domingo, 1 de novembro de 2015

O Hospital Real de Todos-os-Santos | Variações sobre a Medicina em Portugal I, Op.1

   Em 1492 D. João III lançou a primeira pedra da construção do Hospital Real de Todos-os-Santos que veio a ser inaugurado por D. Manuel I em 1501 entre a actual Praça da Figueira e o Rossio. Este veio a substituir todos os hospitais medievais de pequenas dimensões pertencentes a diferentes ordens religiosas, como remonta à génese da sua designação.  Portugal inaugura o movimento europeu das construções hospitalares da época, assente numa lógica de unificação e centralização.

All-Saints.jpg
The Forerunners of Christ with Saints and Martyrs (c.1423-24).
National Gallery, London. Author Angelico
   Por ironia do destino em que assenta o próprio nome foi na festa ou solenidade do dia de Todos-os-Santos, celebrada em honra de todos os santos e mártires pelos crentes de muitas das igrejas da religião cristã a todos os primeiros dias de Novembro, que foi destruído pelo horrífico terramoto de 1755.

   A réplica de uma possível reconstituição de Lisboa e do Hospital antes do terramoto encontra-se patente no Museu da Cidade de Lisboa. Em sua homenagem encontra-se actualmente em construção um novo Hospital "de Todos-os-Santos" ou Centro Hospitalar Lisboa Oriental, que deverá albergar as várias unidades integrantes do actual Centro Hospitalar Lisboa Central, Campo Grande. 

   Segue-se um excerto de um artigo de João Martins e Silva, ex-director da Faculdade de Medicina de Lisboa sobre o início da Medicina Hospitalar.


"O Começo da Medicina Hospitalar

   O ensino e a prática de Medicina foram modificadas radicalmente com a fundação por D. João II, em 1492, do Hospital de Todos-os-Santos, em Lisboa. Alguns anos mais tarde, cerca de 1504, D. Manuel I, numa medida pioneira e de grande visão estratégica, determinou que a cirurgia fizesse parte da matriz da formação médica na Universidade, sendo o seu ensino realizado naquele Hospital.

   Ainda com D. João II, e depois pelo seu cunhado e sucessor D. Manuel I, foi profundamente alterada a organização dos cuidados de saúde à população, que passou a contar com instituições hospitalares de dimensão razoável, em substituição das albergarias e outras instalações precárias e dependentes da caridade. Já nos tempos do Condado Portucalense, existiam alojamentos semelhantes para socorrer os viajantes e asilar temporariamente os doentes desprotegidos e outros carenciados, designadamente crianças e velhos.

   A reorganização dos estabelecimentos hospitalares da época deveu-se fundamentalmente à escassez de rendimentos, à precaridade e exiguidade das instalações em que funcionavam as albergarias, enfermarias e os primitivos hospitais e, ainda, à declarada deficiência do serviço clínico e dos apoios disponíveis. Nessa perspectiva, a criação do Hospital (Real) de Todos-os-Santos conduziu à aglutinação de dezenas daquelas instalações que proliferavam por todos os bairros da antiga Lisboa. Nas outras principais cidades do Reino verificou-se idêntico processo de centralização dos recursos e dos serviços a prestar.

   A par com a criação daquele emblemático hospital de Lisboa, nasceu um outro movimento de inspiração cristã fundamentado na premência em prestar auxílio e dar tratamento aos doentes mais pobres e desprotegidos, de que veio a resultar a fundação, em 1498, da confraria de Nossa Senhora da Misericórdia. O primeiro estabelecimento das “Misericórdias” foi instalado junto à Sé em Lisboa, numas casas cedidas para albergar indigentes doentes. Em 1516, D. Manuel I, irmão de Dona Leonor, determinou que fosse concedida uma dotação especial que veio a ser decisiva para o desenvolvimento das “Misericórdias”. Enquanto as Misericórdias tinham por principal objectivo a prática da caridade, o Hospital de Todos-os-Santos, à semelhança de outros fundados no Reino a partir do século XVI, visava fundamentalmente o tratamento das feridas e das doenças graves, embora mantivesse, na linha da tradição das anteriores albergarias, um amplo sector para acolhimento dos peregrinos e indigentes da cidade. Rapidamente muitas outras unidades semelhantes foram sendo criadas por todo o País, perdurando (com óbvias modificações) até aos dias de hoje. Consta que a criação das Misericórdias teve origem nas recomendações da rainha Dona Leonor junto de seu marido, instada pelo seu confessor a promover o auxílio real à população mais necessitada.

