segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

De humani corporis fabrica libri septem

Variações sobre um tema original, "Medicina" no Mundo: História da Medicina I, Op.9

Um precioso excerto do Prof. Manuel Valente Alves reflete e reencontra a História da Medicina em Vesálio na representação à época d'"A medicina e a arte de representar o corpo e o mundo através da anatomia"

       "Médicos e artistas partilharam, na Antiguidade, o mesmo interesse pela anatomia mas sob diferentes perspectivas: os primeiros, na tentativa de desvendar os mistérios do corpo e da vida (Aristóteles e Galeno dissecaram cadáveres para compreender a razão de ser do corpo humano); os segundos, na busca da proporção, da beleza exacta que permitia aproximar o mundo dos homens ao dos deuses (Fídias, contemporâneo de Policleto, esculpiu os deuses sob a forma humana no Pártenon): «Se os fenómenos naturais revelam ao olho humano apenas aspectos não essenciais, aleatórios e passageiros, então a arte tem de criar para eles o essencial, o significativo, as partes eternas» (Riegl 1897­‑1898 Historical Grammar of the Visual Arts. Translated by Jacqueline E. Jung. New York: Zone Books, 2004)
       Sendo praticamente impossível aceder aos originais (a maioria desapareceu), a leitura de fontes literárias, como os Placita Hippocratis et Platonis de Galeno, pode dar­‑nos, como sugere Erwin Panofsky, alguma informação sobre a antropometria clássica, ajudando­‑nos a compreender melhor a teoria grega das proporções: «Crisipo […] defende que a beleza não reside nos elementos mas na proporção harmoniosa entre as partes, a proporção de um dedo com o outro, de todos os dedos com o resto da mão, do resto da mão com o pulso, deste com o antebraço, do antebraço com o braço todo, afinal, de todas as partes com todas as outras, como está escrito no cânone de Policleto» (1955:53 O Significado nas Artes Visuais. Tradução de Diogo Falcão. Lisboa: Editorial Presença, 1989).
       A anatomia humana descritiva foi a primeira disciplina a autonomizar­‑se dos saberes tradicionais. A ideia descritiva, quer da morfologia defendida por Galeno na Antiguidade (visão do corpo do homem como o de um animal na plenitude do seu movimento vital), quer da morfologia de Vesálio no Renascimento (o corpo humano como uma estrutura arquitectó­nica), manteve­‑se pelo menos até ao começo do século XIX. 
       A morfologia funcional galénica, adaptada às diversas mentalidades que integravam o mundo medie­val, regeu praticamente todo o saber médico da Idade Média, quer no mundo árabe quer no Ocidente cristão. 
       As ideias de Mondino dei Luzzi (fl. 1270­‑1326), que fez renascer a anatomia ocidental no século XIV, apesar de algumas peculiaridades, não se distinguem das de Galeno e Aristóteles. A anatomia vesaliana imperou desde meados do século Xvi até à morfologia anátomo­‑comparativa posterior ao século XVIII. O que não foi óbice para que ambos os critérios, o funcional e o arquitectural, se juntassem, como sucedeu com o conhecido tratado De corporis humani fabrica de Samuel Thomas von Sömmerring (1755­‑1830), publicado em Frankfurt entre 1794 e 1801. [...] 

Vesálio tal como surgiu na primeira edição de De fabrica

       Em 1543, Andreas Vesalius (1514­‑1564) publica em Basileia De humani corporis fabrica libri septem, uma obra­‑prima, magnificamente ilustrada provavelmente por Jan van Calcar (m. 1568), um artista originário, tal como Vesálio, dos Países Baixos. Os blocos executados em Veneza foram enviados para Basileia, onde o impressor Johannes Oporinus os utilizou para produzir duas edições de De fabrica.
       De fabrica oferece­‑nos um estudo anatómico e fisiológico detalhado de todas as partes do corpo humano, baseado no trabalho de Vesálio como prossector público na Universidade de Pádua, onde era permitido (contrariamente ao que acontecia em Roma) dissecar cadáveres humanos (em geral de condenados à morte). As suas observações atentas e rigorosas vieram corrigir muitos dos erros de Galeno e dos seus seguidores permitindo um claro progresso da medicina.
       Este tratado de anatomia é um objecto de rara beleza, em que tudo se articula maravilho­samente bem – as formas, os símbolos, as palavras –, um verdadeiro monumento do desenho gráfico. Repare­‑se na página de rosto. Trata­‑se da imagem de uma movimentada cena de dissecação, plena de simbolismo. No centro da cena está Vesálio, em pessoa, conduzindo com as suas próprias mãos a dissecação, relevando deste modo a importância da experiência pessoal. Encontra­‑se rodeado por numerosa assistência, de que se destacam os quatro mais proeminentes anatomistas da antiguidade – Aristóteles, Herófilo, Erasístrato e Galeno – em cuja linhagem se pretende inscrever: «Ao introduzir os Antigos deste modo, Vesálio está a retratar­‑se a si próprio como um “Moderno­‑Antigo”, e acima de tudo como um homem do Renas­ci­mento» (Cunningham; Hug, Focus on the Frontispiece of the Fabrica of Vesalius, 1543. (Catálogo da exposição). Cambridge: Cambridge Wellcome Unit for the History of Medicine, 1994.).
      
