terça-feira, 15 de março de 2016

Miguel Torga a propósito do discurso de tomada de posse do Presidente da República

Miguel Torga a propósito do discurso de tomada de posse do Presidente da República proferido a 9 de Março de 2016. 
Variações sobre um tema original, "Medicina" na Literatura III, Op.15

   Sua Excelência o Presidente Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa, o vigésimo da República Portuguesa, tomou posse esta semana. É notória a sua admiração pela Medicina, a caixa de comprimidos que sempre traz no bolso e os traços de hipocondria em várias ocasiões assumidos de forma despreconceituosa. No seu discurso, o novo Presidente citou António Lobo Antunes a propósito da vocação universal e marítima dos portugueses, Miguel Torga sobre nas suas reflexões sobre a portugalidade e Mouzinho de Albuquerque. Mas foi Miguel Torga que mais extensamente o fez no final do discurso. Torga que, um dia, disse: “O meu partido é o mapa de Portugal.” Pátria Portuguesa que vi como o traço de união do discurso do agora Presidente da República: “Identidade nacional feita de solo e sangue, e aposta na Língua, na Educação, na Ciência, na Cultura, na capacidade de saber conjugar futuro com passado, sem medo de enfrentar o presente.” 

   Não deixa de ser notável que dois dos três autores citados tenham, como na Literatura, encontrado na Medicina algumas das suas características mais humanísticas vertidas, também, na escrita. E ainda que nunca tivéssemos um Presidente da República médico, chegámos a ter um ilustre médico candidato nas presidenciais de 1925, Carlos Belo de Morais, o primeiro diretor da Faculdade de Medicina de Lisboa.

   Numa semana em que Miguel Torga foi resgatado do esquecimento com particular vínculo, será dado destaque a este Médico e um dos mais importantes escritores do Séc. XX nas próximas publicações. Nesta cita-se um artigo publicado esta semana que contextualiza a importância de Miguel Torga no discurso proferido. A Propósito da discurso de tomada de posse do XX Presidente da República, escreveu o Jornalista Sérgio Gomes no Jornal Público:

Miguel Torga em sua casa. 

"Miguel Torga e a consciência da portugalidade 
   “O difícil para cada português não é sê-lo; é compreender-se. Nunca soubemos olhar-nos a frio no espelho da vida. A paixão tolda-nos a vista. Daí a espécie de obscura inocência com que actuamos na História”. Este é o início da citação de um texto de Miguel Torga de 1987 com que Marcelo Rebelo de Sousa concluiu ontem o discurso de tomada de posse como Presidente da República. Quis assim remar contra aquela característica bem portuguesa de minimização das suas virtudes e capacidades, a eterna “inquietação encarnada” de que fala o poeta dos Contos da Montanha.
   Em 2006, no discurso que abriu o seu primeiro mandato como Presidente, Cavaco Silva tomou também de empréstimo uma frase de Torga — “nesga de terra debruada de mar” — para qualificar Portugal e a sua vocação marítima, cuja geografia abre um amplo campo de possibilidades que havia que explorar.
   A citação de grandes nomes da galeria da literatura portuguesa — Camões, Pessoa, Torga — é uma prática recorrente nos discursos políticos, e por maioria de razão no caso dos Presidentes da República. Sabe-se que Ramalho Eanes é também um grande admirador da escrita e da figura de Torga. Não nos tendo sido possível confirmar a presença de referências à sua obra nos dois discursos de tomada de posse do militar-Presidente, coube a Eanes, por exemplo, fazer-lhe o elogio e a entrega da primeira edição do Prémio Camões, na cerimónia do 10 de Junho de 1989. E por diversas vezes se referiu à escrita, e ao exemplo, do escritor transmontano — que uma vez disse ao Presidente: “Seja sério, mas não se leve demasiado a sério”. “O Presidente Ramalho Eanes é um grande admirador de Miguel Torga, e citou-o inúmeras vezes, mas não posso precisar se o fez nos seus discursos de posse”, disse ao Jornal Público o general Garcia dos Santos, que foi seu chefe da Casa Militar, acrescentando, de resto, que Eanes “sempre teve o hábito muito forte de citar escritores, portugueses e estrangeiros”, o que resulta do seu grande interesse pela literatura.
    Mário Cláudio ouviu o discurso de Marcelo Rebelo de Sousa e vê no recurso a Miguel Torga algo natural. “Torga é uma personalidade a que se pode recorrer facilmente, porque é uma espécie de consciência da portugalidade”, diz o escritor, lembrando que ele escreveu um livro intitulado Portugal (1950). Mas não deixa de manifestar “alguma surpresa” pelo facto de o novo Presidente ter ido buscar um escritor que, “apesar da sua grande força telúrica, não deixa de ser um ânimo exaltado, um pessimista, sempre a queixar-se de tudo”. Por outro lado, Mário Cláudio estabelece um paralelo entre Torga e Eduardo Lourenço — que Marcelo convidou para integrar o Conselho de Estado. “São ambos personagens nascidos no interior, representam a interioridade, e tanto a criação poética de Torga como a produção ensaística e filosófica de Lourenço são vistas como consciências da Pátria, das suas raízes”. Nesse sentido, o autor de Astronomia acha normal que estas duas figuras da cultura portuguesa tenham agora uma presença mais notória no discurso e no imaginário político. Camões — cuja obra Jorge Sampaio citou, no seu discurso de 2001, como “exemplo de um tempo de mudança, incerteza e globalização” — “foi transformado em busto; e Pessoa é um urbano”, diz Mário Cláudio. E acha que no contexto actual, e com a assumida preocupação de realçar “a interioridade e as raízes mais profundas” do país, Marcelo Rebelo de Sousa — que, recorde-se, lançou a sua candidatura presidencial em Celorico de Basto, terra minhota onde tem raízes familiares —, evitaria citar “um poeta estrangeirado e cosmopolita”. 
Sérgio C. Andrade
in Jornal Público, 10.III.2016



Variações sobre um tema original "Medicina" na Literatura III, Op.15

ARS MEDICA ET CHIRVRGICA | Arte Médica e a História da Medicina

Representações da Condição Humana. Representações da Saúde e da Doença. Da Felicidade, Melancolia e do Desespero. Da Vida e da Morte. Na Arte, na Literatura, na Pintura, na Escultura, na Música. Fragmentos esparsos da Medicina na sua História.

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