Crónica escrita em voz alta como quem passeia ao acaso | António Lobo Antunes
Para mim em criança o Hospital Miguel Bombarda eram pessoas a fazerem-me chichi em cima e a cantarem o fado. O meu pai deixava-me no pátio dentro do carro
enquanto ia trabalhar e homens de cabeça raspada fardados de cinzento andavam
de olhos de vidro em torno do meu pânico. De tempos a tempos um deles remexia a braguilha na pressa atarefada de quem procura os trocos no bolso, aproximava-se do automóvel, alargava as pernas regaladamente e urinava contra a janela do outro lado da qual eu engrenava uma após outra as Ave-Marias do terror.
No Natal sentavam-me numa cadeirinha de veludo junto do director inválido, os olhos de vidro ofegavam em bancos corridos por trás de mim, um senhor de patilhas com uma guitarra e um senhor de patilhas com uma viola surgiam numa espécie de palco, enfiavam as unhas postiças nas cordas e Hermínia Silva, Márcia Condessa e Fernanda Baptista dobravam o queixo para trás e uivavam à lua de nariz no tecto, como os cães de guarda das quintas. Assim que se calavam, uns sujeitos de branco pastoreavam os olhos de vidro pelas escadas abaixo talvez para fazerem chichi contra os automóveis das fadistas e o director inválido de cara à banda
(o seu rosto eram metades completamente diferentes que se ignoravam uma à outra com absoluto desdém)
presidia a uma espécie de lanche durante o qual eu com um pastel de bacalhau cravado num palito a meio caminho entre o pasto e a boca, mirava extasiado as cantoras que introduziam pastéis de nata sucessivos nos enormes lábios vermelhos; o tranquilo canibalismo destes passes de mágica fascinava-me e eu esperava sempre vê-las pregarem o nariz no tecto entre duas dentadas, alargarem os ombros trágicos nas franjas do xaile e soltarem os seus gritos trémulos que fosforesciam sobre croquetes e tacinhas de doces.
Muitos anos depois troquei o Hospital de Santa Maria pelo Hospital Miguel Bombarda, diplomaticamente convidado a ir-me embora por ter dito ao chefe de equipa que ele cruzava as pernas como se não tivesse nada entre elas
(continuo a achar que não tinha)
e o que encontrei foi uma mistura de filme de Fellini com o casarão da minha avó, cheio de infelizes a cambalearem sob a martelada das pastilhas e tantos percevejos que se não viam os médicos.
Não me lembro já qual das minhas filhas me perguntou se o Hospital Miguel Bombarda se chamava Hospital Miguel Bombarda porque Miguel Bombarda tinha sido um grande maluco mas deve ter sido a mesma que ao ver a rotunda e a estátua do Marquês de Pombal declarou que nos achávamos diante do Ramiro Leão. Talvez o Miguel Bombarda tenha de facto sido um grande maluco mas eu fui muito mais doido ao acreditar nos psiquiatras
(como não aprendo com os erros tempos depois acreditei nos críticos literários)
nos antipsiquiatras, nos psicanalistas, nos psicólogos, nesse enxame de patetas enfáticos erguendo das cabeças dos outros pomposos castelos de cartas e teorias sem humor.
Hoje acredito em pouca coisa. Não acredito nos psicanalistas nem nos intelectuais, mas acredito na Isabel quando diz: Gosto muito de si pai. Ontem por exemplo passámos um dia maravilhoso no Cascais Shopping
(um sítio lindo)
assistimos ao filme Querida Ampliei os Miúdos
(há séculos que não se via uma fita tão boa)
jantámos hamburgers no McDonald's
(um restaurante esplêndido)
combinámos passeios de bicicleta em Agosto na Praia das Maçãs e aceitámos vários novos sócios para o Clube dos Mais, fundado por Saul Bellow, pela Joana e por mim. Entre outros foram admitidos o mais bonito dos feios e o mais feio dos bonitos, o mais cabeludo dos carecas e o mais careca dos cabeludos.
Depois passeámos aos encontrões de mão dada
(que bom)
a ver lojas, ambos com os dedos sujos de lápis de cor dos trabalhos de casa que fizemos a meias, e eu tive a certeza de nunca ir morrer. Lembrei-me quando a minha filha mais velha me telefonou aflita para comunicar que tinha tido a primeira menstruação, de lhe mandar um ramo de flores, participar dias depois com o orgulho dos sedutores de sucesso
- Como vês sou o único homem que te manda flores
e de ela responder
- Não, é só o primeiro.
O problema com as filhas é que se é apenas o primeiro, de forma que nos resta, julgo eu, tentar salvá-las dos chichis, dos fados e dos psicanalistas intelectuais. O que é mais ou menos tudo a mesma coisa. E repetir-lhes o que Cendrars explicou uma ocasião à filha: todos os livros do mundo não valem uma noite de amor.
(As noites de amor com outros bem entendido e, claro, os livros que não foram escritos por nós.)
in Público Magazine Nº 156, 28 de Fevereiro de 1993
Variações sobre um tema original, Medicina na Literatura I, Op.8

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