Pormenor da página de título da obra De humani corporis fabrica.
Vesálio esteve intensamente envolvido na produção do livro, tendo escolhido o papel e supervisionado as gravuras

       As mais de duzentas ilustrações do De fabrica estão divididas em três categorias: o esqueleto, do qual há três ilustrações, os músculos, em número de catorze, e as partes individuais do corpo. As gravuras mais impressionantes são as dos músculos que estão dispostas de forma a mostrar uma progressiva dissecação, desde a superfície do cadáver até às suas camadas mais profundas.
       O cadáver é representado em poses «vivas», numa encenação em que não falta a alegoria paisagís­tica, a ideia da Arcádia, o mítico paraíso terrestre. Assim, o uso da paisagem como fundo destina­‑se não só a criar um sentido de realidade e perspectiva às figuras anatómicas, mas também a evocar um tema clássico inspirador de muitos artistas do Renascimento à actualidade. Recordo, só a título de exemplo, duas magníficas pinturas do artista neoclássico francês Nicholas Poussin (1594­‑1665), uma de 1628/29 e outra de 1638/40, exemplificadoras da persistência da tradição da paisagem arcadiana no século seguinte. Em ambas um grupo de pastores descobre um túmulo na paisagem com a inscrição Et in Arcadia ego, mas os significados, no entanto, divergem: num caso Poussin reflecte sobre a morte e no outro sobre a mortalidade. Com efeito, a conhecida frase latina «tanto pode significar no primeiro quadro», num contexto em que o drama e a surpresa se impõem, «que a morte se instalou definitivamente na Arcádia (transformando­‑a num paraíso irremediavelmente perdido), como mais poética e realisticamente no segundo quadro», em que reina um ambiente de calma e reflexiva serenidade, «que quem ali está sepultado nasceu, viveu e morreu na Arcádia, passando deste modo a fazer parte da própria natureza arcadiana, uma natureza também ela humana» (Alves, Manuel Valente «Et in Arcadia ego». Colóquio Artes. 108:(1996)17­‑22).

Et In Arcadia Ego, também conhecido por Les bergers d'Arcadie (Os pastores da Arcádia),
pintura de Nicolas Poussin (1594-1665), patente na exposição permanente do Museu do Louvre, Paris

       É nesta tradição que se inscrevem os fundos das catorze xilogravuras de músculos do De fabrica, desenhados com a mesma clareza e rigor que os objectos anatómicos em si, formando duas paisagens contínuas. Curiosamente, só em 1964 é que a conectividade com os segmentos do verso dos frisos panorâmicos foi pela primeira vez reconhecida, sendo hoje praticamente certo que a topografia tem uma relação directa com as «arcadianas» colinas Euganei, entre Pádua e Veneza, celebradas na época pela sua beleza pitoresca e pelo calor das suas primaveras. Refira­‑se também a utilização de elementos clássicos, como o Torso de Belvedere de Apollonius, a Vénus de Milo, o Doríforo de Policleto, conhecidas esculturas da antiguidade que serviram de modelo para algumas ilustrações.
       Uma segunda edição revista é publicada por Oporinus em 1555. Nela, Vesálio põe pela primeira vez claramente em causa a tradição, demonstrando que, contrariamente às afirma­ ções de Galeno, não existem poros interventriculares no coração, pelo que o sangue não pode passar do ventrículo esquerdo para o ventrículo direito através do septo. Estavam assim abertas as portas à descoberta da circulação por William Harvey (1578­‑1657) que, em 1628, publica Exercitatio anatomica de motu cordis et sanguinis in animalibus, o livro fundador da fisiologia moderna onde demonstra que o coração funciona como uma bomba e o sistema circulatório como um circuito fechado. [...]

