram-no a criar um dispositivo amplificador, um tudo de papel, que interpunha entre o corpo do paciente e o ouvido do médico, através do qual amplificava os sons do coração e da respiração, inventando assim o estetoscópio. Experimentou vários materiais e formas para o novo instrumento, tendo optado por um simples cilindro de madeira com cerca de 25 centímetros de diâmetro. A seguir começou a investigar os sons percecionados no doente através da auscultação, com as alterações patológicas detetadas na autópsia. Os resultados dessas experiências foram publicadas em 1819 no seu livro De L'Auscultation Médiate ou Traité du Diagnostique des Maladies des Poumons et du Coeur, que se tornou a base da moderna compreensão da patologia pulmonar e cardíaca. Como refere William Osler, Laennec revolucionou a clínica através de "uma simples extensão do método hipocrático da cama para o necrotério, e pela correlação dos sinais e sintomas de uma doença com as aparências anatómicas". O aparecimento de outros instumentos de diagnóstico, mais sofisticados, baseados nas imagens, não retirou ao estetóscópio a sua importância: ele continua a ser uns instrumento muito prático, indispensável no dia a dia clínico. E também um ícone, pois identifica em qualquer parte do mundo a profissão médica.
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| De L'Auscultation Médiate ou Traité du Diagnostique des Maladies des Poumons et du Coeur |
Em 1819, o primeiro estetoscópio constituia-se de um tubo de papel longo e enrrolado para "afunilar" o som. Simples, porém eficiente. Leannec deu o nome de estetoscópio a partir do grego (do grego "stéthos", peito e "skopéo", observar), bem como designou à técnica auscultação, de "auscultare" (ouvir).
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| Estetoscópio de Cammann |
Vinte e cinco anos depois, George P. Cammann de Nova Iorque, desenvolveu o primeiro estetoscópio com uma oliva para cada ouvido. Este modelo seria usado por mais de 100 anos, com pequenas modificações. Este novo método de auscultação não foi imediatamente aceite por alguns médicos, que preferiram continuar com a técnica de ouvir o tórax directamente com aplicação do ouvido. Apesar de o New England Journal of Medicine ter relatado, em 1821, a invenção do estetoscópio, em 1885 um professor de medicina declarava ainda: "Deus deu-nos ouvidos para ouvir, usem as orelhas e não um estetoscópio." Até mesmo o fundador da American Heart Association, LA Connor (1866-1950), continuava a utilizar um lenço de seda que colocava sobre a parede do tórax e não o estetoscópio.
O estetoscópio continuou evoluindo pelo final dos séculos XIX e início do século XX. Nessa época a peça terminal já apresentava a forma de uma campânula que possibilitava uma auscultação melhorada para os sons graves. Havia, no entanto, a necessidade de se melhorar a auscultação dos sons agudos, o que veio a ser feito com a introdução do diafragma. Em 1894, Robert C.M. Bowles patenteou a forma moderna do estetoscópio com diafragma, utilizando membranas de metal ou celulose. Posteriormente, os estetoscópios passaram a ser construídos tanto com campânula quanto com diafragma.
Em 1961, Dr. David Littman, distinto cardiologista, descreveu o modelo que veio a ser o mais utilizado na prática médica dos dias de hoje. Ele é construído com aço inoxidável, condutores de tygon (um polímero flexível em vez de borracha) e possui campânula e diafragma. Desde então o avanço permitiu incorporar algumas tecnologias, como a ultrassonografia ou o bluetooth, mas o modelo mais comummente usado é o que se aproxima ao dos anos 60 do século passado.
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| Modelo de Littman, 1961 |
Variações sobre um tema original "Medicina" no Mundo: História da Medicina III, Op.24
ARS MEDICA ET CHIRVRGICA | Arte Médica e a História da Medicina
Representações da Condição Humana. Representações da Saúde e da Doença. Da Felicidade, Melancolia e do Desespero. Da Vida e da Morte. Na Arte, na Literatura, na Pintura, na Escultura, na Música. Fragmentos esparsos da Medicina na sua História.




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