Painel de azulejos mostrando a fachada do Hospital Real de Todos-os-Santos,
c. 1740, Museu da Cidade de Lisboa.

   Pela documentação conhecida, o Hospital de Todos-os-Santos (que se localizava na antiga Praça da Figueira com a fachada orientada para o Rossio) era um edifício majestoso para a época. Na traça original, o hospital tinha três enfermarias num piso superior e, no andar inferior, havia dois espaços amplos com função de albergaria, um recolhimento para crianças abandonadas (criandário), uma casa para doentes alienados e outra para os incuráveis, além de quartos para doentes de condição social elevada. As enfermarias destinavam-se a doentes do foro médico, outra abrigava feridos requerendo tratamento cirúrgico, uma terceira era reservada somente a mulheres, qualquer que fosse a sua doença, e havia ainda um sector para doentes com enfermidades venéreas e sífilis (morbo serpentino). No caso de aumentar o número de doentes a requererem internamento, havia espaços para instalar mais algumas enfermarias de recurso. Além dos doentes internados, o serviço incluia uma vasta consulta externa. Para todo o serviço, o pessoal clínico (permanente) limitava-se a dois médicos, dois cirurgiões e um mestre em tratamento da sífilis, sendo a gestão da responsabilidade de três ou quatro padres da Confraria de Santo Eloi, um dos quais era designado provedor. O edifício foi destruído por dois incêndios (1610 e 1750) e sucessivamente reconstruído, desaparecendo definitivamente no terramoto de 1755. A primeira reconstrução aumentou substancialmente o espaço útil do hospital e modificou a forma do edifício para a de uma cruz, com quatro segmentos iguais. Um dos braços era ocupado pela igreja, com entrada por uma escadaria do lado do Rossio. Os restantes braços eram ocupados por três grandes enfermarias principais (a São Cosme, para os feridos, a de Santa Clara para as mulheres e a de S. Vicente para os doentes com febres), num total de 60 leitos dispostos de modo a deixarem um espaço livre para corredor. Além destas enfermarias (exemplares para a época) havia muitos outros espaços onde cabiam leitos à medida das necessidades, pelo que a população hospitalizada variava entre cerca de 300 a 600 doentes. As características hospitalares pouco ou nada mudaram até um século mais tarde, excepto no movimento dos doentes, que aumentou para cerca de seis mil entradas por ano. A exiguidade de pessoal clínico mantinha-se, havendo ainda mais oito enfermeiros fixos, dos quais cinco eram mulheres. A mortalidade continuava elevadíssima entre os doentes hospitalizados, dos quais morria cerca de um quinto.

Representação do Terramoto de Lisboa de 1 de Novembro de 1755

João Martins e Silva «Anotações sobre a história do ensino da Medicina em Lisboa, desde a criação da Universidade Portuguesa até 1911 – 1ª Parte». RFML 2002; Série III; 7 (5): 237-249. (Ex-Director da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa)


'Quando Lisboa Treme - de 1755 à Cidade Resiliente' é a exposição que o Museu de Lisboa inaugurou no Pavilhão Preto, assinalando os 260 anos da catástrofe natural. São apresentadas gravuras da destruição da cidade. maquetas da famosa Gaiola Pombalina. bombas de água utilizadas na época, uma plataforma sísmica interativa, equipamentos de medição de sismos e ilustrações das atividades da proteção civil. A exposição procura dar a conhecer mais sobre as caraterísticas associadas aos perigos e riscos dos fenômenos sísmicos. É uma iniciativa da Cámara Municipal de Lisboa em parceria com o Instituto D. Luiz. Instituto Portugués do Mar e da Atmosfera e o Instituto Superior Técnico. | Até 1 de Março, de Terça a Domingo, entre as 10h00 e as 18h00. A entrada é livre.
Variações sobre um tema original "Medicina" em Portugal I, Op.1

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