       Concluindo: tal como o trabalho de Leonardo e Vesálio no século XVI, a obra paradoxal de Albinus no século Xviii é verdadeiramente um trabalho de charneira, que representa o fim de uma era e o começo de outra no campo da ilustração anatómica. Muitas questões estavam em jogo nas mudanças filosóficas, políticas, artísticas, científicas, religiosas e sociais operadas na segunda metade do século Xviii. A ciência (iluminista) do sujeito que então nascia irá mostrar, daí em diante, a morte tal como ela é, ausência de vida, enquanto que a arte do cená­ rio nunca mais há­‑de conjurar o cadáver em ambientes de imaginários morais, poéticos e teológicos.

Manuel Valente Alves em "Arte Médica e Imagem do Corpo". Catálogo da exposição homónima da Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa, 2010



Página de título da obra De humani corporis fabrica, onde se vê Vesálio num amplo anfiteatro anatómico a dissecar um cadáver de uma mulher. 

       O Homem celebrado como o pai da Anatomia é um flamengo chamado Andreas Vesálio (1514-1563), filho de um boticário. Estudou em Luvaina, Montpellier e Paris, e em 1537 foi para Pádua viver com um compatriota, Stephen Calcar, que aprendia pintura com Ticiano. Calcar ilustrou magistralmente o trabalho de Vessálio, contribuindo muito para a fama do anatomista. No mesmo ano, Vesálio foi nomeado professor de medicina e anatomia, e em 1538 foi publicada a sua obra Tabulae anatomicae sex, "Seis gravuras anatómicas", que continha os eternos erros de Galeno.

       Mas ao longo dos cinco anos seguintes, Vesálio desembaraçou-se dos dogmas de Galeno e em 1543, com apenas vinte e oitos anos de idade, terminou o seu monumental estudo, De humani corporis fabrica libri septem, "Sete livros sobre a estrutura do corpo humano", provocando um escândalo. A maior parte dos professores da universidade eram adeptos de Galeno e manifestaram-se contra Vesálio, contestando ferozmente a sua obra.

       Vesálio acertou onde tantos outros tinham errado, mas a sua intenção não era triunfar por razões pessoais. O mar de ignorância que tinha de encarar era vasto e também havia a má vontade dos seus antagonistas. Incapaz de se opor a eles, irritado pelos colegas e ameaçado pela Igreja, Vesálio queimou todos os seus estudos por publicar, partindo seguidamente para Pádua para se tornar médico do imperador Carlos V, e mais tarde Filipe II de Espanha. E assim terminou uma brilhante carreira científica. Passou-se algum tempo antes dos outros cientistas começarem a apreciar a obra de Vesálio. A revelação dos erros de Galeno foi um grande choque. E o pior de entre eles estava relacionado com a anatomia do fígado, o maxilar superior e o útero. O que mais contrariava os seguidores de Galeno era o facto de Vesálio não aceitar a existência de poros no septo através do qual o sangue passava do ventrículo direito para o esquerdo. Também é estranho que Galeno, autor de numerosas dissecações, tenha errado na descrição de tantas partes do esqueleto, como o esterno, o sacro e as cartilagens articulares do joelho. É verdade que o trabalho de Vesálio não era desprovido de erros. Não tinha, por exemplo, compreendido bem o mecanismo de circulação; colocava a lente ocular no centro da pupila; julgava que a vena cava vinha do fígado; que havia um músculo no interior do nariz e sete e não doze pares cranianos. No entanto, De fabrica podia ser considerado como um dos mais importantes livros publicados, e a base da Medicina moderna.


Variações sobre um tema original, "Medicina" no Mundo: História da Medicina I, Op.9

ARS MEDICA ET CHIRVRGICA | Arte Médica e a História da Medicina
Representações da Condição Humana. Representações da Saúde e da Doença. Da Felicidade, Melancolia e do Desespero. Da Vida e da Morte. Na Arte, na Literatura, na Pintura, na Escultura, na Música. Fragmentos esparsos da Medicina na sua História.

Sem comentários:

Enviar um comentário